XIV
Que talento, que arte, que perfeição de atitude, de gesto, de acentuação não seria necessário despender de maneira contínua, durante tantas sessões, para imaginar e simular cenas tão realistas, às vezes dramáticas, na presença de experimentadores hábeis em desmascarar a impostura, de práticos sempre precavidos contra o erro ou o embuste? Tal papel não pode ser atribuído a jovens sem nenhuma experiência de vida, com instrução elementar mui limitada. Outra coisa: no encadeamento dessas descrições, no destino dos seres que estão na tela da discussão, nas peripécias das suas existências, encontramos sempre confirmação da alta lei de causalidade ou de conseqüência dos atos, que rege o mundo moral. Decerto, não é possível ver nisso um reflexo das opiniões dos sujets, visto que, a tal respeito, nenhuma noção eles possuem, por não terem sido preparados de modo algum pelo meio em que viveram, nem pela educação que receberam, para o conhecimento das vidas sucessivas, como o atestam os observadores.(150) Evidentemente, muitos cépticos pensarão que esses fatos são ainda em mui pequeno número para que deles possa inferir uma teoria segura e conclusões decisivas. Dir-se-á que convém esperar para isso acumulação mais considerável de provas e de testemunhos; apresentar-nos-ão como objeção muitas experiências com aspecto suspeito, abundando em anacronismos, contradições, fatos apócrifos. Essas narrativas fantasistas produzem a viva impressão de que observadores benévolos tenham sido vítimas de ludíbrio, de mistificação. Qual é, porém, o dano que daí pode advir para as experiências sérias? Os abusos, os erros que aqui e ali se praticam não podem atingir os estudos feitos com precisão metódica e rigoroso espírito de exame. Em resumo, temos para nós que os fatos relatados acima, juntos a muitos outros da mesma natureza, que seria supérfluo enumerar aqui, bastam para estabelecera existência, na base do edifício do “eu”, de uma espécie de cripta onde se amontoa uma imensa reserva de conhecimentos e de recordações. O longo passado do ser deixou aí seu rastro indelével que poderá, ele só, dizer-nos o segredo das origens e da evolução, o mistério profundo da natureza humana. “Há – diz Herbert Spencer – dois processos de construção da consciência: a assimilação e a lembrança”; mas não se pode deixar de reconhecer que a consciência normal de que ele fala não é mais do que uma consciência precária e restrita, que vacila à borda dos abismos da alma, iluminando, como chama intermitente, um mundo oculto onde dormitam forças e imagens, em que se acumulam as impressões recolhidas desde o ponto inicial do ser. E tudo isso, oculto durante a vida pelo véu da carne, se manifesta no transe, sai da sombra com tanto mais nitidez quanto mais livre da matéria está a alma e maior é o grau de sua evolução. Quanto às reservas feitas pelo Coronel de Rochas a propósito das inexatidões notadas por ele nas narrações dos hipnotizados no curso de suas investigações, devemos acrescentar: nada há que admirar quanto à possibilidade de ter havido erros, atendendo ao estado mental dos sujets e à quantidade – na hora atual – de elementos conhecidos e desconhecidos que entram em jogo nesses fenômenos tão novos para a ciência. Poderiam eles ser atribuídos a três causas diferentes – reminiscências diretas dos pacientes, visões, ou também sugestões provenientes do exterior. Quanto ao primeiro caso, notemos que, em todas as experiências que tenham por objetivo pôr em vibração as forças anímicas, o ser assemelha-se a um foco que se acende e aviva e que, na sua atividade, projeta vapores e fumo que, de quando em quando, encobrem a chama interior. Às vezes, em pacientes pouco desenvolvidos, pouco excitados, as recordações normais e as impressões recentes misturar-se-ão, por isso, com reminiscências afastadas. A habilidade dos experimentadores consistirá em saber separar esses elementos perturbadores, em dissipar as brumas e as sombras para restituírem ao foco central sua importância e seu brilho. Poder-se-ia também ver nisso o resultado de sugestões exercidas pelos magnetizadores ou por personalidades estranhas. Eis o que, a esse respeito, diz o Coronel de Rochas:(151) “Essas sugestões não vêm certamente de mim, que não somente evitei tudo o que podia pôr o sujet em caminho determinado, mas que procurei muitas vezes, debalde, transviá-lo com sugestões diferentes; o mesmo sucedeu com outros experimentadores que se entregaram a esse estudo. Provirão elas de idéias que, segundo a expressão popular, “andam no ar” e que atuam com mais força no espírito do paciente solto dos laços do corpo? Poderia bem ser isso, até certo ponto, porquanto se tem observado que todas as revelações dos extáticos se ressentem mais ou menos do meio em que viveram. Serão devidas a entidades invisíveis que, querendo espalhar entre os homens a crença nas encarnações sucessivas, procedem como a Morale en action, com o auxílio de historiazinhas assinadas por pseudônimos para evitar as reivindicações entre vivos? Consultados os invisíveis a tal respeito, por via medianímica, responderam:(152) “Quando o sujet não está suficientemente livre para ler em si mesmo a história do seu passado, podemos então proceder por quadros sucessivos que lhe reproduzem à vista as suas próprias existências. São, nesse caso, realmente visões e é por isso que nem sempre podem ser exatas. Em certos casos, pois, os pacientes não revivem as suas vidas. Comunicamos-lhes do Alto as informações que eles dão aos experimentadores e lhes sugerimos que sofram os efeitos das circunstâncias que descrevem. Podemos iniciar-vos no vosso passado sem, contudo, precisarmos as datas e os lugares. Não esqueçais que, livres das convenções terrestres, deixa para nós de haver tempo e espaço. Vivendo fora desses limites, cometemos facilmente erros em tudo o que lhes diz respeito. Consideramos tudo isso como coisas mínimas e preferimos falar-vos dos vossos atos bons ou maus e de suas conseqüências. Se algumas datas, se alguns nomes não se encontrarem nos vossos arquivos, a conclusão para vós é que é tudo falso. Erro profundo do vosso julgamento. Grandes são as dificuldades para dar-vos conhecimentos tão exatos como o exigis; mas, crede-nos, não vos fatigueis nas vossas investigações. Não há estudo mais nobre do que esse. Não sentis que é belo difundir a luz? No entanto, infelizmente, no vosso planeta ainda há de passar muito tempo antes que as massas compreendam para que aurora se devem dirigir!” Seria fácil acrescentarmos um grande número de fatos que têm ligação com a mesma ordem de averiguações. O Príncipe Adam-Wisznievski, rua do Débarcadère 7, em Paris, comunica-nos a experiência narrada a seguir, feita pelas próprias testemunhas, algumas das quais vivem ainda e que só consentiram em ser designadas por iniciais: “O Príncipe Galitzin, o Marquês de B..., o Conde de R... estavam reunidos, no verão de 1862, nas praias de Hamburgo. Uma noite, depois de terem jantado muito tarde, passeavam no parque do Cassino e ali avistaram uma pobre deitada num banco. Depois de se chegarem a ela e a interrogarem, convidaram-na a vir cear no hotel. O Príncipe Galitzin, que era magnetizador, depois que ela ceou, o que fez com grande apetite, teve a idéia de magnetizá-la. Conseguiu-o à custa de grande número de passes. Qual não foi a admiração das pessoas presentes quando, profundamente adormecida, aquela que, em vigília, exprimia-se num arrevesado dialeto alemão, pôs-se a falar corretamente em francês, contando que reencarnara na pobreza por castigo, em conseqüência de haver cometido um crime na sua vida precedente, no século XVIII. Habitava, então, um castelo na Bretanha, à beira-mar. Por causa de um amante, quis livrar-se do marido e despenhou-o no mar, do alto de um rochedo; indicou o lugar do crime com grande exatidão. Graças às suas indicações, o Príncipe Galitzin e o Marquês de B... puderam, mais tarde, dirigir-se à Bretanha, às costas do Norte, separadamente, e entregar-se a dois inquéritos, cujos resultados foram idênticos. Havendo interrogado grande número de pessoas, não puderam, a princípio, colher informação alguma. Afinal encontraram uns camponeses já velhos que se lembravam de ter ouvido os pais contarem a história de uma jovem e bela castelã que assassinara o marido, mandando atirá-lo ao mar. Tudo o que a pobre de Hamburgo havia dito, no estado de sonambulismo, foi reconhecido exato. O Príncipe Galitzin, regressando da França e passando por Hamburgo, interrogou o comissário de polícia a respeito dessa mulher. Esse funcionário declarou-lhe que ela era inteiramente falha de instrução, falava um dialeto vulgar alemão e vivia apenas de mesquinhos recursos, como mulher de soldados.” A doutrina das vidas sucessivas, ensinada pelas grandes escolas filosóficas do passado e, em nossos dias, pelo espiritualismo kardequiano, recebe, é manifesto, por via dos trabalhos dos sábios e dos investigadores, umas vezes direta, outras indiretamente, novos e numerosos subsídios. Graças à experimentação, as profundezas mais recônditas da alma humana entreabrem-se e a nossa própria história parece reconstituir-se, da mesma forma que a Geologia pôde reconstituir a história do Globo, escavando-lhe os possantes suportes. A questão está pendente ainda, é verdade; é preciso observar extrema reserva quanto às conclusões. Não obstante, apesar das obscuridades que subsistem, havemos considerado como um dever publicar esses fatos e experiências a fim de chamar para eles a atenção dos pensadores e provocar novas investigações. Só por esse modo é que a luz a pouco e pouco se fará completa acerca desse problema, como se fez acerca de tantos outros.
TAG Valor
Título As vidas sucessivas – Provas experimentais – Renovação da memória
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino