A essa fase dois da consciência que elabora questões de enorme complexidaade e produz soluções quase mágicas, temos acesso, usualmente, pelo sono comum ou em estado de relaxamento muscular e mental. Em ambos os casos, portanto, por meio de um fenômeno que o espiritismo identifica como desdobramento.
Esse conceito decorre da estrutura operacional do ser humano encarnado que se compõe de corpo físico, perispírito e espírito. O perispírito é um campo energético, estruturado como o corpo físico e que serve de morada ao espírito, esteja este encarnado ou desencarnado. Ao desprender-se pelo sono ou em estado de torpor, leva consigo a função de pensar e suas respectivas memórias e estados de consciência ou inconsciência. (O perispírito é também o modelo organizador do corpo físico e campo magnético, que mantém sua estrutura e dinâmica enquanto estiver a ele ligado), Experiências realizadas pelo coronel Albert de Rochas no final do século passado e princípio deste (ver a respeito em A memória e o tempo) nos informam de que poderá dar-se um segundo desdobramento a partir do perispírito já desdobrado do corpo físico, quando se separa daquele a essência espiritual. Este fenômeno, testemunhado por videntes que às vezes acompanham as experiências do ilustre pesquisador francês e que foi explicitado por um dos seus sensitivos em desdobramento magnético, é confirmado por André Luiz, em Nosso lar, quando o autor espiritual desencarnado visitou, conscientemente, o espírito de sua mãe, habitante de plano superior ao seu, após desdobrar-se de seu corpo perispiritual que ficara em repouso numa das unidades da instituição à qual fora recolhido.
Encontramos, ainda, em Evolução em dois Mundos, capítulo II, esta observação, em nota de rodapé: O corpo mental, assinalado experimentalmente por diversos estudiosos, é o envoltório sutil da mente, e que, por agora, não podemos definir com mais amplitude de conceituação além daquela com que tem sido apresentado pelos pesquisadores encarnados, e isto por falta de terminologia adequada no dicionário terrestre. (Xavier, Francisco C./Vieira. Waldo/ André luiz. 1973) .
Trabalhando assim com um acervo de conhecimentos muitíssimo mais amplo do que tem à sua disposição no estado de vigília, não é de admirar-se que a alma, ou seja, o espírito encarnado, consiga realizar verdadeiros prodígios em estado de desdobramento.
3. MANIFESTAÇÕES ANÍMICAS
Muitos livros têm sido escritos sobre comunicações diretas, não telepáticas, entre vivos que se visitam em desdobramento ou são vistos em locais diferentes de onde se acham seus corpos físicos. Houve tempo em que isso foi considerado, literalmente, fato milagroso, como o muito citado episódio de santo Antônio de Pádua (ou Lisboa, como querem os portugueses). Nem todos sabem que isso acontece com mais freqüência do que seria de se supor.
Boddington conta em Secrets of medium ship um caso curioso desses, narrado em carta pelo próprio cidadão com quem se deu o fenômeno. Escreveu-lhe o homem: Há uns poucos anos passei por uma experiência que não tive coragem de contar a ninguém. (Sempre o receio de passar por louco!). Acordei, pela manhã, sentindo-me muito doente, mas decidi arrastar-me de qualquer maneira até o trabalho, na esperança de conseguir agüentar-me até o fim do dia, mas me sentia tão mal que desisti, já a caminho, e retornei à minha casa. Algumas horas de sono me puseram bom novamente e, após uma refeição, fui para o trabalho, como sempre. Três colegas, pelos quais eu costumava passar com uma palavrinha, queixaram-se rudemente de minha atitude pela manhã. Eu os ignorara totalmente. Assegurei-lhes que eu não havia estado ali pela manhã e ele, se recusaram a acreditar em mim. Logo em seguida meu contramestre mandou me chamar ao seu escritório e me perguntou à queima-roupa onde eu havia me escondido depois de encará-lo por um momento através da porta aberta, aí pelas dez horas da manhã. Como poderia eu explicar-lhe que naquele momento eu estava profundamente adormecido em casa? Fui acusado de ter abandonado o trabalho e tive, por isso, duas horas descontadas do meu pagamento.
Desde então, tenho lido sobre esse problema, mas não posso ainda compreender o que aconteceu ... minha mulher e minha filha testemunham que eu estava em casa.
Meus colegas de trabalho comprovam que eu não estava ... (Boddington, Harry 1949).
Aí está, pois, o exemplo típico e bem-testemunhado de uma atividade inconsciente do ser em desdobramento. Enquanto seu corpo repousava mergulhado em profundo sono, o homem que se deitara novamente vencido pelo mal-estar físico, mas disposto de qualquer maneira a ir ao trabalho, desligou-se do corpo adormecido e foi; não, porém, telepaticamente, e sim como pessoa, reconhecida pelos colegas de trabalho e pelo seu chefe, enquanto que a esposa e a filha sabiam muito bem que ele estava recolhido ao leito, doente.
Ele não conseguiu convencer seus companheiros de que não fora à fábrica naquela manhã nem convencer a si mesmo de que fora. E no entanto estavam todos certos; ele fora com seu perispírito e, ao mesmo tempo, ficou em casa seu corpo, sem conseguir, contudo, trazer para a vigília a consciência : do que fizera nesse ínterim.
Boddington narra, entre outros, o caso da srta. Sagée, mas creio ser preferível recorrer ao relato de Aksakof mais completo e bem-documentado, de vez que colhido em primeira mão, da filha do barão de Guldunstubbé que na época estudava no colégio para moças, onde ocorreu interessante fenômeno.
Émilie Sagée era uma jovem professora francesa nascida em Dijon que em 1845 lecionava em um colégio para moças localizado na Livônia, província russa, a cerca de cinqüenta quilômetros de Riga, famosa pelo seu pinho.
Logo que a jovem e bela professora foi admitida pelo colégio, começaram a acontecer coisas estranhas. Era comum ser vista em locais diferentes ao mesmo tempo.
Enquanto uma aluna dizia que estivera com ela em determinado local, a outra afirmava que isto era impossível, pois acabara de passar por ela em algum corredor ou subindo uma escada distante. A princípio era apenas a surpresa, sendo o fenômeno atribuído a algum equívoco de observação. Com o tempo, contudo, as coisas se complicaram, excluindo qualquer possibilidade de erro ou fantasia. O primeiro desses impactos ocorreu quando todas as meninas - não apenas uma - viram duas Sagées, uma ao lado da outra, em plena aula, diante do quadro-negro a escrever. Faziam, ambas, os mesmos gestos, com a diferença de que a pessoa 'verdadeira' tinha um pedaço de giz na mão, enquanto 'a outra', não, limitando-se a imitar os gestos.
Algum tempo depois, uma das alunas, Antoinette de Wrangel, preparava-se para uma festa, ajudada por Émile Sagée, sempre disposta a fazer um favor. De repente a menina viu no espelho duas Sagées às voltas com o vestido, nas costas. O susto foi tamanho que a jovem desmaiou.
Porém nem sempre a figura desdobrada repetia os mesmos gestos da outra, o que demonstra sua autonomia. Às vezes, seu duplo era visto em pé, atrás da cadeira onde ela estava sentada, fazendo uma refeição. De outra vez, a jovem Wrangel (a do vestido) cuidava de Sagée, recolhida ao leito com um resfriado, quando viu a doente empalidecer e contorcer-se na cama como se fosse perder o sentido. Perguntada sobre se estava se sentindo pior, ela respondeu que não, com uma voz fraca. Nesse momento a menina virou-se e viu a 'outra' Sagée, desdobrada, passeando de um lado para outro pelo quarto. (Não houve desmaio desta vez ).
Um dia a experiência foi dramática, ainda mais que presenciada por quarenta e duas alunas. As meninas faziam seus trabalhos manuais em torno das mesas do salão, que abria suas amplas portas envidraçadas para o jardim; do lado de fora, podiam ver a professora francesa colhendo flores. Em dado momento a professora que dirigia o trabalho manual levantou-se e deixou salão. Pouco depois as meninas viram que a srta. Sagée estava sentada na cadeira que a outra deixara vaga há pouco. Como que num gesto ensaiado, todas olharam ao mesmo tempo para o jardim e lá estava a segunda Sagée, que continuava colhendo flores; agora, porém, com gestos mais lentos, como estivesse meio sonolenta ou exausta. E ficaram conferindo uma figura com outra. Duas meninas destemidas foram até a cadeira e procuraram tocar a figura da Sagée II. Encontraram certa resistência, como se tocassem um leve tecido de musselina ou crepe. Uma delas passou bem junto da poltrona e percebeu que, em parte, atravessara a figura. A imagem ficou ali por algum tempo e, de repente, desapareceu. Prontamente a jovem Sagée, lá de fora, voltou aos seus movimentos normais, com a vivacidade habitual.
Questionada posteriormente por algumas das meninas, a jovem professora disse que percebera, lá do jardim, a cadeira vazia, e pensou: "Eu preferiria que a professora não tivesse ido embora; certamente, essas meninas vão perder o tempo e cometer alguma travessura."
A jovem Guldenstubbé (Julie), a quem devemos esse minucioso e precioso relato (publicado na revista Light de 1883, p. 366), assistiu aos fenômenos durante os dezoito meses em que Sagée lecionou na escola. Preocupados, contudo, com o estranho fenômeno que fora divulgado pelas famílias das alunas, os pais foram cancelando as matrículas até que, das quarenta e duas meninas, somente restavam doze. A essa altura, muito a contragosto, a direção da escola se viu forçada a despedir a amável, bela e competente professorinha, cujo único defeito era desdobrar-se em duas!
Ao receber a notícia, a moça queixou-se, na presença da futura baronesa de Guldensrubbé, que aquilo era muito decepcionante, pois pela décima nona vez perdia o emprego pelo mesmo motivo.
Tempos depois, a baronesa localizou-a e foi visitá -la, pois sempre fora muito querida entre as alunas. Morava ela, agora, com uma cunhada que tinha muitos filhos ainda pequenos. Menos preconceituosas, as crianças viviam perfeitamente bem com as "duas tias Émile".