XX
Como convencê-los de que há um envolvimento, senão culposo, pelo menos responsável, de todos, na tragédia que suscitou a dor atual? De que maneira assegurar-lhes de que essa dor é precisamente a correção necessária de rumos, para que o futuro seja de paz e harmonia? Como explicar que as lesões perispirituais se transferem para o corpo físico? Como pedir aceitação aos que não têm fé? Ou que a têm deformada por dogmas? Aspecto importante, no caso, é ainda o de que, embora preso a um corpo físico através do qual dificilmente poderá manifestar-se, a criança está lúcida, como espírito, o que demonstra razoável grau de maturidade, a despeito do gesto fatal com o qual expulsou- se do corpo físico, na existência anterior. Aos espíritos amigos que o visitaram, revela uma dor imprevista - a da solidão, e, para minorá-la, pede uma quota dinâmica de amor e compreensão que talvez não lhe fosse comunicada verbalmente por julgarem-no incapaz de percebê-la. Não por desamor ou por avareza emocional e sentimental, mas porque não são muitos os que, ao contemplar um ser que parece apenas ter vida vegetativa, sabem que ali está um espírito vivo, uma criatura humana sofrida, aprisionada, limitada, mas um filho de Deus, como qualquer um de nós e que, um dia, terá direito à plenitude da vida e da felicidade. É nesse entendimento com os espíritos visitantes que também revela notável traço da sua personalidade: não deseja ser estorvo ou constrangimento à família. Quer ser tratado como uma pessoa igual a outras, apenas com algumas deficiências graves, mas que certamente entende necessárias e, mais do que isso, justas. O episódio doloroso contém lições para todos os que se detiverem, por alguns momentos, a meditar, e não apenas para as pessoas da família nele envolvidas. A lei divina não é punitiva, mas corretiva e ajustadora, de uma sabedoria intemporal e compassiva, se a entendermos nas suas verdadeiras e profundas motivações. Neste caso, por exemplo, o que vemos senão uma oportunidade irrecusável de recomporem- se todos perante a lei? Sofre o reajuste de um cérebro lesado, o ser que outrora destruiu um cérebro perfeito, num gesto impensado e impulsivo. Não se pode deixar de admitir inequívoca revolta ante uma situação que poderia ter sido contornada, com a dose certa de fé, de conhecimento, de equilíbrio. No entanto, é um espírito com importantes conquistas, pois está sereno, consciente do que se passa com ele e das causas que o levaram a tais efeitos. Só precisa de um pouco de espaço na emoção e no carinho dos que o cercam para levar a bom termo a parte que lhe compete na tarefa de reconstrução íntima. Quanto aos pais, causadores indiretos do suicídio, não nos cabe agravar-lhes as culpas com acusações indevidas. Contribuíram, sim, para a morte do jovem apaixonado. De certa forma, partilharam de suas responsabilidades e, por isso, voltam novamente como marido e mulher para receber, de volta, como filho, o ser que outrora contribuíram para expulsar da vida. Como connvencê-los, agora, de que concordaram com o esquema e voluntariamente aceitaram esta situação tão dolorosa, porque desejam e precisam também ressarcir compromisso que pode (mas não deve) ser adiado indefinidamente? Como espíritos, sabem disso: mas não como seres encarnados, no estado de vigília. No fundo, podem perguntar-se: - Que mãe, ou pai, aceitaria receber, espontaneamente, um filho com deficiências tão graves? Está certa essa lei, se é que existe alguma nesse sentido. Realmente é difícil, mas, como costumo dizer, em tais situações, tanto faz, creiamos ou não, essa é a realidade. O melhor mesmo é aceitá-la, ainda que provisoriamente, com todas as ressalvas e reservas, mas como possibilidade. Um dia chega a desencarnação e todos irão conferir essa realidade inquestionável. É bom que cheguemos a esse dia com uma hipótese viável, já formulada, mas o melhor é começar logo, ainda aqui, a trabalhar e a pensar, como se ela fosse real. Ainda mais que ela é mesmo real. .. Resta o avô, que ficou como ponta solta inexplicada, mas certamente explicável. Que dramas e compromissos anteriores existem, no passado ainda mais remoto, que, por duas vezes, em duas existências diferentes, ele não consegue salvar a vida de um ser ao qual tanto ama? Qual a razão do seu sentimento de culpa por não tê-lo conseguido, especialmente desta vez, como médico competente, embora a mãe de seu neto estivesse entregue a colegas de excelente nível profissional e da sua confiança pessoal? Isto não ficamos sabendo, mesmo porque não nos compete, jamais, estar a especular os problemas, por mera curiosidade. Os espíritos revelam apenas os elementos necessários à elucidação das questões suscitadas e ao encaminhamento de algumas sugestões, que é o objetivo da orientação. Podemos, contudo, formular uma hipótese, perfeitamente viável, no contexto desse drama pungente. Esta: é provável que, em tempos mais remotos, o antigo pai e atual avô tenha, por imprudência sua ou algum impulso passional, por mais de uma vez, aliás, contribuído para que o neto atual haja perdido sua vida. Que tenha sido até possível salvá-la e não quisesse fazê-la. Hipóteses, meras hipóteses, mais compreensíveis dentro do que as leis costumam nos demonstrar repetidamente. Isto, contudo, nos levaria para outro terreno especulativo mais amplo ainda. Por que a atual criança deficiente se colocaria como vítima sucessiva de tantos desacertos? É certo que também tem seus compromissos pessoais, pois não há sofrimento inútil e inocente. O remédio da lei só é dado ao que está doente da alma. E, se vem o remédio, é porque há doença que pode e deve ser curada. Por isso tudo, é tão rico em lições vivas o trabalho mediúnico desempenhado com seriedade e devotamento. A vida é um movimento encadeado de episódios, na seqüência inexorável de causa/efeito, novas causas/novos efeitos; ação e reação, dentro do ciclo erro/culpa/sofrimento, até que, errando menos, haja menos culpa e doses menores de dor. Um dia, sem erros, não haverá mais culpas a resgatar e, portanto, estarão extintas as dores. Para sempre. É POR ISSO QUE VIVO A REPETIR: NÃO É INTELIGENTE ERRAR. E é por isso que dizem os espíritos, repetidamente, que a inteligência deve desenvolver-se harmonicamente com a moral. Antes de ser vivida, a paz tem de ser pensada. Inteligentemente. Assim é o trabalho de orientação. Raramente sabe o médium do que se trata, nos seus pormenores e nas suas conseqüências. Não que para ele aquilo tudo seja apenas um nome e um endereço - ali está uma pessoa humana, angustiada e sofrida, às vezes, desesperada mesmo. Eis aí o trabalho mediúnico na sua pureza total. O médium é apenas um canal de comunicação, através do qual um espírito, muitas vezes desconhecido, se dirige a um ser encarnaado, igualmente desconhecido, usando expressões e veiculando informações de que o médium não tem a menor idéia do que realmente signifiquem para o destinatário. E, no entanto, verdadeiras transformações e retomadas são conseguidas, sempre que a pessoa se convença de que não há soluções mágicas. A conquista da paz se fará pelo trabalho pessoal, a vigilância, o comportamento adequado, perante as (desobedecidas, mas não iludidas) leis divinas. Tão simples de entender, e, ao mesmo tempo, tão difícil de praticar... Por isso, lamentava a querida Yvonne o desinteresse de tantos médiuns pelo trabalho da orientação, para o qual bastam uma hora ou duas por semana. Uma só dor que se consiga minorar, uma só lágrima que seja enxugada, um único sorriso que volte a iluminar um rosto sofrido seriam recompensa generosa para toda uma vida. Cada vez que se elimina uma dor, uma lágrima ou se acende um sorriso, o mundo fica um pouco melhor do que antes ... Uma informação antes de encerrar este capítulo. Às vezes, espíritos desencarnados, ligados a esses casos de orientação, são levados ao grupo mediúnico para tratamento ou diálogo. Foi assim no caso do qual transcrevemos a carta, onde uma senhora agradecida tem uma comovida palavra de gratidão e afeto pelos que tiveram a alegria de socorrê-la. Não sabemos que critérios são adotados pelos espíritos para isso, e nunca os questionamos. Basta saber que, se o trabalho foi trazido, é porque precisa ser feito com o mesmo coração aberto de sempre. De outras vezes, são levados espíritos que estão exercendo pressões dolorosas sobre pessoas que apenas solicitam fossem seus nomes incluídos no caderno de prece do grupo. Se podemos estender as mãos para ajudar alguém, para que perder tempo com perguntas ociosas e indiscretas? Não se trata de gente (encarnada ou desencarnada) que sofre? Pois é isso.
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Nome do Capítulo Atividades paralelas e complementares