Outro policial, que não espera nada de positivo daquilo tudo, apela para o sarcasmo e até para a agressão, declarando que a sensitiva seria mais uma dessas farsantes, de tantas que existem por aí.
Ela o olha intensamente e começa a falar: - Setecentos e cinqüenta dólares. Vejo setecentos e cinqüenta dólares.
Você está precisando dessa importância. Não. Não é você ... É alguém ligado a você.
Sim. Uma mulher (e descreve a pessoa). Ela está relacionada com algum local onde há objetos de arte. Ela trabalha lá. É uma galeria.
Faz uma pausa e pergunta: - Acredita em mim, agora?
Ele não se atreve a responder. Prefere retirar-se da sala e sai, batendo a porta.
Estavam, contudo, empenhados numa corrida contra o tempo, dado que se aproximava a hora marcada para a explosão e ainda não se identificara o local escolhido pelo criminoso.
Observemos algumas tentativas de interpretação: 1 ° policial: cavalos correndo em círculo; pode ser um hipódromo; 2° policial: mas ela disse cavalos pequenos ... pôneis, talvez; 3° policial: cores e crianças (Quem sabe se uma fábrica de brinquedos?); 4° policial (aliás, uma mulher e, portanto, mais intuitiva): cores ... cores crianças alegres ...
um parque de diversões! Cavalos pequenos em círculo um carrossel! - gritou.
E era mesmo. A bomba estava num parque de diversões, colocada num eixo central de um carrossel e a polícia chegou a tempo de impedir a explosão do artefato que causaria verdadeira tragédia, pois havia muitas crianças lá, no momento.
Como se pode observar, o processo consiste em duas etapas básicas: a comunicação de um pensamento e sua interpretação. Quando o terrorista planeja colocar o explosivo num parque de diversões, no eixo central de um carrossel, e o faz, é difícil, senão impossível, impedir que o seu pensamento se irradie. O fato de a moça dizer que ele está bloqueando a mente é mais um recurso da cinematografia do que uma realidade, pois o pensamento cria imagens e elas se difundem, a despeito do esforço de controle daquele que pensa. Os espíritos, usualmente, não precisam nos perguntar sobre o que estamos pensando. Ao se aproximarem de nós, descobrem-no pela simples leitura das imagens e emoções que estamos projetando. O que a sensitiva recebia, por, tanto, em sua vidência diencefálica, era a imagem tal como projetada pelo criminoso, imagem essa que ela retransmitiu, à sua maneira, aos policiais mas que, na intimidade da sua mente, era idêntica à que estava na mente do terrorista. Em suma: a imagem era a mesma para todos, só que nem todos tinham a sensibilidade treinada para percebê-la através do diencéfalo; apenas a sensitiva oferecia as condições necessárias a isso.
Quanto à interpretação, um policial viu logo um hipódromo. Talvez gostasse de apostar em cavalos de corrida, jogo muito comum nos Estados Unidos, onde o filme foi rodado.
No seu cassete pessoal, cavalos correndo em círculo significava hipódromo segundo policial lembrou-se de pôneis, uma visão poética, ligada à infância certamente em sintonia com suas preferências pessoais ou com o símbolo correspondente em seu cassete. O terceiro associava cores e crianças, uma fábrica de brinquedos. Lembrava- se de que o criminoso já havia colocado explosivos numa delas. Talvez estivesse a ponto de repetir a tenebrosa façanha. Era a sua experiência de policial que prevalecia na escolha, do dicionário pessoal, o símbolo tinha esse significado: fábrica de brinquedos. Finalmente para a mulher policial, cores, crianças, cavalinhos em círculo, alegria, tinham a tradução correta: um carrossel. Era a sua experiência que talvez, ou com crianças em geral.
Quanto ao policial descrente, nem sequer consegue sintonizar-se pois não confia no processo que lhe parece grosseira fraude, nada mais. Ao perceber que a coisa é mais séria do que lhe parece, sua reação é psicologicamente explicável: retira-se para não ter de enfrentar uma realidade que intimamente rejeita. Considerando-a mentirosa, pode dar de ombros - é mais cômodo; se, porém, se vê obrigado a aceitá-la, faz uma confissão pública de ignorância. O melhor é fugir.
A sensitiva, portanto, percebe ao vivo, de mente a mente, todo o processo disparado pelo criminoso, mas não consegue traduzi-la em linguagem positiva, mesmo porque não se arrisca a interpretá-la. Ela apenas comunica o que percebe na sua vidência sem visão. Em tais casos, a melhor atitude da parte do médium é mesmo a de abster-se de interpretar aquilo que lhe está sendo mostrado, limitando-se a transmitir, o mais fielmente que lhe seja possível, tudo quanto percebe, até os mínimos detalhes. Às vezes, é precisamente um dado considerado irrelevante que vai dar a contribuição decisiva para uma identificação ou para caracterizar o conteúdo de uma mensagem.
10. CACOS
Kardec escolheu com acerto a palavra adequada para definir a pessoa que serve de intermediária entre os espíritos e os seres encarnados. O médium é um canal de comunicação não-inerte, indiferente, mas um simples canal, por intermédio do qual deve fluir a comunicação, qualquer que seja o tipo de faculdade da qual o espírito resolva utilizar-se do conjunto das que ele dispõe. Estou convencido de que é por isso que os instrutores espirituais tanto insistem em que o médium cultive sua mente, suas emoções e, principalmente, sua ética. A recomendada passividade não quer dizer submissão a qualquer capricho do espírito manifestante, mas o médium deixa de cumprir corretamente sua tarefa a partir do momento em que deseja ser mais do que lhe permitem suas faculdades. Ele é um intermediário, um canal, um veículo através do qual flui a mensagem. Ao dizer isto, não estou esquecido de que é preciso, ao mesmo tempo, exercer certa vigilância sobre o que se passa durante a manifestação para que o espírito, por sua vez, não exorbite na utilização dos dispositivos mediúnicos que lhe permitem comunicar-se.
Parece que a palavra-chave aqui é autenticidade, sobre o que discorremos alhures, neste livro. Uma vez que é necessário codificar o pensamento alheio para que outros possam compreendê-lo, é preciso ter cuidado para que o teor da comunicação seja autêntico, fiel à sua fonte, expressão correta do pensamento daquele que o emitiu.
Em teatro, diz-se que um ator está introduzindo cacos nas falas quando, em vez de restringir-se ao texto do autor da peça, acrescenta palavras ou frases inteiras de sua própria elaboração, nem sempre adequadas ao espírito da peça. Nesse caso, não está sendo fiel ao texto e pondo em jogo a autenticidade do pensamento do autor.
Isto me lembra um episódio que Divaldo Franco me contou. Estava ele a fazer uma das suas eloqüentes palestras em país estrangeiro, para um público de língua inglesa, razão pela qual precisava de um intérprete, já que não tem a necessária fluência em inglês. Competia-lhe dizer uma frase de cada vez e esperar que o intérprete a traduzisse para o público e, então, ele passava à frase seguinte. Logo percebeu, contudo, que cada um dos seus períodos dava assunto para o intérprete falar vários minutos. Em vez de funcionar como uma espécie de 'médium', ou seja, um canal de comunicação que se limitasse a veicular o seu pensamento, o cavalheiro estava mesmo é fazendo outra conferência por sua própria conta e risco, Obviamente, o pensamento original não estava guardando a autenticidade tal como formulado.
Se eu me visse numa situação dessas, falando, por exemplo, a um grupo de língua russa - da qual nada entendo - e o intérprete me fizesse uma conferência em paralelo, sem meu conhecimento, sentir-me-ia terrivelmente frustrado e, talvez, visse-me forçado a interromper a conversa. Com Divaldo, porém, a coisa foi bem mais fácil e menos traumatizante. Aproximou-se dele um espírito que conhecera a língua inglesa, Divaldo passou-lhe os controles devidos e a palestra prosseguiu, tranqüilamente, agora na língua local. Delicadamente, o intérprete foi dispensado, de vez que a palestra tinha mais 'cacos' do que textos legítimos.
Este é um exemplo extremo - estamos prontos a reconhecer - e nem mesmo é um caso típico de mediunidade, mas, sim, de mera transposição de conceitos de uma língua para outra. Creio, porém, que o exemplo ser para ilustrar uma das inúmeras dificuldades que podem surgir no processo da comunicação. Não cabe ao médium, portanto, interferir, modificar, dirigir ou interpretar o pensamento alheio, mas veiculá-lo fielmente e com autenticidade.
11. CONDIÇÃO PESSOAL DO MÉDIUM
Preocupada com esse aspecto crítico da comunicação, Regina interpelou certa vez, o seu paciente amigo espiritual, que lhe respondeu, por escrito da seguinte forma: "A influência do médium se exerce mais nas condições por mesmo criadas para que possamos apresentar o nosso concurso, do que, propriamente na sua vontade ou na sua personalidade. Nesse exato ponto é que começam as dificuldades. Para que possamos apresentar um trabalho mais ou menos puro e escorreito é necessário que encontremos caminho livre, a fim de que o nosso pensamento não tropece nas dificuldades do médium, isto é, suas idéias, seus problemas, sua condição moral e intelectual. Idênticas condições são exigidas daqueles que com ele trabalham. Sempre que uma comunicação se apresenta truncada e mal- redigida, é porque teve de passar por uma série intrincada de vibrações contrárias, as quais impediram que o pensamento emitido fluisse em linha regular, sem atalhos pelo caminho".
Acho que vale a pena demorarmo-nos um pouco sobre isto.
Sempre me fascina o poder de síntese dos espíritos mais experimentados e evoluídos.
Eis aí um desses exemplos típicos, num texto singelo e sumário, no qual se consegue dizer tanta coisa interessante.