E os nichos vazios dão oportunidade a que todos se dirijam aos Céus, segundo a fé que abraçam. Até que a alma obtenha a Sabedoria Infinita é indispensável caminhe na longa estrada dos símbolos de alfabetização e cultura que a dirigem na senda de elevação intelectual, e, até que atinja o Infinito Amor, é necessário palmilhe as longas rotas da caridade e da fé religiosa, nos múltiplos departamentos da compreensão que lhe assegura o acesso à Vida Superior. Os Poderes Divinos, que nos regem, determinam que toda classe de fé sincera e respeitável aqui encontre amorosa veneração. Observando que a reduzida comunidade de almas em prece se alinhava em posições diversas, de vez que algumas se mantinham de pé ou comodamente sentadas, enquanto que a maioria se punha de joelhos, Hilário ensaiou algumas indagações a que Silas respondeu, condensando os assuntos:
— Sim, desde que o respeito mútuo seja necessariamente guardado, todos aqui podem orar como melhor lhes pareça. E, amparando-nos a curiosidade sadia, indicou certa matrona que chorava, pacientemente genuflexa, diante de nicho próximo, e falou:
— Acompanhemos, por exemplo, aquela nossa irmã em súplica. Postar-nos-emos na retaguarda, de modo a não incomodá-la com a nossa presença. E, envolvendo-a nas vibrações de nossa simpatia, assimilar-lhe-emos a faixa mental, percebendo, com clareza, as imagens que ela cria em seu processo pessoal de oração. Obedecemos maquinalmente e, de minha vez, à medida que concentrava a atenção naquela cabeça grisalha e pendente, mais se alterava o estreito espaço do nicho aos meus olhos… Pouco a pouco, qual se emergisse da parede lirial, lindo painel desdobrou-se-me à visão, tomada de espanto. Era a reprodução pintada e viva da formosa escultura de Teixeira Lopes, representando a Mãe Santíssima chorando o Divino Filho morto… E as frases inarticuladas da veneranda irmã em prece ressoavam-me nos ouvidos:
— “Mãe Santíssima, Divina Senhora da Piedade, compadece-te de meus filhos que vagueiam nas trevas!… “Por amor de teu filho sacrificado na cruz, ajuda-me o espírito sofredor para que eu possa ajudá-los… “Bem sei que por sinistro apego às posses materiais, não vacilaram em abraçar o crime. “Em verdade, Senhora, são eles homicidas infortunados que a justiça terrestre não conheceu… Por isso mesmo, padecem com mais intensidade o drama das próprias consciências, enleadas à culpa…” Nesse ponto da petição, Silas tocou-nos, de leve, os ombros, convidando-nos ao ensinamento devido e explicou:
— É uma pobre mãe desencarnada que roga pelos filhos transviados nas sombras. Invoca a proteção de nossa Mãe Santíssima, sob a representação de Senhora da Piedade, segundo a fé que o seu coração pode, por enquanto, albergar, no âmbito das recordações trazidas do mundo… — Isso quer dizer que a imagem de nossa visão… O apontamento de Hilário, porém, ficou no ar, porque Silas completou, presto:
— É uma criação dela mesma, reflexo dos próprios pensamentos com que tece a rogativa, pensamentos esses que se ajustam à matéria sensível do nicho, plasmando a imagem colorida e vibrante que lhe corresponde aos desejos. E respondendo automaticamente às indagações que o problema nos sugeria, continuou:
— Isso, contudo, não significa que a prece esteja sendo respondida por ela mesma. Petições semelhantes a esta elevam-se a Planos superiores e aí são acolhidas pelos emissários da Virgem de Nazaré, a fim de serem examinadas e atendidas, conforme o critério da verdadeira sabedoria. Espraiando o olhar pelos circunstantes, prosseguiu esclarecendo:
— Encontram-se aqui devotos de vários grandes heróis do Cristianismo, em diversos cultos de fé. E olhando em torno, com a sua ampla experiência apontou outra senhora em oração, acrescentando:
— Ali temos nobre matrona exorando a proteção de Teresinha de Lisieux, a doce monja do Carmelo, desencarnada na França.
— E a mensagem dela alcança o coração da famosa freira? — Indagou Hilário com o otimismo de sempre.
— Como não? — Respondeu o interlocutor.
— Depois da morte do corpo, as criaturas efetivamente santificadas encontram as mais altas quotas de serviço, na expansão da luz ou da caridade, do conhecimento ou da virtude, de que se fizeram a fonte viva de inspiração, quando no aprendizado humano. O céu beatífico e estanque existe apenas na mente ociosa daqueles que pretendem progresso sem trabalho e paz sem esforço. Tudo é criação, beleza, aprimoramento, alegria e luz incessantes na obra de Deus, a expressar-se, divina e infinita, através daqueles que se elevam para o Infinito Amor. Assim pois, o coração que deixe na Terra uma sementeira de fé e abnegação passa a nutrir, do Plano espiritual, a lavoura das ideias e dos exemplos que legou aos irmãos de luta evolutiva, lavoura essa que se expande naqueles que lhe continuam o ministério sagrado, crescendo, assim, em trabalho e influência para o bem, no setor de ação iluminativa e santificante que o Senhor lhe confia. Meu companheiro, que assinalava o esclarecimento com tanta atenção quanto eu mesmo, obtemperou:
— E na hipótese de a alma julgada santa entre os homens não ser realmente santa no Plano da Verdade? As preces que lhe sejam dirigidas atingem os objetivos visados, ainda mesmo quando o suposto santo permaneça em duras experiências nas regiões das sombras?
— Sim, Hilário, — aclarou o Assistente; — as orações podem não encontrar, de imediato, o Espírito a que se destinam, mas alcançam-lhe o grupo de companheiros a que deveria ajustar-se e que amorosamente, o substituem na obra assistencial do bem, em nome do Senhor, visto que, na realidade, todo amor na Criação Eterna é de Deus. Imaginemos, para exemplificar, que a referida monja não estivesse, temporariamente, em condições de prestar auxílio… Se isso acontecesse, as grandes almas, acrisoladas na disciplina da instituição em que tanto se distinguiu, se encarregariam de fazer por ela o trabalho necessário e justo, até que pudesse tomar sobre os ombros o apostolado que lhe compete.
— Todavia, — ponderou meu colega, — será de crer que o espírito das congregações religiosas ainda permaneça vivo nas Esferas Mais Altas? O Assistente sorriu e ajuntou:
— Não no sentido estreito do sectarismo terrestre. Quanto mais se eleva aos cimos da vida, mais se despe a alma das convenções humanas, aprendendo que a Providência é luz e amor para todas as criaturas. Entretanto, até que a alma se identifique com os fatores sublimes da consciência cósmica, os círculos de estudo e fé, aperfeiçoamento e solidariedade, pelo bem que realizam, estejam onde estiverem, merecem o maior acatamento das Inteligências Superiores que atendem à execução dos Planos Divinos. Logo após, como se quisesse fixar em nosso espírito os méritos da lição, dirigiu o olhar para certa senhora que se mantinha em prece, não distante de nós, e, depois de ligeira observação, conduziu-nos até ela, recomendando-nos atenção. Procuramos assimilar-lhe a faixa mental e, estabelecida a sintonia, surpreendemos no nicho a imagem viva e simpática do nosso abnegado Dr. Bezerra de Menezes, ao mesmo tempo que ouvíamos a súplica de nossa companheira desolada:
— “Doutor Bezerra, por amor de Jesus, não abandones meu pobre Ricardo nas trevas da desesperação!… Meu esposo infeliz atravessa rudes provas!… Ó generoso amigo, socorre-nos! Não permitas que ele desça ao abismo do suicídio… Dá-lhe coragem e paciência, sustenta-lhe o bom ânimo!… As dificuldades e as lágrimas que o afligem no mundo caem sobre minhalma como chuva de fel!…” Silas interrompeu-nos a reflexão, acentuando:
— Segundo reconhecemos, o santuário serve à oração digna, sem cultos especiais. Ali, alguém recorre ao amparo da monja de Lisieux, aqui um coração infortunado pede socorro ao notável companheiro dos espíritas no Brasil. Antes de desviar a minha atenção, fitei o semblante do grande médico, segundo as recordações da irmã que orava, confiante, anotando o primor da fotografia mental que ela exteriorizava. Víamos, ali, o retrato do Dr. Bezerra, qual o conhecemos, sereno, simples, bondoso, paternal… Precedendo-nos as interrogações costumeiras, o Assistente informou:
— Com mais de cinquenta anos consecutivos de serviço à Causa Espírita, depois de desencarnado, Adolfo Bezerra de Menezes fez jus à formação de extensa equipe de colaboradores que lhe servem à bandeira de caridade. Centenas de Espíritos estudiosos e benevolentes obedecem-lhe às diretrizes na lavoura do bem, na qual opera ele em nome do Cristo.
— Desse modo, — alegou Hilário, — é fácil compreendê-lo agindo em tantos lugares ao mesmo tempo… — Perfeitamente, — concordou Silas.
— Como acontece na radiofonia, em que uma estação emissora está para os postos de recepção, assim qual uma só cabeça pensante para milhões de braços, um grande missionário da luz, em ação no bem, pode refletir-se em dezenas ou centenas de companheiros que lhe acatam a orientação no trabalho ajustado aos desígnios do Senhor. Bezerra de Menezes, invocado carinhosamente, em tantas instituições e lares espíritas, ajuda em todos eles, pessoalmente ou por intermédio das entidades que o representam com extrema fidelidade.
— Para isso, — aduziu meu colega, — terá o seu campo próprio de atividade, assim como um chefe de serviço humano possui a sede administrativa da qual distribui com os comandados o pensamento diretor da organização… — Como não?