Dificilmente um grupo mediúnico deixará de ser procurado por pessoas que desejam assistir aos seus trabalhos. Uns por mera curiosidade, outros na esperança de se deixarem convencer, ou de se manterem na sua vaidosa e tola descrença, outros na expectativa de uma cura, seja de males orgânicos, seja de desarmonizações espirituais, como a obsessão, estados de angústia ou de desespero, ante a partida de pessoas queridas.
Os motivos são muitos, certamente relevantes, e a nós, espíritas, custa recusar pedidos de ajuda a pessoas que, muitas vezes, nos são muito caras. O certo, porém, é que não estaremos recusando ajuda simplesmente por não concordarmos com o eventual comparecimento de alguém aos trabalhos do grupo.
Sabemos que esta reserva é quebrada, com frequência, em muitos grupos, enquanto outros adotam a prática de abrir suas portas, em caráter permanente, seja a um público reduzido e selecionado, seja a qualquer pessoa que se apresente.
Na minha opinião, somente em casos excepcionais se justifica a presença de pessoas estranhas ao grupo, nos trabalhos de desobsessão. Sob condições normais, ela não é necessária à tarefa que nos incumbe junto aos obsidiados que buscam o socorro de um grupo mediúnico. Mais do que desnecessária, a presença de pessoas perturbadas, no ambiente onde se desenrola o trabalho mediúnico, pode provocar incidentes e dificuldades insuperáveis. Sei que alguns dirigentes de grupo objetarão a esse radicalismo; julgo, porém, que, como regra geral, deve ser preservada a intimidade do trabalho mediúnico. É preferível pecar por excesso de rigor, do que arriscar-se a pôr em xeque a harmonia e a segurança das tarefas. Em casos excepcionais, grupos que contem com excelente cobertura espiritual poderão admitir essa prática, mas, é bom repetir, não como norma de procedimento O grupo pode perfeitamente assistir os companheiros encarnados sob as provações da obsessão, sem introduzi-los no seu ambiente de trabalho. Não é a presença física deles, junto ao grupo, que vai facultar ou facilitar a tarefa, ao contrário, essa presença pode causar consideráveis transtornos. Os benfeitores espirituais dispõem de recursos mais seguros e eficazes para isso, não havendo necessidade de correr riscos indevidos. Assim, a não ser que os responsáveis espirituais pelo trabalho recomendem taxativamente a presença da pessoa, no ambiente em que se realizam as sessões, isso deve ser normalmente evitado.
Ainda que aqueles que solicitam nossa ajuda interpretem a recusa como falta de caridade, ou ausência de espírito de colaboração, sabemos que assim não é. Também não se torna necessário descer a pormenores explicativos e justificativos dessa atitude. Basta dizer ao interessado que não é necessária a sua presença física, para que o trabalho seja feito. E não é mesmo, na imensa maioria dos casos. Pelo menos é essa a experiência que tenho tido, em vários anos de prática.
O que acontece é que pessoas sob o domínio de obsessores implacáveis e vingativos, rancorosos e violentos, apresentam invariavelmente um componente mediúnico, ou seja, são
também médiuns, embora desgovernados, desajustados e ignorantes de suas faculdades e Possibilidades.
No livro NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE, narra André Luiz o tratamento de um caso de possessão. Hilário pergunta ao Instrutor se deve considerar o doente, por nome Pedro, como médium: — “Pela passividade com que reflete o inimigo desencarnado, será justo tê-lo nessa conta, contudo, precisamos considerar que, antes de ser um médium na acepção comum do termo, é um Espírito endividado a redimir-se”. E mais adiante, na página seguinte (76, da 6ª edição da FEB): “... Por esse motivo (compromissos do passado), Pedro traz consigo aflitiva mediunidade de provação”.
Assim, na condição de médium desgovernado, e não integrado na equipe que constitui o grupo que se incumbe de socorrê-lo, o obsidiado, ou possesso, facilmente introduzirá nele um fator de perturbação e desequilíbrio, que poderá trazer sérias complicações, se o grupo não estiver muito bem preparado para essa responsabilidade.
Em suma: a meu ver, como regra geral, o grupo mediúnico não deve permitir a presença de pessoas estranhas às suas tarefas. Somente em condições muito especiais, excepcionais mesmo, deverá fazê-lo, se dispuser de cobertura e consentimento expresso dos benfeitores espirituais.
Esses casos serão previamente selecionados pelos mentores do grupo, e nem sempre conhecemos as razões pelas quais assim decidem. Pode ser que o tratamento exija certos tipos conjugados de mediunidade, ou de recursos outros, de que o grupo não disponha no momento, como, por exemplo, número maior de médiuns, ou um doutrinador especial. Pode ser, também, que seja necessária a presença de determinada pessoa encarnada, com a qual desejam pôr o Espírito manifestante em contacto direto. Pode ser, ainda, que não desejem, com um caso especial, interferir no fluxo normal do trabalho. Ou então, estaria havendo dificuldade em atrair o Espírito a ser tratado, até ó local onde habitualmente se realiza a sessão. Enfim, há sempre razões respeitáveis, quando um dirigente espiritual de nossa confiança propõe que o trabalho seja feito à parte. Evidentemente, nessa hipótese, a sessão exige tais cuidados que, obviamente, não poderia ser realizada sob as condições normais. Nestes casos, os Espíritos orientadores solicitarão uma sessão especial, em dia e hora previamente combinados, designando, ainda, quem dela deve participar.
Isso, no que diz respeito a pessoas perturbadas, sob o domínio de rancorosos obsessores ou possessores; mas, e aqueles que apenas desejam “assistir” aos trabalhos? Devem ser admitidos?
Na minha opinião, não. Não que o grupo mediúnico seja uma sociedade secreta, hermética, esotérica e misteriosa, mas, porque é da sua essência uma atitude de recato, de sigilo, de discrição.
O trabalho mediúnico, especialmente o de desobsessão, não é para ser divulgado, nem exibido, como espetáculo público.
Há algum tempo, um amigo a quem muito respeito e admiro, pelas nobres qualidades de caráter e cultura, começou a observar, em seu próprio lar, a formação de um pequeno grupo mediúnico. Sem ser espírita, mas dotado de curiosidade intelectual e pragmatismo, passou a assistir, a distância, algumas sessões, e a solicitar livros, para informar-se do assunto. Ao observar que os trabalhos enveredavam, como acontece com frequência, pelo atendimento aos sofredores desencarnados, me fez uma pergunta perfeitamente válida: Você não acha que existe aí um problema ético bastante grave?
Queria referir-se, como explicou mais adiante, às interferências voluntárias ou involuntárias, do grupo, em problemas de outras pessoas, encarnadas ou não, e ao trato das revelações de caráter íntimo, que ocorrem no andamento dos trabalhos mediúnicos. É certo,
realmente que o diálogo com os Espíritos que se arvoram em cobradores de faltas alheias traz revelações e informações que devassam a intimidade alheia.
A pergunta, como disse é válida, e o problema, antiquíssimo. Voltemos, Uma vez mais, à experiência e à sabedoria do nosso amado Paulo: — Pelo contrário — escreve ele, na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 14, versículos 24 e 25 —, se todos profetizam4, e entra um infiel, ou não-iniciado, será convencido por todos, julgado Por todos. Os segredos de seu coração serão descobertos e, prostrado de rosto ao solo, adorará a Deus, confessando que Deus está verdadeiramente entre vós.
Já naqueles recuados tempos, por conseguinte, dava-se o fenômeno da indiscrição de Espíritos afoitos, com relação aos segredos da intimidade alheia.
Paulo, no seu pragmatismo via no caso o seu aspecto positivo, ou seja, o de levar o descrente, que ele chama de infiel, ou não-iniciado à crença e ao reconhecimento da presença de Deus entre os primitivos cristãos. E isto é legitimo e proveitoso, sem dúvida, porque muitos dos que se acham mais fortemente entrincheirados nas suas descrenças e revoltas precisam de um impacto maior para desalojarem-se do seu Comodismo ou de sua vaidade; não podemos no entanto, perder de vista o fato de que a norma é o respeito à intimidade alheia, com todas as suas fraquezas, suas angústias, seus desenganos e seus erros, por mais clamorosos que sejam. Quando, no decorrer do trabalho mediúnico surge uma denúncia, ou revelação acerca das fraquezas alheias, essa informação é recebida com reserva e, se verdadeira, com redobrado respeito e discrição. Não é para ser proclamada, divulgada ou comentada, nem mesmo na intimidade da equipe de trabalho.
Todos nós estamos em posição vulnerável, com relação a essas impiedosas indiscrições, que põem à mostra aspectos de nossa pobre pessoa, que desejaríamos continuassem em segredo.
Por isso, precisamos estar preparados para que tais revelações não nos apanhem de surpresa e não nos atinjam de maneira a desequilibrar-nos.
Uma ocasião, no desespero angustioso de me ferir, um companheiro, com poderosos recursos de hipnotizador, trouxe ao nosso grupo o Espírito de um irmão meu, desencarnado recentemente e ainda em difíceis condições de desajustamento no mundo espiritual. Ou, talvez, nem o tenha trazido, mas apenas imaginado o episódio como estratagema, na desesperada tentativa de desarmonizar-me. Dizia ele que meu irmão estava presente, sob seu domínio, e aparentemente dirigindo-se a ele, dizia:
— Não tente escapar, que eu aperto mais o laço.
E voltando-se para mim:
— Ele gostava de tomar umas e outras, não é?