Podemos observar, portanto, que a interferência do médium nas comuunicações que circulam por seu intermédio não resulta de um exercício direto da sua vontade, ou de algum aspecto específico de sua personalidade, mas das condições que ele cria dentro de si mesmo, como que obstruindo os canais por onde deve passar a comunicação ou criando uma espécie de 'estática' nos circuitos que estão sendo utilizados pelo espírito comunicante. Logo, não é consciente e deliberadamente que ele interfere no teor da comunicação, a não ser naquelas em que ele tenha visão diencefálica ou audiência coclear e diga coisa diferente do que está vendo ou ouvindo. Nos demais casos, porém - psicofonia ou psicografia -, ele não interfere de maneira direta e consciente, mas sim, pelas condições que estão instaladas no seu psiquismo. Ou seja: idéias preconcebidas, problemas pessoais, posturas éticas, procedimento habitual, deficiências culturais e coisas desse tipo.
Por exemplo: a pessoa de temperamento violento, agressivo e impaciennte que funcionar como médium oferece condições apropriadas a um espírito também dado à violência, agressividade e impaciência, que encontra nela os circuitos como que já ligados para esse fim. Podemos, por outro lado, imaginar as dificuldades que nela vai encontrar um espírito pacífico, sereno, moderado, para fazê-la veicular uma comunicação aconselhando a paz, a serenidade, a moderação. Não que o médium se oponha deliberada e conscientemente aos termos da mensagem falada ou escrita; o espírito comunicante é que precisa fazer um grande esforço para vencer resistências e obstáculos implantados, por toda a parte, no psiquismo do médium, a fim de obter um mínimo de autenticidade para a mensagem que porventura deseje transmitir por seu intermédio. Não é de se admirar, em casos assim, que a mensagem saia truncada.
Conheço um exemplo eloqüente de tal situação. Todos sabem que Maurice Barbanell competente jornalista inglês e diretor da revista Two Worlds, era o médium de Silver Birch, tendo trabalhado longos anos com ele. Pois bem, o sábio e tranqüilo índio americano conseguia vencer as resistências de Maurice Barbanell e falar sobre a reencarnação. Pessoalmente, contudo, o jornalista e médium não aceitava o conceito das vidas sucessivas. Já nos últimos anos de sua longa existência, começou a admiti- lo; não, porém, como condição de rotina, mas, sim, como optativa e ocasional, dado que, a seu ver, o espírito também evolui no plano espiritual (o que é verdadeiro) e não precisa se reencarnar (o que é falso). A despeito dessa divergência doutrinária entre o espírito e o seu médium, resultou da associação de ambos uma vasta, rica e valiosa literatura, recolhida nas sessões semanais de psicofonia. Isso porque Barbanell, a despeito das habituais imperfeições humanas, era de comportamento exemplar, de uma integridade ética muito sólida e de um coração compassivo (foi vegetariano, por princípio, e pregou, durante toda a sua vida, o respeito aos animais). A não ser, portanto, quanto à sua resistência filosófica ao conceito de reencarnação, Silver Birch encontrava no seu psiquismo livre trânsito para as idéias humanitárias e evangélicas que desejava transmitir. E o fazia num belíssimo e singelo inglês tocado de poesia e amor fraterno. Deus era o Great White Spirit (O Grande Espírito Branco); a Jesus ele chamava, carinhosamente, de o Príncipe da Paz ou, simplesmente, o Nazareno.
Por outro lado, o espírito dado à violência e à agressividade dificilmente conseguirá seu intento - dar um murro na mesa, gritar um palavrão, exasperar-se além da medida - ao manifestar-se através de um médium pacificado, controlado, tranqüilo.
É nesse sentido, portanto, que o médium pode e deve influir ou deixar de influir nas comunicações veiculadas por seu intermédio, ou seja, educando-se, aprendendo a controlar seus impulsos negativos, pacificando-se intimamente, para que se faça respeitar com naturalidade, praticamente sem esforço consciente de sua parte. Como ficou dito alhures, neste mesmo livro, isso não quer dizer que o médium deva bloquear sumariamente o espírito manifestante, a ponto de 'pasteurizar' a sua comunicação, com o que estaria roubando toda a autenticidade do pensamento emitido pelo manifestante.
Em outras palavras: se o espírito é calmo e controlado, não o médium violento que vai torná-lo agitado e agressivo, mas se o espírito é violento, o médium equilibrado permitirá que, dentro de certos limites do bom senso, ele manifeste seu pensamento até com indignação, mas sem exageros. Como iríamos forçar uma pessoa realmente irritada, por motivo que lhe parece justo - embora raramente o seja -, a falar como se estivesse recitando uma prece?
De tudo isto ressalta uma curiosa conclusão: é através do mecanismo da comunicação mediúnica que a gente percebe que a educação de médium não é propriamente como médium, mas como ser humano, Não sei se me faço entender. Quero dizer que, antes de ser um bom médium - desenvolvendo e treinando suas faculdades - , o indivíduo tem de procurar ser boa pessoa. Pessoas desarmonizadas podem dispor de excelentes faculdades mediúnicas, mas, se não se reeducarem, serão instrumentos de espíritos também desarmonizados, dado que é a programação da desarmonia que os espíritos encontram nela ao se manifestar. O que equivale dizer que não é a mediunidade que se desarmoniza ou se desequilibra, mas o médium. E é assim que o médium vai sendo arrastado, cada vez mais, para o exercício de uma faculdade atormentada, de vez que rejeita, automaticamente, por incompatibilidade, os espíritos harmonizados que poderiam ajudá-lo nas suas tarefas, e como que se oferece, sem defesas, aos que estão desequilibrados. Chama-se a isto sintonia.
Quer isto dizer que o médium não deva trabalhar com espíritos desajustados? Claro que não. O Cristo não ensinou que são precisamente os doentes que necessitam de médico? O de que precisa o médium é ser equilibrado para poder cuidar dos desequilibrados, encarnados e desencarnados. Esta é a sua tarefa.
Esses aspectos, que estariam melhor colocados no capítulo específico sobre o desenvolvimento da mediunidade, foram trazidos para aqui pelas suas implicações no mecanismo da comunicação, na sua semiologia. Isto quer dizer que, se o médium recebe do espírito comunicante um impulso ou um sinal de violência, ele não terá de ser violento para ser fiel ao comunicante. Ele pode perfeitamente transmitir o tom da indignação ou da irritação, sem apelar para o exagero e, ao mesmo tempo, sem descaracterizar a comunicação se, além de ser um médium bem-treinado, for também uma pessoa equilibrada e sensata.
Mas não pára aí o alcance das observações contidas na instrução do amigo espiritual de Regina. Ela vai além, chamando a atenção para a postura das pessoas que servem junto ao médium, ou seja, aquelas que compõem o grupo de trabalho mediúnico. Sua palavra é inequívoca: "idênticas condições são exigidas daqueles que com ele (médium) trabalham".
Quer dizer que os demais participantes do trabalho mediúnico também podem influir nas comunicações? É exatamente isso. Podem. Os espíritos se utilizam, nas suas manifestações, de recursos magnéticos colhidos entre os encarnados, sejam ou não médiuns ostensivos. Ele se sente encorajado a fazer pilhérias e ironias ferinas, por exemplo, quando alguém no grupo acha graça no que ele diz, da mesma forma que se sente estimulado à agressividade, se percebe que alguém no grupo está achando que ele tem mesmo razão e que deve logo apelar para a violência.
Não há dúvida, portanto, de que é difícil ser médium e que é muito difícil aos espíritos fazer transitar, através de certos médiuns, comunicações autênticas, fiéis, e bem- arranjadas, porque o mais comum, como se observa da verdadeira 'queixa' que fizeram a Kardec é encontrar mentes em desalinho, com tropeços de toda a sorte pelos caminhos por onde deve fluir a comunicação.
Em resumo: a única linguagem dos espíritos é o pensamento inarticulado, ou seja, não expresso em palavras ou símbolos. Se fosse possível transmitir esse pensamento in natura, puro, de mente a mente, entre desencarnados e encarnados, não estaríamos escrevendo este livro e nem Kardec, provavelmente, teria escrito O livro dos médiuns.
Mas não é assim que se processa a comunicação espírito/ser encarnado, de vez que ela precisa ser convertida de pensamento puro em um código previamente acertado, de símbolos, como palavra escrita ou falada, som ou imagem.
O médium não cria, em si, a mediunidade, apenas a desenvolve, submetendo-se a determinadas disciplinas e treinamentos para exercê-la adequadamente. Mas, positivamente, ele deve e precisa ajustar-se como pessoa humana para que, em lugar de obstruir o fluxo da comunicação, ele o facilite. Para isso, deve convencer-se de que é apenas um canal, um veículo da comunicação, não o autor ou co-autor dela.
Voltemos, por um momento mais,à definição proposta por Kardec: "Médium - (do latim - medium, meio, intermediário) - pessoa que pode servir de intermediária entre os espíritos e os homens". (Kardec Allan. 1975.)
Atenção, porém, para o termo que rege a definição: pode servir. Poder, pode, mas só deve se estiver devidamente preparada, não apenas como médium, mas, principalmente, como ser humano. Do contrário, é melhor buscar outra atividade na seara espírita. Será melhor e menos comprometedor do que aviltar ou deformar um dos aspectos mais delicados e críticos de toda a fenomenologia, ou seja, o da comunicação.
12. GUIAS E CONTROLES - RELACIONAMENTO COM OS MÉDIUNS
O leitor que se dedicar ao estudo da mediunidade em textos de língua inglesa, encontrará constantes referências 'ao control' (controle) do médium.
Nosso primeiro impulso seria o de traduzir essa palavra com a expressão guia espiritual, ou espírito familiar, originariamente adotada por Kardec. Há, contudo, matizações que precisamos distinguir a fim de penetrar mais na intimidade do assunto.