Transmite-nos o Sr. Dombre o relato seguinte de uma nova cura das mais notáveis, obtida pelo círculo espírita de Marmande. Malgrado sua extensão, julgamos dever publicá-lo de uma só vez, em razão do alto interesse que ele apresenta e para que se possa melhor captar o encadeamento dos fatos. Pensamos que os leitores não terão motivos para se queixarem de nós.
Suprimimos apenas alguns detalhes que não nos pareceram de importância capital. Os ensinamentos decorrentes são numerosos e sérios e lançam nova luz sobre essa questão de atualidade e sobre esses fenômenos, que tendem a multiplicar-se. Considerando-se a extensão do artigo, adiamos as considerações para o próximo número, a fim de lhes dar os desenvolvimentos necessários.
Senhor Allan Kardec, É com uma força nova e uma confiança em Deus, corroborada pelos fatos que, entusiasmando-me sem me assombrar, venho fazer-vos o relato de uma cura de obsessão, notável sob vários aspectos. Oh! bem cego é quem nisto não veja o dedo de Deus! Todos os princípios da sublime doutrina do Espiritismo aí se acham confirmados: a individualidade da alma, a intervenção dos Espíritos no mundo corporal, a expiação, o castigo e a reencarnação são demonstrados de maneira surpreendente nos fatos com que vos vou entreter. Como já vos exprimi, lamento ser obrigado a vos falar de mim, do papel que me coube nesta circunstância, como instrumento de que Deus se dignou servir-se para ferir os olhos. Deveria passar em silêncio os fatos relacionados comigo? Julguei que não. Estais encarregado de controlar, estudar, analisar os fatos e espalhar a luz: os mínimos detalhes devem, pois, ser levados ao vosso conhecimento. Deus, que lê no fundo dos corações, sabe que não fui movido pela vã satisfação do amor-próprio; aliás, não ignoro que aquele que, por privilégio é chamado a fazer qualquer bem, logo é reduzido à impotência se, por algum instante, desconhece a intervenção divina: feliz mesmo se não for castigado!
Vamos ao relato dos fatos.
Desde os primeiros dias de setembro de 1864, não se falava, em certo bairro da cidade, senão das crises convulsivas experimentadas por uma moça, Valentine Laurent, de treze anos.
Essas crises, que se repetiam várias vezes por dia, eram de tal violência que cinco homens, que a continham pela cabeça, pelos braços e pelas pernas, tinham dificuldade de mantê-la em seu leito.
Ela encontrava bastante força para os agitar e, algumas vezes, até a se desprender de suas mãos. As mãos, então, se agarravam a tudo; camisas, vestidos, cobertas da cama eram rasgadas prontamente; os dentes desempenhavam um papel muito ativo em seus furores, apavorando com razão as pessoas que a cercavam. Se não a tivessem contido, ela teria partido a cabeça na parede e, malgrado os esforços e as precauções, não ficou isenta de cortes e contusões.
Não lhe faltaram os recursos da arte. Quatro médicos a viram sucessivamente; porções de éter, pílulas, medicamentos de toda natureza: ela tomava tudo sem repugnância; as sanguessugas atrás das orelhas, os vesicatórios nas coxas também não foram poupados, mas sem sucesso. Durante as crises, o pulso era perfeitamente regular; depois das crises, nem a menor lembrança dos sofrimentos, das convulsões, mas muito espanto ao ver a casa cheia de gente e seu leito cercado de homens ofegantes, alguns dos quais lamentavam uma camisa ou um colete rasgado.
O cura de X..., paróquia situada a dois ou três quilômetros de Marmande, gozando na região, entre certas pessoas, de uma celebridade recente, como curador de toda espécie de males, foi consultado pelo pai da jovem. O cura, sem dar explicações sobre a natureza do mal, lhe deu gratuitamente um pouco de pó branco para a doente tomar; em seguida, ofereceu-se para rezar uma missa Mas, ah! nem o pó, nem a missa preservaram a jovem Valentine de quatorze crises no dia seguinte, o que jamais lhe havia acontecido.
Tanto insucesso nos cuidados de toda sorte necessariamente deveriam ter originado, no espírito do vulgo, idéias supersticiosas. Com efeito, as comadres falavam alto de malefícios e sortilégios lançados sobre a moça.
Durante esse tempo e no silêncio da intimidade, consultamos nossos guias espirituais sobre a natureza dessa moléstia. Eis o que nos responderam: “É uma obsessão das mais graves, cujo caráter mudará muitas vezes de fisionomia. Agi friamente, com calma; observai, estudai e chamai Germaine.”
A esta primeira evocação, este Espírito não poupou injúrias e mostrou grande repugnância em responder às nossas interpelações. Até então, nenhum de nós tinha entrado na casa da doente e, antes de intervir, queríamos deixar a família esgotar todos os meios que a sua solicitude podia inspirar. Só quando a impotência da Ciência e da Igreja foi constatada é que exortamos o pai desesperado a vir assistir à nossa reunião para saber a verdadeira causa do mal de sua filha, e o remédio moral a lhe oferecer. Essa primeira sessão ocorreu em 16 de setembro de 1864. Antes da evocação de Germaine, nossos guias nos deram a seguinte instrução: “Procedei com muito cuidado, muita observação e muito zelo. Tratareis com um Espírito mistificador, que alia a astúcia e a habilidade hipócrita a um caráter muito mal. Não cesseis de estudar, de trabalhar pela moralização desse Espírito e de orar com essa finalidade. Recomendai aos pais que, em presença da filha, evitem qualquer manifestação de temor por seu estado; ao contrário, eles devem fazê-la consagrar-se às suas ocupações habituais e, sobretudo, não serem ásperos para com ela. Que lhe digam, principalmente, que não há feiticeiros: isto é muito importante. O cérebro jovem e maleável recebe as impressões com muita facilidade e seu moral poderia sofrer com isto; que não a deixem entreter-se com pessoas susceptíveis de lhe contar histórias absurdas, que dão às crianças idéias falsas e, por vezes, perniciosas.
Que os próprios pais se tranqüilizem: a prece sincera é o único remédio que deve libertar a garota.
Nós vo-lo dissemos, espíritas, o Espírito Germaine tem habilidade; ele arranjará sempre crenças ridículas, rumores que circulem em volta da mocinha; procurará dar-vos o troco. Tirai partido do caso: a obsessão apresentar-se-á sob novas fases. Ficai advertidos; pensai que deveis trabalhar com perseverança e seguir com inteligência os mínimos detalhes que vos porão no rastro das manobras do Espírito. Não vos fieis na calma. Se as crises são os efeitos mais chocantes nas obsessões, há outras conseqüências muito mais perigosas. Desconfiai do idiotismo e da infantilidade num obsedado que, como neste caso, não sofre fisicamente. As obsessões são tanto mais perigosas quanto mais ocultas; muitas vezes são puramente morais. Este não raciocina, aquele perde a lembrança do que disse, do que fez. Entretanto, não se deve julgar muito precipitadamente e tudo atribuir à obsessão. Repito: estudai, discerni, trabalhai seriamente; não espereis tudo de nós; ajudar-vos-emos, pois trabalhamos em acordo, mas não repouseis, crendo que tudo vos será revelado.”
Evocação de Germaine – Eis-me aqui.
P. – Tendes algo a nos dizer, em continuação à nossa última conversa?
Resp. – Não, nada, senhores.
P. – Sabeis que nos tratastes com muita aspereza?
Resp. – Também me falais muito mal.
P. – Nós vos demos conselhos. Refletistes neles?
Resp. – Sim, muito, juro. Minhas reflexões foram sensa-tas. Admito que eu estava louca; delirava, mas eis-me calma.
P. – Muito bem! Quereis dizer-nos por que torturais essa menina?
Resp. – Inútil voltar ao assunto; seria muito longo para vos contar. Imagino que isto aqui não seja um tribunal; que não serei obrigada a me sentar no banco dos réus e responder ao questionário.
P. – Não, absolutamente; estais completamente livre; é o interesse que nos leva, por vós e pela menina, a perguntar por que motivo sério ou por que capricho vos entregais a esses ataques.
Resp. – Dizeis capricho? Ah! deveríeis desejar que não passasse de um capricho; porque, sabeis, o capricho é instável e acaba.
P. – Estais realmente calma?
Resp. – Bem o vedes.
P. – Sim, em aparência; mas não disfarçais os vossos sentimentos?
Resp. – Não venho vos estender armadilhas, pois não preciso disto.
P. – Quereis afirmá-lo perante os Espíritos que nos cercam...?
Resp. – Não ponhamos outras pessoas entre nós. Se deve-mos conversar ou tratar de algo, que seja de vós para mim. Não gosto da intervenção de terceiros.
P. – Muito bem! acreditamos em vossa boa-fé, e...
Resp. – É por isto que deveríeis vos contentar com esta garantia. Aliás, eu vos obriguei a me acreditar, se fizerdes resistência; não me faltarão provas para vos convencer de minha sinceridade.
Germaine Ao ouvir o nome de Germaine, o pai da obsedada exclamou, estupefato: Oh! é engraçado! E, ao se retirar, repetia várias vezes: É engraçado!
(Isto será explicado mais tarde).
No dia seguinte, 17 de setembro, dirigi-me pela primeira vez à casa daquela família, com o desejo de ser testemunha de um ataque do Espírito. Fui servido na medida do possível.
Valentine estava em crise; entrei com as pessoas do quarteirão, que se precipitavam na casa.