Sânzio fixou um gesto de tolerância bondosa e replicou:
— Evitemos o mergulho nos labirintos da Filosofia, não obstante o respeito que a Filosofia nos merece, porquanto não nos achamos num cenáculo simplesmente destinado à esgrima da palavra. Busquemos, antes de tudo, simplificar. É fácil conhecer o bem quando o nosso coração se nutre de boa vontade à frente da Lei. O bem, meu amigo, é o progresso e a felicidade, a segurança e a justiça para todos os nossos semelhantes e para todas as criaturas de nossa estrada, aos quais devemos empenhar as conveniências de nosso exclusivismo, mas sem qualquer constrangimento por parte de ordenações puramente humanas, que nos colocariam em falsa posição no serviço, por atuarem de fora para dentro, gerando, muitas vezes, em nosso cosmo interior, para nosso prejuízo, a indisciplina e a revolta. O bem será, desse modo, nossa decidida cooperação com a Lei, a favor de todos, ainda mesmo que isso nos custe a renunciação mais completa, visto não ignorarmos que, auxiliando a Lei do Senhor e agindo de conformidade com ela, seremos por ela ajudados e sustentados no campo dos valores imperecíveis. E o mal será sempre representado por aquela triste vocação do bem unicamente para nós mesmos, a expressar-se no egoísmo e na vaidade, na insensatez e no orgulho que nos assinalam a permanência nas linhas inferiores do espírito. Finda breve pausa, o Ministro ajuntou:
— Possuímos em Nosso Senhor Jesus-Cristo o paradigma do Eterno Bem sobre a Terra. Tendo dado tudo de si, em benefício dos outros, não hesitou em aceitar o supremo sacrifício no auxílio a todos, para que o bem de todos prevalecesse, ainda mesmo que a ele, em particular, se reservassem a incompreensão e o sofrimento, a flagelação e a morte. Em vista da pausa que se fizera espontânea, ousei ainda interrogar, faminto de luz:
— Generoso amigo, poderíamos ouvi-lo, de alguma sorte, quanto aos apontamentos cármicos que trazemos em nós mesmos? Sânzio refletiu alguns momentos e ponderou:
— É muito difícil penetrar o sentido das Leis Divinas, com os recursos limitados da palavra humana. Ainda assim, iniciemos o tentame, recorrendo a imagens tão simples quanto seja possível. Apesar da impropriedade, comparemos a esfera humana ao reino vegetal. Cada planta produz na época própria, segundo a espécie a que se ajusta, e cada alma estabelece para si mesma as circunstâncias felizes ou infelizes em que se encontra, conforme as ações que pratica, através de seus sentimentos e ideias, decisões e atos na peregrinação evolutiva. A planta, de começo, jaz encerrada no embrião, e o destino, ao princípio de cada nova existência, está guardado na mente. Com o tempo, a planta germina, desenvolve-se, floresce e frutifica e, também com o tempo, a alma desabrocha ao sol da eternidade, cresce em conhecimento e virtude, floresce em beleza e entendimento e frutifica em amor e sabedoria. A planta, porém, é uma crisálida de consciência, que dorme largos milênios, rigidamente presa aos princípios da genética vulgar que lhe impõe os caracteres dos antepassados, e a alma humana é uma consciência formada, retratando em si as leis que governam a vida e, por isso, já dispõe, até certo ponto, de faculdades com que influir na genética, modificando-lhe os valores, porque a consciência responsável herda sempre de si mesma, ajustada às consciências que lhe são afins. Nossa mente guarda consigo, em germe, os acontecimentos agradáveis ou desagradáveis que a surpreenderão amanhã, assim como a pevide minúscula encerra potencialmente a planta produtiva em que se transformará no futuro. Nessa altura, Hilário perguntou, inquieto:
— Não teremos, nesse postulado, a consagração do determinismo de ordem absoluta? Se trazemos hoje, no campo mental, tudo aquilo que nos sucederá amanhã… Sânzio, contudo, esclareceu, complacente:
— Sim, nas Esferas primárias da evolução, o determinismo pode ser considerado irresistível. É o mineral obedecendo a leis invariáveis de coesão e o vegetal respondendo, fiel, aos princípios organogênicos, mas, na consciência humana, a razão e a vontade, o conhecimento e o discernimento entram em função nas forças do destino, conferindo ao Espírito as responsabilidades naturais que deve possuir sobre si mesmo. Por isso, embora nos reconheçamos subordinados aos efeitos de nossas próprias ações, não podemos ignorar que o comportamento de cada um de nós, dentro desse determinismo relativo, decorrente de nossa própria conduta, pode significar liberação abreviada ou cativeiro maior, agravo ou melhoria em nossa condição de almas endividadas perante a Lei.
— Mas, ainda mesmo nas piores posições expiatórias, — inquiri, — goza a consciência dos direitos inerentes ao livre arbítrio?
— Como não? — Falou o Ministro, generoso.
— Imaginemos um delinquente complexo, segregado na penitenciária. Acusado de vários crimes, permanece privado de toda e qualquer liberdade na enxovia comum. Ainda assim, na hipótese de aproveitar o tempo no cárcere, para servir espontaneamente à ordem e ao bem-estar das autoridades e dos companheiros, acatando com humildade e respeito as disposições da lei que o corrige, atitude essa que resulta de seu livre arbítrio para ajudar ou desajudar a si mesmo, a breve tempo esse prisioneiro começa por atrair a simpatia daqueles que o cercam, avançando com segurança para a recuperação de si mesmo. O raciocínio era claro, mas, não desejando perder o fio da lição simples e preciosa, indaguei:
— Venerável benfeitor, para nossa edificação, poderemos recolher mais amplas anotações sobre a melhor maneira de colaborar com a Lei Divina em nosso próprio favor? Dispomos de algum meio para escapar à justiça? Sânzio sorriu e observou:
— Da justiça ninguém fugirá, mesmo porque a nossa consciência, em acordando para a santidade da vida, suspira por resgatar dignamente todos os débitos de que se onerou perante a Bondade de Deus; entretanto, o Amor Infinito do Pai Celeste brilha em todos os processos de reajuste. Assim é que, se claudicamos nessa ou naquela experiência indispensável à conquista da luz que o Supremo Senhor nos reserva, é necessário nos adaptemos à justa recapitulação das experiências frustradas, utilizando os patrimônios do tempo. Figuremos um homem acovardado diante da luta, perpetrando o suicídio aos quarenta anos de idade no corpo físico. Esse homem penetra no mundo espiritual sofrendo as consequências imediatas do gesto infeliz, gastando tempo mais ou menos longo, segundo as atenuantes e agravantes de sua deserção, para recompor as células do veículo perispirítico, e, logo que oportuno, quando torna a merecer o prêmio de um corpo carnal na Esfera humana, dentre as provas que repetirá, naturalmente se inclui a extrema tentação ao suicídio na idade precisa em que abandonou a posição de trabalho que lhe cabia, porque as imagens destrutivas, que arquivou em sua mente, se desdobrarão, diante dele, através do fenômeno a que podemos chamar “circunstâncias reflexas”, dando azo a recônditos desequilíbrios emocionais que o situarão, logicamente, em contato com as forças desequilibradas que se lhe ajustam ao temporário modo de ser. Se esse homem não houver amealhado recursos educativos e renovadores em si mesmo, pela prática da fraternidade e do estudo, de modo a superar a crise inevitável, muito dificilmente escapará ao suicídio, de novo, porque as tentações, não obstante reforçadas por fora de nós, começam em nós e alimentam-se de nós mesmos. O apontamento era valioso e, por essa razão, interroguei com a curiosidade respeitosa do aluno interessado em aprender:
— E como pode a criatura habilitar-se devidamente para resgatar o preço da sua libertação? Sânzio não se deu por surpreendido e replicou, de pronto:
— Como qualquer devedor que, de fato, se empenhe na solução dos seus compromissos. Decerto que o homem, sumamente endividado, precisa aceitar restrições no seu conforto para sanar seus débitos com as suas próprias economias. Em razão disso, não pode viver à farta, mas sim com abstinência e suor, de modo a liberar-se tão depressa quanto possível. O grande orientador fez uma pausa de momento, como para refletir, e continuou:
— Voltemos ao símbolo da planta. Imaginemos que uma semente de laranjeira caiu em terreno pobre e seco. Segundo as leis que regem as atividades agrícolas, germinará ela sob constringentes obstáculos, transformando-se num arbusto mirrado, com lamentável produção no tempo devido. Mas, se o lavrador lhe acode às necessidades e exigências, desde o início da luta, oferecendo-lhe adubo, água e defesa, tanto quanto ajudando-a com a poda salutar no momento oportuno, a laranjeira atenderá, brilhantemente, ao próprio destino… Semelhantes cuidados, no entanto, devem ser postos em ação, na hora justa, isto é, quando na Terra a alma, e tanto quanto possível deve começar essa restauração nos melhores tempos da jornada física… Hilário, que acompanhava a exposição, fascinado quanto eu mesmo pela lógica daquelas palavras sábias e simples, interrogou:
— E quando a criatura não pode contar, na infância ou na mocidade, com preceptores afeiçoados ao bem, capazes de funcionar como lavradores diligentes, junto daqueles que recomeçam a luta humana?
— Sem dúvida, — ponderou o Ministro, — a meninice e a juventude são as épocas mais adequadas à construção da fortaleza moral com que a alma encarnada deve tecer gradativamente a coroa da vitória que lhe cabe atingir.