Embora a palavra control seja, na opinião de Nandor Fodor, equivalente a guia espiritual, acho que esta expressão pode ter conotações bastante diferentes dado que nem sempre o guia de um médium é uma presença dia-a-dia de sua atividade, como costumam ser os controles entre os ingleses e americanos, por exemplo. Em verdade, a figura do controle me parece mais atuante, ou melhor, mais ostensiva, na prática britânica e americana, do que entre nós, mas não muito bem-caracterizada, de vez que o termo é usado para referir-se a qualquer outro espírito que se manifeste diretamente pelo sensitivo, sem a intermediação do guia.
Entendem eles, como controle, o espírito que supervisiona o trabalho mediúnico de seu pupilo, não à distância, como um guia formal, incumbido apenas da orientação do médium e de suas tarefas, mas como participante. É o controle que opera prioritariamente as faculdades de seu médium, instrução e mensagens próprias ou de terceiros (não-incorporados), mantêm a boa ordem dos trabalhos e bloqueia interferências indesejáveis ou inoportunas, embora possa, eventualmente, ceder sua vez a um outro espírito, a seu critério exclusivo e pessoal.
Em vista da sua familiaridade com o sensitivo, apoiada usualmente em fortes e antigas vinculações pessoais, o controle adquire considerável proficiência na manipulação das faculdades mediúnicas que, de hábito, ele próprio ajudou a desenvolver. A ampla literatura a respeito nos mostra o modus operandi de inúmeros controles que demonstram, pela súbita e oportuna interferência no fluxo de certas comunicações, a sua atenta vigilância sobre o processo de manifestação de outro espírito, quando for o caso.
Não são muitos, contudo, os espíritos que obtêm permissão para se utilizar diretamente do médium ou conseguem fazê-lo, ainda que autorizados pelo controle. O que mais comumente observamos é o trabalho do comunicante em transmitir seus pensamentos ao controle para que este, mais familiarizado com o médium, consiga adequá-lo às faculdades e características deste.
Creio poder citar como exemplo dessa intermediação, entre nós, o trabalho de Emmanuel, ao trazer espíritos recém-desencarnados, especialmente jovens, em acidentes traumáticos, para que transmitam, pela psicografia de Chico Xavier, mensagens coerentes, bem-ordenadas e ricas em indicações identificadoras, como nomes próprios, locais e circunstâncias que somente os familiares têm condições para conferir.
Segundo informação de Ranieri, Emmanuel interferiu, de maneira enérgica e decisiva, certa vez, quando tomavam rumo indesejável trabalhos de materialização a que se dedicava o nosso Chico.
Além disso, é ele o autor de grande parte, senão da maior parte, da obra psicográfica captada pelo Chico, em seus muitos anos de exercício constante da mediunidade. Sua presença é, ainda, percebida ou inferida em trabalhos de outros, escritos por diferentes espíritos, de vez que encontramos prefácios ou apresentações suas em obras de André Luiz, Irmão X, Néio Lúcio ...
Cria-se, dessa forma, um relacionamento pessoal proveitoso ao médium responsável e honestamente dedicado à sua tarefa. Ele aprende a confiar no amigo espiritual, de quem se habitua a receber apoio seguro e eficaz que, no entanto, respeita seu livre- arbítrio. Os guias ou controles, quando também responsáveis e bem-preparados para o trabalho a que se propõem, não costumam interferir em questões pessoais, a não ser em casos extremos e com apoio em sólidas razões. É hábito deles deixar que a decisão final fique a critério de seus pupilos, aos quais, via de regra, transmitem opiniões e sugestões, mas não comandos ou imposições. Se o relacionamento atinge estas últimas características, alguma coisa não está bem nele: ou o médium começa a transviar-se ou o guia não corresponde à condição que deseja aparentar.
De modo geral, contudo, a tarefa dos guias espirituais ou controles junto dos médiuns é exercida por espíritos de elevado status evolutivo, competentes e firmes naquilo que fazem. Como esse trabalho é considerado de natureza missionária, no mundo espiritual, é claro que a vinculação guia/médium não é fortuita e, sim, programada antecipadamente em todas as suas minúcias. Há sempre uma série de compromissos, deveres e obrigações assumidos, de parte a parte, quando se prepara uma tarefa dessas que, em princípio, tem a duração de toda uma existência na carne.
Não é difícil depreender-se quão desastroso é para o médium, uma vez chegado o momento de dar início à sua parte da tarefa, começar a refugá-la, seja por comodismo, egoísmo, indiferença, irresponsabilidade ou qualquer dificuldade de natureza meramente humana. É claro que seu livre-arbítrio será respeitado e nunca será arrastado, à força, para o exercício da tarefa combinada e para a qual seu guia está pronto e disposto a colaborar. Em casos assim, não apenas está ele assumindo grave responsabilidade, não pelo que fez, mas pelo que deixou de fazer, como também porque, sem a amorosa cobertura de seu orientador espiritual, ficará à mercê de espíritos desajustados que o induzirão a mais fundo mergulho em seus equívocos pessoais, em lugar de ajudá-lo a galgar um degrau ou dois nos inúmeros patamares da bíblica escada de Jacó.
Há que considerar, ainda, no reverso da medalha, aquele que, não estando devidamente preparado ou programado para um trabalho mediúnico de fôlego, insiste em exercer faculdades insuficientes ou inadequadas, bem como diferentes daquelas em que foi treinado.
Mesmo o dr. Fodor - que se coloca na postura de cientista e pesquisador, e não de espírita - observa que: "É certo que as qualidades morais do médium, exercem importante papel. Se a mente e os objetivos do médium são puros, se ele ora pedindo ajuda, ou se solicita aos seus bons amigos espirituais que o orientem, parece que a solicitação é atendida. (Fodor.
Nandor. 1969.)
Acha, contudo, o dr. Fodor que nem sempre são do melhor gabarito, os que se propõem servir como guias ou controles, e parece até que eles disputam a oportunidade de fazê-lo. De minha parte, entendo a situação de outra ótica. A disputa pode ocorrer e ocorre até com significativa frequência, não, porém, entre guias que estejam a disputar um cargo (ou encargos entre espíritos cujas intenções são, no mínimo, discutíveis, em agressivos assédio ao sensitivo. Ainda mais que sabemos que não poucas mediunidades apresentam, de início, sob vigorosa pressão perturbadora de espíritos desajustados. Muitos são os médiuns que pagaram elevado pedágio obsessivo antes de alcançarem condições satisfatórias para o eficiente e equilibrado de suas faculdades.
Em algumas frases, o dr. Fodor traça um sumário perfil dos controles dizendo que, por muito experientes que sejam, guardam certas limitações vezes, precisam consultar outros companheiros a fim de responder as questões mais complexas ou fora do alcance de seus conhecimentos. Isto é verdadeiro.
Como escreveu Kardec, os espíritos não são mais do que seres humanos desencarnados e, por isso, não se convertem em sábios ou santos no momento seguinte ao da morte do corpo físico. Na própria codificação, encontramos questões que, mesmo as entidades que compunham a equipe do Espírito de Verdade, declaram, com a singeleza pura da grandeza, desconhecer ou não ter como explicar, pela carência de terminologia ou de conhecimentos adequados por parte dos encarnados.
São pacientes e sempre dispostos a ajudar, mas, na expressão do dr. Fodor, "não acatam ordens e gostam de ser tratados com cortesia". Criam, usualmente, uma atmosfera de religioso respeito, mas nem todos se apresentam como pessoas de santa disposição.
Walter, controle da médium Margery, não hesitava em despachar uns tantos palavrões, se algo o desagradava de maneira especial, ou de mandar às favas os que o atormentassem com perguntas impertinentes. Conta Fodor que uma dessas irritações deu-se com Houdini, que o acusou de estar fraudando. Walter despejou sobre o mágico um monte de maldições, em linguagem 'imprintable', ou seja, impublicável.
O controle da sra. Travers-Smith, que se identificava como um antigo sacerdote egípcio, ao tempo de Ramsés II, também praguejava e xingava à vontade, quando as coisas, no seu entender, não corriam bem ... Outro controle da sra. Travers-Smith, de nome Peters, e que se servia do grupo para promover suas próprias experiências, era excelente para criar testes para as suas pesquisas, mas, quanto ao seu caráter, ainda segundo Fodor, não era, como se diz, flor que se cheirasse.
Às vezes, os Controles se especializam em determinadas tarefas: um para trabalhos de efeitos físicos, outro para psicografia, e assim por diante, bem como para este ou aquele assunto. Um espírito que se identificou como Cristo d' Angelo, junto de um médium de nome Rossi declarou que só dispunha de poderes com a voz, ou seja, trabalhos de psicofonia. A observação é de profundo interesse por duas razões importantes: primeiro, porque vemos um espírito que expõe, honestamente, suas próprias limitações, transmitindo aos médiuns uma lição, não apenas de humildade, mas de não pretender desempenhar tarefas que não estão ao seu alcance ou não se acham incluídas na sua programação; segundo, porque nos leva à evidência - nem sempre reconhecida e comentada - de que há espíritos que funcionam como médiuns de outros espíritos.
Destaquemos este último aspecto para um comentário mais extenso. Mais uma vez, há que fazer uma distinção que nos propicie uma interpretação mais nítida dos complexos aspectos aqui envolvidos. O fato de funcionar o controle, ou guia espiritual do médium, como intermediário para certas comunicações, não quer dizer que todos eles operem como médiuns, no sentido habitual da palavra. Muitos deles apenas captam as emissões de pensamento de um companheiro espiritual e as retransmitem ao médium encarnado para que este possa convertê-lo em palavras escritas, faladas ou símbolos.