Em outra obra de André Luiz, Nos domínios da mediunidade, capítulo 11, o assunto é tratado de maneira ainda mais específica e extensa, O médium é magnetizado, desdobrado, tem seu perispírito desembaraçado de "eflúvios vitais" necessários ao equilíbrio do binômio corpo/alma (e que foram restituídos ao corpo) e, após outros cuidados, é incumbido de uma tarefa mediúnica. André observa, a essa altura, que "o médium, mais à vontade fora do corpo denso, recebia intruções que Clementino lhe administrava ... ". Em seguida, assistido por dois trabalhadores desencarnados, partiu rumo ao espaço, onde tinha algo importante a realizar, em tarefa de cooperação com os espirítos que atuavam junto ao grupo mediúnico.
Em Evolução em dois Mundos, capítulo XVII, Mediunidade e Corpo Espiritual, André Luiz nos informa que foi a partir das faculdades de desdobramento, lentamente desenvolvidas com os recursos do sono fisiológico, que começaram a ser criadas as primeiras condições que iriam permitir o exercício da faculdade mediúnica.
Escreve o espírito: Consolidadas semelhantes relações com o plano espiritual por intermédio da hipnose comum, começaram na Terra os movimentos da mediunidade espontânea, porquanto os encarnados que demonstrassem capacidades mediúnicas mais evidentes, pela comunhão menos estreita entre as células do corpo físico e do corpo espiritual, em certas regiões do corpo somático, passaram das observações durante o sono as observações da vigília, a princípio fragmentárias, acentuáveis com o tempo conforme os graus de cultura a que fossem expostos.
Os destaques são meus, com a finalidade de acentuar que foram abrindo possibilidades ao exercício das primeiras faculdades mediúnicas aqueles encarnados que melhor conseguissem se desvencilhar do domínio das células em certas regiões do corpo físico e que também cuidassem de ampliar o aprendizado.
Aproveito a oportunidade para reiterar o que ficou dito em outro ponto deste livro: não há fenômeno mediúnico puro, pois ele depende da cooperação prévia e simultânea do fenômeno anímico (desdobramento e outros) isso é óbvio, pois o médium é um espírito encarnado, ou melhor, uma alma (anima), e por si mesmo somente produz fenômenos anímicos. Estes se tornam mediúnicos quando acoplados a manifestações de seres desencarnados quase sempre precedidas por desdobramento do espírito do médium, que é desalojado, pela hipnose ou pelo magnetismo, para "abrir espaço" à aproximação do manifestante.
A insistência sobre esse ponto é deliberada, porque se nota generalizada dificuldade em compreender e aceitar o fenômeno anímico em conjugação com o exercício da mediunidade, como se animismo fosse sinônimo de fraude ou mistificação, quando é o patamar sobre o qual a mediunidade se assenta para poder funcionar. Por isso tanto insistem os espíritos em declarar que os textos ou falas que transmitem costumam assumir certo colorido próprio à personalidade do médium. Isto se pode observar com toda a nitidez, quando o mesmo espírito atua através de médiuns diferentes. O bom médium é o que consegue o mínimo de interferência pessoal naquilo que flui através da sua instrumentação. Mas que o fenômeno tem um componente anímico, não há como deixar de reconhecer, pois é da sua própria essência. A mediunidade é uma faculdade pessoal, individual, intransferível, e guarda as características típicas de cada personalidade, como a impressão digital, o timbre da voz ou o tipo grafológico. O médium que se anulasse completamente seria um mero robô ou estaria para o manifestante como a máquina de escrever está para o escritor, e o piano, para o pianista. O que se quer é a máquina bem-ajustada e lubrificada ou o piano de boa qualidade e afinado. A máquina vai, contudo, reproduzir o texto segundo os tipos de que foi dotada, enquanto o piano tem sua tonalidade própria, com um timbre que não pode mudar. O mais fica por conta da competência do escritor ou do artista.
O tema ainda voltará a nosso debate quando estudarmos, neste mesmo livro, o problema específico da conversão do pensamento manifestante em símbolos, palavras (escrita ou falada), visões, ete. Enquanto não chegamos lá, voltemos à nossa Regina, que neste livro é o fio de Ariadne com o qual esperamos sair, sãos e salvos, do outro lado deste verdadeiro labirinto de complexidades que é a mediunidade.
6. MECANISMO DO DESDOBRAMENTO
Regina distingue seus desdobramentos em duas categorias: os que ocorrem em plena consciência, no estado de vigília, e os que acontecem durante o sono, sendo estes os mais comuns, ainda que menos percebidos, pela simples razão de que, assim que se encontra desdobrada em conseqüência do mergulho no sono, a atividade do perispírito começa a ser traduzida sob o que entendemos por sonho. O aspecto específico do sono/sonho, contudo, fica para outro capítulo.
Regina informa que seus primeiros desdobramentos ocorreram em plena vigília, perfeitamente acordada e consciente. Creio, contudo, que esses foram os primeiros de que tomou conhecimento, pois, segundo sua própria tese - com a qual estou de acordo -, os demais ocorriam durante o sono e, portanto, assumiam as características de sonho.
Nos que ocorreram em vigília, às vezes estava deitada, em repouso, quando começava a sentir uma estranha movimentação dentro dela. Parecia-lhe estar sendo jogada para cima e para baixo, como se fosse um ioiô. É a forma que ela encontra para descrever o fenômeno, porque, na realidade, era como se alguém quisesse tirar alguma coisa de dentro dela, que aí funcionava como uma caixa ou uma forma. Enquanto isso ocorria, ela podia ver a cabeceira da cama ou do sofá subindo e descendo alternadamente, embora tenha logo concluído que não era a cama que se movimentava, mas sua percepção, ou seja, ela mesma, com sua consciência a reboque. Mesmo sem conhecer ainda a teoria que sustentava e explicava o fenômeno, ela acabou igualmente percebendo que aquilo que se movimentava dentro dela era uma duplicata de si mesma, porque o corpo físico, pesado, continuava imóvel, deitado, enquanto o outro ia e vinha para cima e para baixo. Até que num desses impulsos ela saía, como que projetada para fora.
O mais freqüente, contudo, era sair 'por cima', pela cabeça ou, pelo menos, era a impressão que ficava. A sensação, aliás, era angustiante para ela, porque experimentava um empuxo para cima, mas sem entender o mecanismo e sua finalidade, não se entregava a ele, criando automaticamente certa resistência ao processo. A meio caminho via, às vezes, parte de si mesma ainda presa ao corpo e outra parte fora. O inusitado da situação dava-lhe um susto e, então, ela despencava- se para baixo, com uma sensação de vertigem. De outras vezes parecia-lhe ter se convertido numa espécie de pulôver que alguém estivesse ajudando a tirar pela cabeça, mas que,às vezes, engastalhava-se no pescoço. Isso lhe causava uma sensação de sufocação mais psicológica, talvez, do que real, porque ela ficava indecisa e presa, com medo de 'sair', e nem sempre sabendo o que fazer para retornar ao corpo. Mais tarde entendeu que não era um pulôver psíquico que ela estava tentando tirar pela cabeça, mas seu próprio eu que cuidava de sair de dentro do corpo físico.
Quando tirava o 'pulôver' de uma só vez, no primeiro impulso, caía estatelada no chão e assustava-se ante a perspectiva de bater com o rosto no assoalho. De repente, contudo, o assoalho parecia abrir-se e ela entrava por ele a dentro, ou melhor, o piso deixava de existir ou de ter a consistência habitual e não lhe oferecia a menor resistência. Começava então a caminhar por um local desconhecido e, a partir de certo momento, não sabia mais que acontecia, ou seja, não tinha mais condições de acompanhar da sua posição provisória, ainda com a consciência no corpo físico, a movimentação perispíritica. Isto, porém, ela só iria saber muito depois, quando descobriu pelo estudo da doutrina espírita que, como todos os seres encarnados, ela também era um espírito dotado de um corpo sutil habitando um corpo físico.
Quanto à migração da consciência, é fenômeno que o coronel de Rochas confirma em suas notáveis experimentações e de que há notícia mais extensa em A memória e o tempo. No decorrer do processo de desdobramento, a consciência (ou, se você quiser, o EU) assume progressivamente três posições distintas. Está, inicialmente, no corpo físico e daí é que observa os primeiros movimentos e esforços. (Em Regina, a impressão é de que a cama ou o sofá é que se movimenta.) Em seguida, a consciência como que se reparte, observando o fenômeno ao mesmo tempo, do corpo físico e do corpo espiritual, pois Regina vê um e outro, no ato de se "desencaixarem". Finalmente, a consciência se transfere toda para o corpo espiritual, que começa a movimentar-se numa dimensão diferente da habitual, deixando de atuar no corpo físico; e a partir desse momento ela não sabe mais o que ocorre, a não ser que seja programada para lembrar-se posteriormente ou que não desmagnetize as lembranças gravadas no cérebro físico, como no episódio em que ela se lembrou do sacrifício das duas sobrinhas no antigo Egito. (Ou, talvez, ela apenas colocasse ali, naqueles pontos específicos do cérebro, uma espécie de anestesia a fim de impedir que eles emergissem na memória de vigília, após despertar.)