XIV
“Faço subir Mayo o curso dos anos; ela, desse modo, vai até à época do seu nascimento. Fazendo-a chegar mais longe ainda, lembra-se de que já viveu, de que se chamava Line, de que morreu afogada, de que se elevou depois ao ar, de que viu seres luminosos; mas, que não lhe fora permitido falar-lhes. Além da vida de Line, torna a encontrar-se outra vez na erraticidade, mas num estado muito penoso; porque antes havia sido um homem “que não fora bom”. Nessa encarnação chamava-se Charles Mauville. Estreou-se na vida pública como empregado num escritório em Paris. Havia, então, contínuos combates na rua. Ele mesmo matou gente e nisso tinha prazer, era mau. Cortavam-se as cabeças nas praças. Aos cinqüenta anos deixou o escritório, está doente (tosse) e não tarda a morrer. Pode seguir o seu enterro e ouvir gente dizer: “Aquele foi um estróina a valer.” Sofre, é infeliz. Afinal, passa para o corpo de Line. Outras sessões reconstituem a existência de Line, a bretã. “Retardo os passes quando chego à época de sua morte; a respiração torna-se então entrecortada; o corpo balouça-se como levado pelas vagas e ela apresenta sufocações.” Sessão de 29 de dezembro de 1904 – O Sr. de Rochas ordena: “Torna a ser Line... no momento em que se afoga.” Imediatamente, Mayo faz um movimento brusco na poltrona; vira-se para o lado direito com o rosto nas mãos e fica assim alguns segundos. Dir-se-ia ser uma primeira fase do ato que é executado voluntariamente, porque, se Line morreu afogada, é um afogamento voluntário, um suicídio, o que dá à cena aspecto inteiramente particular, bem diferente de um afogamento involuntário. Depois, Mayo vira-se bruscamente para o lado esquerdo. Os movimentos respiratórios precipitam-se e tornam-se difíceis; o peito levanta-se com esforço e irregularidade; o rosto exprime ansiedade, angústia; os olhos estão espantados; faz verdadeiros movimentos de deglutição, como se engolisse água, mas contra sua vontade, porque se vê que resiste; nesse momento dá alguns gritos inarticulados; torce-se mais do que se debate e o rosto exprime sofrimento tão real que o Sr. de Rochas ordena-lhe que envelheça algumas horas. Depois, pergunta-lhe: – Debateste-te por muito tempo? – Debati-me. – E uma morte má? – É. – Onde estás? – No escuro. 30 de dezembro de 1904 – Existência de Ch. Mauville. Mayo descreve uma das fases da doença que o mata; parece passar pelos sintomas característicos das moléstias do peito; opressão, acessos de tosse penosos; morre e assiste ao seu funeral. – Havia muita gente no acompanhamento? – Não. – Que diziam de ti? Não diziam bem, não é verdade? Recordavam que tinhas sido um homem mau? (Depois de hesitar, e baixinho:) – Sim. Em seguida está no “escuro”; o Coronel faz com que o atravesse rapidamente e ela reencarna na Bretanha. Vê-se menina, depois donzela, tem 16 anos e não conhece ainda seu futuro marido; aos 18 anos encontra aquele que o há de ser, casa-se pouco depois e vem a ser mãe. Assistimos então a uma cena de parto de realismo surpreendente.(145) A paciente revolve-se na cadeira, os membros inteiriçam-se, o rosto contrai-se e os seus sofrimentos parecem tão intensos que o Coronel lhe ordena que os passe com rapidez. Tem agora 22 anos, perdeu o marido num naufrágio e seu filhinho morreu. Desesperada, afoga-se. Esse episódio, que ela já reproduziu em outra sessão, é tão doloroso que o Coronel prescreve-lhe que passe além, o que ela faz, mas não sem experimentar violento abalo. No “escuro” em que se vê depois, não sofre, como dissemos, quanto sofrera no “escuro” depois da morte de Ch. Mauville; reencarna na sua família atual e volta à idade que tem. A mudança é operada por meio dos passes magnéticos transversais.” 31 de dezembro de 1904 – “Proponho-me, nessa sessão, obter alguns novos pormenores a respeito da personalidade de Charles Mauville e tratar de fazer chegar Mayo até uma vida precedente. Torno, portanto, rapidamente, mais profundo o sono, empregando passes longitudinais, até à infância de Mauville. No momento em que o interrogo, tem 5 anos. O pai é contramestre numa manufatura, a mãe traja de preto e tem na cabeça uma touca. Continuo a tornar o sono mais profundo. Antes de nascer está na “escuridão”. Sofre. Anteriormente fora uma dama casada com um gentil-homem da Corte de Luis XIV; chamava-se Madeleine de Saint-Marc. Informações da vida dessa senhora: conheceu a Senhorita de La Vallière, que lhe era simpática; mal conhece a Sra. de Montespan, e a Sra. de Maintenon desagrada-lhe. – Diz-se que o rei desposou-a secretamente? – Qual! É simplesmente amante dele. – E qual é a sua opinião a respeito do rei? – E um orgulhoso. – Conhece Scarron? – Santo Deus! Que feio ele é! – Viu representar Molière? – Vi, mas não gosto muito dele. – Conhece Corneille? – É um selvagem. – E Racine? – Conheço principalmente as suas obras e tenho-as em grande conta.(146) Proponho-lhe fazê-la envelhecer para que veja o que lhe sucederá mais tarde. Recusa formal. Debalde ordeno imperiosamente; não consigo vencer a sua resistência senão com emprego de passes transversais enérgicos, aos quais procura por todos os meios esquivar-se. No momento em que eu paro, ela tem 40; deixou a Corte; tosse e sente-se doente do peito. Faço-a falar a respeito do seu caráter; confessa que é egoísta e ciumenta, que tem ciúmes principalmente das mulheres bonitas. Continuando os passes transversais, faço-a chegar aos 45 anos, idade em que morre de tuberculose pulmonar. Assisto a uma agonia curta e ela entra na escuridão. Desperta sem demora pela continuação rápida dos passes transversais.” 19 de janeiro de 1905 – “Três existências sucessivas. Primeiramente, Madeleine de Saint-Marc. Mayo reproduz os últimos momentos da sua vida. Ao cabo de alguns momentos, tosse, um verdadeiro acesso... depois morre... e compreende-se pelos seus movimentos e atitude que está sofrendo; depois volta a ser Charles Mauville; passado um instante, tosse outra vez. (O Sr. de Rochas lembra-se de que Charles Mauville morreu com doença do peito, próximo aos 50 anos, como morrera Madeleine.) Charles Mauville morre... Passados alguns instantes, ela, sob a influência dos passes transversais, é outra vez Line na época da sua gravidez; depois chora, torce-se, agarra-se à sobrecasaca do Sr. De Rochas; os seios apresentam na realidade volume maior que de ordinário (todos o verificamos). Line tem verdadeiras dores; de repente sossega. – Está pronto; a criancinha nasceu. – Line teve o seu bom sucesso... Depois chora; o marido está a morrer...; chora mais... e, de repente, com muita rapidez, debate-se, suspira, afoga-se... e entra no escuro. Passa, finalmente, para o corpo de Mayo e chega progressivamente até aos 18 anos. O Sr. de Rochas desperta-a completamente.” Paremos um instante para considerar o conjunto desses fatos, procurar as garantias de autenticidade que apresentam e deduzir os ensinamentos que deles derivam. Há, logo de princípio, uma coisa que nos causa forte impressão. É, em cada vida renovada, a repetição constante, no decurso de sessões múltiplas, dos mesmos acontecimentos, na mesma ordem, quer ascendentes, quer descendentes, de modo espontâneo, sem hesitação, erro ou confusão.(147) Vem, depois, a comprovação unânime dos experimentadores na Espanha, em Genebra, Grenoble, Aix, etc., verificação que, pessoalmente, pude fazer sempre que observei fenômenos desse gênero. Em cada nova existência que se desenrola, a atitude, o gesto, a linguagem do sujet mudam; a expressão do olhar difere, tornando-se mais dura, mais selvagem, à medida que se recua na ordem dos tempos. Assiste-se à exumação de um complexo de vistas, de preconceitos, de crenças, em relação com a época e o meio em que essa existência se passou. Quando o sujet, sempre uma mulher nos casos retro indicados,(148) passa por uma encarnação masculina, a fisionomia é inteiramente outra, a voz é mais forte, o tom mais elevado, os modos afetam uma tal ou qual rudeza. Não são menos distintas as diferenças, quando é um período infantil que se atravessa. Os estados físicos e mentais encadeiam-se, ligam-se sempre numa conexidade íntima, completando-se uns pelos outros e sendo sempre inseparáveis. Cada recordação evocada, cada cena revivida mobiliza um cortejo de sensações e impressões, risonhas ou penosas, cômicas ou pungentes, segundo os casos, mas perfeitamente adequadas à situação. A lei de correlação verificada por Pierre Janet, Th. Ribot, etc. encontra-se novamente aqui em todo o seu rigor, com precisão mecânica, tanto no que diz respeito às cenas da vida presente, quanto às que se relacionam com as anteriores. Essa correlação constante bastaria, por si só, para assegurar às duas ordens de recordações o mesmo caráter de probabilidade. Verificada, como foi, a exatidão das recordações, da existência atual nas suas fases primárias, apagadas na memória normal do sujet, o que, para umas, é uma prova de autenticidade, constitui igualmente forte presunção em prol das outras. Por outro lado, os sujets reproduziram com uma fidelidade absoluta, com uma vivacidade de impressões e de sensações por forma alguma fictícias, cenas tão comoventes como complicadas; asfixia por submersão, agonias causadas pela tuberculose no último grau, caso de gravidez seguido de parto com toda a série dos fenômenos físicos correlatos – sufocações, dores, tumefação dos seios, etc. Ora, esses sujets, quase todos moças de 16 a 18 anos, são, por natureza, muito tímidos e pouco versados em matéria científica. Por declaração dos próprios experimentadores, dos quais um é médico da família de Mayo, é notória a incapacidade deles para simularem cenas como essas; não possuem nenhum conhecimento de Fisiologia, ou de Patologia e, na sua existência atual, não foram testemunhas de nenhum incidente que pudesse ministrar-lhes indicações sobre fatos dessa ordem.(149) Todas essas considerações nos levam a afastar desconfianças de qualquer fraude, artifício ou hipótese de mera fantasia.
TAG Valor
Título As vidas sucessivas – Provas experimentais – Renovação da memória
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino