1. INTRODUÇÃO
Como qualquer outra atividade humana, a faculdade mediúnica exige certa especialização. O médium não deve exaurir-se no desenvolvimento das faculdades que possa ter em potencial, pois acabará não exercendo bem nenhuma delas; o ideal seria trabalhar com poucas faculdades, porém com eficácia e devotamento. Isto, porém, fica para o capítulo próprio, em que cuidaremos do problema do desenvolvimento da mediunidade. A referência, neste ponto, se destina apenas a substanciar o fato de que a nossa Regina não se aplicou ao desenvolvimento das suas faculdades psicométricas em potencial - o que nos parece correto - concentrando-se em outras, nas quais alcançou bom nível de utilização. Não deixou de demonstrar esse potencial, contudo, ao observar que tinha condições de perceber, extra-sensorialmente, o estado de espírito de alguém, simplesmente ao tomar nas mãos uma carta, ainda fechada, que acabasse de receber dessa pessoa.
Teve, contudo, oportunidade de testemunhar um episódio de psicometria, certa vez em que recebia a visita de um amigo que fizera experiências com essa faculdade, mas não quis prosseguir na sua prática.
Regina perdera de vista, em sua casa, uma gravura da qual estava precisando com urgência para um trabalho. Ao narrar o caso, disse ela já ter revirado literalmente o seu apartamento e, de modo especial, a biblioteca onde, pela lógica, deveria estar a peça.
Será que o amigo psicômetra poderia ajudá-la? Ele relutou, alegando que há muito não fazia aquilo e nem sabia mais como fazê-lo, mas, ante o apelo e insistência dela, resolveu ceder. Não custava tentar. Pediu-lhe algo que pudesse ter estado em contato com a sumida gravura, mas o quê? De repente, Regina lembrou-se: suas mãos.
Haviam sido, por certo, a última coisa que estivera em contato com o papel. Ele concordou. Tomou-lhe as mãos, permaneceu em silêncio por alguns momentos e declarou a seguir: - A gravura está no mesmo lugar onde você guarda uma pequena caixa de madeira com material de costura.
- Ora! - comentou ela a rir - Seria o último lugar onde eu poderia tê-la colocado!
Mas ele insistiu. Era lá mesmo. Bastava conferir. Ela foi e encontrou a gravura recalcitrante. Estava mesmo ao lado de uma caixinha de madeira que lhe servia para guardar material de costura, na parte superior de um armário embutido. Só então Regina lembrou-se de como fora ela parar ali. Esteve a examinar a gravura quando chegaram umas crianças; temerosa de que a estragassem ou a pedissem (era uma peça de relativo valor), achou prudente guardá-la em lugar seguro e provisório para depois dar-lhe o destino que tinha em mente. Era a melhor maneira, naquela emergência, de evitar dizer um não às crianças.
É curioso como ela própria assinala que ele não indicara o armário - limitou-se a localizar a gravura ao lado da caixa de costura. Teria sido muito lógico que dissesse: - A gravura está dentro do seu guarda-roupa, na prateleira de cima, junto de uma caixa de costura. Ao contrário, disse apenas que ela estava "no mesmo lugar onde você coloca uma caixinha de madeira com o material de costura".
Prepare-se o leitor para algumas 'turbulências' desse tipo, pois os problemas suscitados pela psicometria não são nada fáceis de serem ordenados num quadro classificatório, tudo bonitinho, com cada coisa no seu lugar e tempo. Basta dizer que ainda não se dispõe de uma teoria ou uma hipótese viável que sirva indiscriminadamente para todos os casos observados. É preciso acostumar-se à idéia de que, em psicometria, temos montanhas de perguntas para montículos de respostas, se é que podemos chamar de resposta sabemos sobre uma das mais estranhas, curiosas e fascinantes faculdades do ser humano.
Ernesto Bozzano estava coberto de razões quando intitulou seu estudo sobre essa questão Os enigmas da psicometria.
Convido o leitor a enfrentar comigo alguns desses enigmas. Prometo-lhe uma viagem pelo misterioso território de uma fantástica realidade preciso levar muito equipamento para essa excursão. Basta segurar-se bem, estar alerta, para examinar tudo com muito cuidado e ter a dosagem de humildade intelectual para não se afligir com a própria ignorância. Em outras palavras, seremos duas perplexas ignorâncias a visitar um mundo de coisas incríveis, mas possíveis; fantásticas, mas factuais. Quem tem um fato - disse alguém - não está sujeito ao que tem apenas um argumento. Explicável ou não, a psicometria é um fato. Enquanto não lhe descobrirmos o mecanismo, ficaremos como os índios brasileiros que viram Diogo Álvares Correa, o Caramuru, fulminar, com uma estranhíssima e explosiva máquina, um pássaro na floresta. Virou deus, na hora! Não ambicionemos tanto.
2. MAIS UM TERMO INADEQUADO
Comecemos pela palavra em si. Psicometria é um dos termos inadequados para caracterizar fenômenos psíquicos, mas que 'pegou'. Esses rótulos, quando pegam, ficam muito difíceis de serem substituídos por outros mais vistosos ou adequados e, principalmente, mais compatíveis com o conteúdo do frasco. Como se pode facilmente perceber, psicometria seria algo que nos ensinasse a medir a alma, o que não faz sentido algum.
O dr. Nandor Fodor, na sua já citada Enciclopédia, decidiu-se pela definição proposta pela sra. Hester Dowden, respeitada médium inglesa, também conhecida pelo nome de sra. Travers-Smith por causa de seus dois casamentos. Segundo ela, a psicometria é "uma faculdade psíquica de certas pessoas que as possibilita adivinhar a história ou eventos ligados ao objeto material com o qual se ponham em contato direto".
Como não vamos perder tempo em busca da melhor definição, fiquemos com essa mesma.
3. A NATUREZA COMO CINEGRAFISTA
Há dois estudos clássicos da maior confiabilidade feitos por dois pesquisadores pacientes e competentes. Um deles é J. Rhodes Buchanan, americano, deão da faculdade e professor de medicina em Covington, Kentucky, Estados Unidos. Ele nasceu em 1814 e morreu aos oitenta e cinco anos em 1899. Seu Manual of psychometry, foi publicado em Boston, em 1889, após muitos anos de intensa pesquisa. O outro clássico é The soul of things (A alma das coisas, um belo título), publicado em 1863 pelo dr. William Denton, professor de geologia em Boston, Estados Unidos. O prof. Denton realizou inúmeras experiências com a sua irmã, Anna Dennton Cridge, com a sua esposa e depois com o filho. Foram trinta anos de pesquisa. Sua conclusão não deixa a menor dúvida: a existência da psicometria é inquestionável.
Não podemos aqui mergulhar mais fundo nesses livros fascinantes, primeiro porque, lamentavelmente, não os tenho em mãos (conheço-os apenas de citação) e, em segundo lugar, porque nosso livro ficaria grande demais. Rogo, entretanto, à complacência do leitor para citar uma bela frase do dr. Denton, escritor nato, além de grande pesquisador, e que resume a tese fundamental da sua obra sobre a psicometria. Escreveu ele, em Nature's secrets (Segredos da Natureza), o seguinte: Desde a primeira madrugada de luz neste mundo infame, quando, em torno de seu berço, tempestuosas cortinas o envolviam, a Natureza tem estado a fotografar cada momento. Que galeria de retratos tem ela! (Denton, William, 1863) .
Utilizando-se das faculdades psicométricas de seus sensitivos, tanto Buchanan como Denton mergulharam num passado ignoto, como que vindo de muito além das fronteiras do tempo.
Ao segurar o fragmento de um meteorito, diz a senhora Denton: Meus olhos são arrebatados para cima. Vejo uma espécie de luz nevoenta. Parece deslocar-se por milhas e milhas com enorme velocidade, sempre para cima e para cima. Torrentes de luz surgem à direita, muitíssimo ao longe ... A luz brilha a uma vasta distância ... (Denton. William, 1863).
Parece que a sra. Denton foi às origens do próprio universo nessa visita fantástica, no momento mesmo em que Deus criava corpos celestes, remotíssimos no tempo e no espaço, dos quais aquele pequenino fragmento de pedra cósmica iria desprender-se um dia e ir parar nas mãos dela, abismos de tempo depois ...
Algumas dessas experiências são penosas demais para os sensitivos e há mesmo, objetos que eles se recusam a tocar, por pressentirem segredos que não convém suscitar. Há pessoas tão sensíveis a esse tipo de manifestação que segurando nas mãos objeto que tenha pertencido a um 'morto', assumem aparência da pessoa em vida, seus maneirismos e até podem sentir os sintomas das moléstias que provocaram o desencarne do dono da peça.
Segundo Crowell, em The identity of primitive christianity and modern spiritualism, citado pelo dr. Nandor Fodor - Luís Napoleão mandou destruir guarita de sentinela na qual três soldados sucessivamente se mataram.
O dr. Dufay - segundo Richet - entregou um objeto dentro de vários envelopes fechados a Marie, uma sensitiva. Ela pensou por um momento começou a falar como se pensasse alto. A primeira coisa que disse foi que estava ali algo com o qual havia morrido um homem. E continuou: - Uma corda? Não. Uma gravata?' Isto é de um prisioneiro que se enforcou porque havia cometido um assassinato. As visões psicométricas ocorrem às vezes, em rápidos flashes, tão rápidos que se torna difícil apreendê-los. Escreve D'Aute-Hooper, em Spirit psychometry: Seria impossível acompanhar e descrever as impressões, à medida que passam pela minha consciência. É rápido demais. São como imagens cinematográficas. Parecem voar. De outras vezes, é como se eu fosse um pedaço de pedra, sem nenhuma faculdade de pensar e, no entanto, vendo coisas e assistindo a eventos à minha volta.
(D'Aute-Hooper).