Depois disso a baronesa foi para o interior da Rússia e nunca mais ouviu falar de Émile Sagée. Julie de Guldenstubbé era filha do barão de Guldenstubbé, eminente pesquisador que relatou suas experiências de escrita direta em La realité des esprits, livro publicado quase que simultaneamente com O livro dos espíritos, de Allan Kardec.
4. TRANSE ANÍMICO
O desdobramento é um dos mais curiosos e ricos fenômenos anímicos como a indicar que o verdadeiro estado natural do espírito é o de liberdade, o de autonomia em relação ao seu cárcere particular: o corpo físico. É como espírito que o ser se move livremente, pensa melhor, decide com maior conhecimento das diversas variáveis a considerar, recorre à memória integral, visita pessoas no mundo espiritual que o possam aconselhar ou ajudar, funcione enfim, como espírito e não como alma, sendo esta entendida, no contexto " doutrina, como espírito encarnado.
Sobre muitos desses aspectos particulares do desdobramento encontramos outros notáveis depoimentos em Delanne (Les apparitions materialisées dos vivants et des morts).
Edgar Alan Poe, segundo seu próprio relato, reproduzido por Delanne escrevia em um estado de semitranse: As realidades do mundo me chegavam exclusivamente como visões, ao passo que as loucas idéias do país dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não apenas a sustentação de minha existência cotidiana mas, positivamente, a própria existência, única e total.
(Delanne, Gabriel, 1902) Samuel Taylor Coleridge, eminente poeta e filósofo inglês, voltou certa vez de um desses transes ( por certo um desdobramento ) com todo um poema pronto na mente: Kublai-Kahn. Sentou-se e começou a escrevê-lo febrilmente. Foi interrompido, contudo, por um visitante inoportuno e, horas depois, quando quis retomar o trabalho, não mais encontrou na memória o texto mágico, apenas fragmentos esparsos.
Shelley "sonhava acordado, numa espécie de abstração letárgica", segundo seu biógrafo Medwin, citado por Delanne. De repente, parecia despertar, de olhos brilhantes e lábios fremindo, a voz carregada de emoção e "sua linguagem", diz o biógrafo, "era mais a de um espírito ou de um anjo do que a de um homem". Seria isto um fenômeno mediúnico, anímico ou misto? É difícil catalogar assim à distância no tempo, mas que tudo começava por um desdobramento, não há dúvida.
Balzac segundo Théophile Gauthier, parecia, às vezes, "acometido de uma bizarra doença, uma febre nervosa, uma espécie de coma". Ficava pálido, abatido, como que sob um estado de "colapso, devido a um congestionamento de idéias, que o transformava num aparente imbecil". Era um "êxtase sonambúlico, durante o qual ele dormia de olhos abertos", perdidos em um estado onírico. Não ouvia o que lhe era dito e, no dizer de Gauthier "seu espírito, vindo de longe, chegava muito tarde para responder".
Nesse curioso estado de desdobramento, o próprio Balzac confessaria depois: Ouço as pessoas na rua, sou capaz de assumir suas vidas, sentir os andrajos que trazem às costas, caminhar com pés metidos em seus sapatos esburacados, sentir seus desejos e suas necessidades, tudo passando pela minha alma e minha alma passando pela deles: era o sonho de um homem acordado.
Não há dúvida, portanto, de que o fenômeno aí é anímico ou, mais precisamente, um desdobramento no qual a sensibilidade consciente de Balzac como que se atrelava ou se acoplava à das pessoas que perambulavam pelas ruas.
Por mais estranho que seja o fenômeno, Colin 'Wilson tem coisa semelhante a relatar em um dos seus notáveis livros, o já citado The psychic detectives.
Trata-se de uma senhora da sociedade mexicana, por nome Maria Reyes, Zierold, cujas faculdades foram pesquisadas pelo dr. Gustave Pangenstecher. Desdobrada do corpo físico - ela via o cordão fluídico ligado entre um corpo e outro como o cabo de uma tomada elétrica, que vai do aparelho à fonte de energia -, ela experimentava o mesmo tipo de sensação há pouco descrita por Balzac.
"Vivo absolutamente os eventos que visualizo" - narra a sra. Zierold.
"Todo os meus sentidos estão em estado de alerta. Ouço, vejo, provo, cheiro. Vivo as cenas como se presente estivesse.
Mais do que isso, porém, ela acaba sendo realmente a pessoa ou objeto pesquisado, num misto de desdobramento e psicometria (sobre a qual falaremos em outro ponto deste livro). Quando o experimentador lhe colocou nas mãos o fragmento de um meteorito, naturalmente sem que ela soubesse do que se tratava, ela se identificou prontamente com o objeto, passou a ser o objeto. Viu-se flutuando no ar, cercada de pontos luminosos, nas proximidades do sol, que lhe parecia estar perto, imensamente grande. Sentiu como que uma explosão - ela usou a palavra terremoto - e experimentou, fisicamente, algumas convulsões. Sentiu-se, em seguida, arrancada de onde estivera até então e despenhando no abismo cósmico a uma velocidade crescente. Fechou os olhos enquanto passava por regiões de calor e frio. "Estou horrorizada, Meu Deus!" - exclamou ela. Temeroso de algum acidente, o experimentador retirou-lhe a pedra da mão, rapidamente.
Ao examinar uma concha marinha, ela novamente revive, com todas as emoções, situações ligadas ao objeto: Encontro-me debaixo d'agua e sinto um grande peso pressionando meu corpo. Estou rodeada de peixes de toda espécie, cor, forma e tamanho. Vejo, também diferentes tipos de plantas, algumas delas com folhas largas. A água tem uma cor verde transparente. Estou entre muitos animais, mas parece que eles não percebem minha presença. ( Wilson. Colin. 1984. )
É certo que tais imagens poderiam ter sido formadas a partir de uma mensagem telepática do dr. Pangenstecher, que sabia que tipo de material estava entregando a ela. Há outra experiência feita com a mesma senhora pelo SPR, que, no entanto, exclui essa possibilidade. Ela identificou, com precisão um caroço de feijão-marinho. Via-se numa floresta tropical, de riquíssima flora, com um rio nas proximidades. Pensou-se que ela estava completamente equivocada, uma vez que a semente havia sido apanhada à beira-mar. Consultas feitas, contudo, a técnicos no assunto confirmaram que a semente provinha de uma planta tropical, provavelmente trazida pela correnteza do rio para o mar e depositada pelas marés, posteriormente, na areia da pra onde fora encontrada.
Maria de Zierold vinha, a essa altura, de uma série de experiências com o dr.
Pangenstecher. Ela era capaz de experimentar qualquer sensação dele, como uma picada de alfinete ou o gosto de uma pitada de sal ou de açúcar que ele colocasse na sua (dele) boca como se a ele estivesse, literalmente, ligada.
É de se supor que o perispírito desdobrado dela se aproximasse dele, como um espírito desencarnado se aproxima do médium para manifestar-se, estabelecendo os contatos necessários à filtragem da comunicação.
5. UTILIZAÇÃO MEDIÚNICA DA FACULDADE ANÍMICA
Parece-nos oportuno examinar, a seguir, a faculdade anímica do desdobramento em sua utilização mediúnica, dado que vamos dentro em pouco defrontar-nos com fenômenos de natureza mista no trabalho de Regina.
Mais uma vez, um pequeno depoimento pessoal. Em reunião pública de debates, realizada há algum tempo, uma senhora, médium, fez-me uma pergunta embaraçosa.
Perguntou-me se na sessão mediúnica deveria obedecer ao seu mentor espiritual ou ao dirigente encarnado dos trabalhos. E explicou que o amigo espiritual lhe pedira que se preparasse para ser desdobrada, pois havia trabalho específico a fazer nessa condição. Consultado a respeito, o dirigente negou-lhe autorização, provavelmente por entender que trabalho de doutrinação ou desobsessão tem de ser feito, necessariamente, por incorporação ou psicofonia.
Dei-lhe uma resposta sumária, dizendo-lhe que não via inconveniente em que o trabalho mediúnico fosse conjugado com o de desdobramento, mesmo porque a teoria e a prática da psicofonia nos ensinam que o espírito do médium é, habitualmente, desdobrado para facilitar a manifestação do espírito visitante. Não era meu propósito colocar a resposta em termos tais que ela entendesse que precisava obedecer a um e desobedecer a outro. Prometi enviar posteriormente, por carta, algumas observações complementares, o que fiz, indicando-lhe a leitura do capítulo XXI, Desdobramento, em Mecanismos da Mediunidade, de André Luiz, bem como Recordações da Mediunidade e Devassando o invisível de Yvonne A. Pereira.
Isto nos leva a pensar nas dificuldades que enfrentam nossos queridos companheiros desencarnados para realizarem conosco a tarefa que é, basicamente, deles. Por isso, escrevi, em Diálogo com as sombras, que fazemos muito quando não atrapalhamos esses devotadíssimos amigos, que realizam por nós noventa por cento do trabalho, e ainda complicamos os magros dez por cento que nos cabem realizar! É certo que as atividades mediúnicas devem ser disciplinadas, no grupo, e é indispensável que algum encarnado se responsabilize pelo bom andamento delas. Mas por que, meu Deus, não se estuda um pouco mais a doutrina espírita em geral a mediunidade em particular, a fim de não criar obstruções ao trabalho dos companheiros desencarnados?
De fato, encontramos no livro citado de André Luiz, o seguinte: É imperioso notar, porém, que considerável número de pessoas, principalmente as que se adestram para esse fim (desdobramento), efetuam incursões nos planos do espírito, transformando-se, muitas vezes, em preciosos instrumentos dos benfeitores da espiritualidade, como oficiais de ligação entre a esfera física e a esfera extrafísica, (Xavier. Francisco C/ luiz, André, 1986. p.155.)