Terminada a fase culminante do caso Antônio Olímpio e interessados na continuidade de nossos estudos, Hilário e eu procuramos o Instrutor Druso, que aconselhou solicitamente, após ouvir-nos:
— Compreendo que a Mansão em si já lhes terá fornecido elementos básicos a graves conclusões em torno da lei de causa e efeito… Aqui, na maioria dos problemas, quase sempre encontramos os frutos concretos da ação. Junto de nós, é possível verificar, de perto, a colheita do sofrimento em todas as suas fases difíceis e dolorosas. E, sorrindo, acentuou:
— A região infernal permanece superlotada de contas maduras. Aqui, a sovinice suporta o azinhavre de atrozes padecimentos, o crime defronta com todas as espécies de angústia no remorso tardio, e a delinquência responsável é surpreendida pelas trevas que lhe agravam as amarguras, porque as coletividades dos lavradores culpados pela plantação de tantos espinheiros não dispõem de coragem para recolher o fruto envenenado da sementeira a que se afeiçoam. Desorientados e dementes, sublevam-se contra as flagelações que geraram e caem nas profundezas da rebelião e do desespero… Segundo é fácil de observar, em derredor da nossa casa de reajuste e socorro, tudo, em quase todas as circunstâncias, é sombra e conflito uniformes, assim como vasto campo incendiado por criaturas imprevidentes, a tolerarem compulsoriamente o fogo e o fumo com que lesaram a gleba das próprias vidas… Druso calou-se, caminhou na direção de larga janela que se abria para os nevoeiros exteriores, mirou, compadecido, a triste paisagem que os nossos olhos conseguiam descortinar e, em seguida, voltou para perto de nós, asseverando:
— Ainda assim, será bom prolonguem o trabalho em que se empenham, anotando os princípios de compensação em mais amplos setores. Nesse sentido, consideramos de suma importância as realizações em andamento na Esfera carnal, como fatores determinantes de Céu ou de inferno nas pessoas que os procuram, razão por que auguramos aos dois o melhor aproveitamento nas atividades que venham a empreender, na zona de relações entre nossa casa e o homem comum não distante. Precisamos reconhecer que todos criamos o destino ou renovamo-lo, todos os dias, e, aqui, o exame de semelhante lição é mais vagaroso, porquanto o nosso instituto mais se nos afigura uma estação de chegada em que a culpa se movimenta com lentidão. Entre os Espíritos encarnados, porém, mais facilmente se nos revela o mecanismo da Lei, através da qual vive a alma nas suas próprias edificações. No vaso da carne, a planta da existência se desenvolve, floresce e frutifica. A morte fisiológica realiza a grande ceifa. Em nosso mundo, temos, desse modo, a seleção natural dos frutos. Os raros que se mostram aprimorados são conduzidos à lavoura da Luz Divina, nos Planos celestiais, para mais ampla ascensão ao grande futuro; todavia, a massa esmagadora dos que chegam deteriorados ou imperfeitos estaciona nos celeiros de sombra das regiões inferiores em que nos achamos, à espera de novo plantio nas leiras do mundo. É que cada criatura transpõe os umbrais do túmulo com as imagens que em si mesma plasmou, utilizando os recursos do sentimento, da ideia e da ação que a vida lhe empresta, irradiando as forças que acumulou no espaço e no tempo terrestres. Cremos, pois, seja oportuna a observação do assunto, entre as almas encarnadas, para que se lhes enriqueça a experiência. Aquelas anotações, ditas em tom paterno, comoviam-me intensamente. Druso pronunciava-as com afabilidade e tristeza, não obstante sorrisse. Como sempre encantado com a sua personalidade dificilmente abordável no conjunto, silenciei, acatando-lhe as manifestações, mas Hilário perguntou, irrequieto, valendo-se da pausa que surgira:
— Que nos sugere, porém, a fim de que atendamos aos estudos a que se reporta? O Instrutor respondeu, de pronto:
— Possuímos sempre renovado material de consulta no templo e no parlatório exteriores de nosso domicílio, usualmente frequentados por irmãos do Plano físico, provisoriamente desligados da habitação corpórea por influência do sono, bem como pelos companheiros desencarnados que vagueiam em torno da Mansão, à caça de reconforto. Muitos deles estão ligados ao nosso santuário pelos fios da reencarnação, enquanto muitos outros chegam até nós em busca de socorro. Dispomos aí de atendentes numerosos que lhes coletam as reclamações e registam os problemas para orientarmos com segurança o nosso esforço de paz e cooperação. É interessante, assim, que os amigos se incorporem, durante alguns dias, às nossas equipes de serviço, colaborando conosco e relacionando apontamentos diversos.
— Não poderíamos contar com a ajuda de Silas? Indagou meu colega, referindo-se ao companheiro cuja presença para nós significava alegria e coragem. O Instrutor contemplou-nos de maneira expressiva e comentou, surpreendendo-nos:
— Não fosse o objetivo das informações que coligem e, certo, não nos seria possível permitir que o Assistente mencionado lhes tutelasse a recolta de ensinamentos. Sabemos, contudo, que o trabalho em andamento se destina a instruções para a Esfera dos companheiros reencarnados e semelhante tarefa nos obriga a considerar-lhes a petição. Realmente, não lhes convém qualquer perda de oportunidade ou de tempo. E embora sejam atualmente enormes as responsabilidades de Silas em nossa casa, não vejo como privá-los do companheiro que, sem dúvida, é aqui o depositário imediato de nossa melhor confiança. Logo após, enquanto mergulhávamos em silenciosas considerações, acerca do seguro serviço de inteligência com que o grande benfeitor nos seguia a meta, Silas foi chamado à nossa presença, recebendo recomendações no sentido de prestar-nos a assistência precisa. Instrutor e Assistente, em conversação íntima e rápida, permutaram impressões, cuja significação total não nos foi possível perceber. Terminado o entendimento, Silas marcou o horário exato em que nos cabia efetuar o reencontro e, com isso, a nossa entrevista com o governador da Mansão fora praticamente encerrada. No momento previsto, o Assistente veio procurar-nos, solícito. Íamos visitar o Templo da Mansão. Atravessamos longas filas de corredores, até que, através de estreito postigo, tivemos acesso a vasto recinto iluminado. Assemelhava-se o ambiente ao de grande capela, das que conhecemos no mundo. No centro, apoiando-se ao fundo, de face voltada para o exterior, uma cruz de matéria prateado-radiante, sobre mesa alva e simples, era o único símbolo religioso ali existente. Mas de todas as paredes laterais, a se caracterizarem por brancura de neve, emergiam pequenas reentrâncias insculpidas em forma de nichos. A luz dominante casava-se de encantadora maneira com a melodia cariciosa a ressoar docemente no largo corpo da nave… Que mãos invisíveis produziam a música veludosa e terna que nos inclinava à reverência e à meditação? Entidades diversas postavam-se em prece junto aos nichos desocupados que se enfileiravam, quase uniformes, por mais de duas centenas em piedoso conjunto. Não sei que estranha emotividade me tomou a alma toda. A fé simples da infância reconquistara-me o íntimo… Lembrei minha mãe, colocando a oração primeira em meus lábios e, como se as vibrações daquela hora fossem abençoada chuva a lavar-me todos os escaninhos do espírito, olvidei por instantes minhas velhas experiências da vida para somente pensar no Supremo Senhor, nosso Deus e nosso Pai… Lágrimas quentes rorejaram-me a face. Quis algo perguntar ao Assistente bondoso; contudo, naquele primeiro contato com o santuário externo da Mansão, nada consegui fazer senão orar e chorar copiosamente. E, por isso mesmo, embora pudesse controlar a expressão verbalista, para que a palavra me não escapasse desordenadamente da boca, contemplava a luminosa cruz, entre respeitoso e comovido… Recordei o Mensageiro Divino que a utilizara em sacrifício para traçar-nos o caminho da vitoriosa ressurreição, e repetia no imo dalma:
— “Pai Nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome. “Venha a nós o Teu reino. “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu. “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. “Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. “Não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal, porque são Teus o reino, o poder e a glória para sempre. Assim seja.” Reparei que Silas me acompanhava os menores movimentos interiores, porque, ao terminar a prece dominical, disse-me, afetuoso:
— É verdade, André, raros conseguem penetrar este ambiente sem se escudarem na oração. E relanceando o olhar sobre Hilário, que igualmente enxugava lágrimas espontâneas, como a incluí-lo no carinho das observações que exteriorizava, continuou:
— Este pequeno campo de pensamento está sublimado pela compunção e pela dor de milhares… Incontáveis legiões de almas edificadas no sofrimento e na fé por aqui hão passado, em pranto de arrependimento ou de esperança, de gratidão ou de angústia… Nosso templo interno, de cujos serviços vocês já participaram, funciona qual se fora o vivo coração de nossa casa, enquanto que este santuário exterior é o símbolo das nossas mãos em prece. Apontando as criaturas que oravam em silêncio, ante os altares despovoados, ousei perguntar ao irmão prestimoso:
— Que significam no recinto a imagem da cruz e estes nichos vazios? O Assistente esclareceu, sem demora:
— A cruz recorda a todos os visitantes que o Espírito de Nosso Senhor Jesus-Cristo aqui se encontra presente, não obstante estejamos nos abismos infernais.