XIV
O esquecimento das existências anteriores é, em princípio, dissemos, uma das conseqüências da reencarnação; entretanto, não é absoluto esse esquecimento. Em muitas pessoas o passado renova-se em forma de impressões, senão de lembranças definidas. Essas impressões às vezes influenciam os nossos atos; são as que não vêm da educação, nem do meio, nem da hereditariedade. Nesse número podem classificar-se as simpatias e as antipatias repentinas, as intuições rápidas, as idéias inatas. Basta descermos a nós mesmos, estudarmo-nos com atenção, para tornarmos a encontrar em nossos gostos, em nossas tendências, em traços do nosso caráter, numerosos vestígios desse passado. Infelizmente, mui poucos de nós se entregam a esse exame com método e atenção. Pode-se citar, ainda, em todas as épocas da História, um certo número de homens que, graças a disposições excepcionais do seu organismo psíquico, conservam recordações das suas vidas passadas. Para eles não era uma teoria a pluralidade das existências; era um fato de percepção direta. O testemunho desses homens assume importância considerável por terem ocupado na sociedade do seu tempo altas posições; quase todos, espíritos elevados, exerceram, na sua época, grande influência. A faculdade, muito rara, de que gozavam, era, sem dúvida, o fruto de uma evolução imensa. Estando o valor de um testemunho na razão direta da inteligência e inteireza da testemunha, não se podem passar em claro as afirmações desses homens, alguns dos quais trouxeram na cabeça a coroa do gênio. É um fato bem conhecido que Pitágoras se recordava pelo menos de três das suas existências e dos nomes que em cada uma delas usava.(153) Declarava ter sido Hermótimo, Eufórbio e um dos Argonautas. Juliano, cognominado o Apóstata, tão caluniado pelos cristãos, mas que foi, na realidade, uma das grandes figuras da História Romana, recordava-se de ter sido Alexandre da Macedônia. Empédocles afirmava que, pelo que lhe dizia respeito, “recordava-se de ter sido rapaz e rapariga”.(154) Na opinião de Herder (Dialogues sur la Métempsycose), devem ajuntar-se a esses nomes os de Yarcas e de Apolônio de Tiana. Na Idade Média tornamos a encontrar a mesma faculdade em Gerolamo Cardano. Entre os modernos, Lamartine declara, no seu livro Voyage en Orient, ter tido reminiscências muito claras de um passado longínquo. Transcrevamos o seu testemunho “Na Judéia eu não tinha Bíblia nem livro de viagem; ninguém que me desse o nome dos lugares e o nome antigo dos vales e dos montes. Não obstante, reconheci, sem demora,o vale de Terebinto e o campo de batalha de Saul. Quando estivemos no convento, os padres confirmaram-me a exatidão das minhas descobertas. Os meus companheiros recusavam acreditá-lo. Do mesmo modo, em Séfora, apontara com o dedo e designara pelo nome uma colina que tinha no alto um castelo arruinado, como o lugar provável do nascimento da Virgem. No dia seguinte, no sopé de um monte árido, reconheci o túmulo dos Macabeus e falava verdade sem o saber. Excetuando os vales do Líbano, quase não encontrei na Judéia um lugar ou uma coisa que não fosse para mim como uma recordação. Temos então vivido duas ou mil vezes? É pois, a nossa memória uma simples imagem embaciada que o sopro de Deus aviva?” Era em Lamartine tão viva a concepção das múltiplas vidas do ser, que tinha o desígnio de fazer disso uma idéia dominante, a inspiradora por excelência de suas obras. La Chute d'un Ange era, no seu pensamento, o primeiro elo, e Jocelyn o último de uma série de obras que deviam encadear-se umas às outras e traçar a história de duas almas prosseguindo através dos tempos a sua evolução dolorosa. As agitações da vida política não lhe deixavam vagar para prender umas às outras as contas esparsas desse rosário de obras-primas.(155) Joseph Méry era pródigo nas mesmas idéias. Ainda em sua vida, dizia a seu respeito o Journal Littéraire, de 25 de novembro de 1864: “Há teorias singulares que, para ele, são convicções. Assim, crê firmemente que viveu muitas vezes; lembra-se das menores circunstâncias das suas existências anteriores e descreve-as com tanta minúcia e com um tom de certeza tão entusiástico que se impõe como autoridade. Assim, foi um dos amigos de Vergílio e Horácio; conheceu Augusto e Germânico; fez a guerra nas Gálias e na Germânia. Era general e comandava as tropas romanas quando atravessaram o Reno. Reconhece-se nos montes e sítios onde acampou, nos vales e campos de batalha onde outrora combateu. Chamava-se Mínias. Cabe aqui um episódio que parece estabelecer um bom fundamento de que tais recordações não são simples miragens da sua imaginação. Um dia, em sua vida atual, estava em Roma e de visita à biblioteca do Vaticano. Foi recebido por jovens noviços, trajando longos hábitos escuros, que se puseram a falar-lhe o latim mais puro. Méry era bom latinista em tudo quanto dizia respeito à teoria e às coisas escritas, mas nunca experimentara conversar familiarmente na língua de Juvenal. Ouvindo esses romanos de hoje, admirando esse magnífico idioma, tão bem harmonizado com os costumes da época em que era utilizado com os monumentos, pareceu-lhe que dos olhos lhe caía um véu; pareceu-lhe que ele mesmo já em outros tempos havia conversado com amigos que se serviam dessa linguagem divina. Frases inteiras e irrepreensíveis saíam-lhe dos lábios; achou imediatamente a elegância e a correção; falou, finalmente, latim como fala francês. Não era possível fazer-se tudo isso sem uma aprendizagem e, se ele não tivesse sido vassalo de Augusto, se não houvesse atravessado esse século de todos os esplendores, não teria improvisado um conhecimento impossível de adquirir-se em algumas horas.” O Journal Littéraire, sempre a respeito de Méry, continua: “A sua outra passagem pela Terra deu-se nas Índias; por isso conhece-as tão bem que, quando publicou La Guerre do Nizam, nenhum dos seus leitores duvidou que ele houvesse por muito tempo habitado a Ásia. Suas descrições são tão vivas, seus quadros tão originais, faz de tal modo tocar com o dedo as menores minudencias, que é impossível não tenha visto o que conta; a verdade marcou tudo isso com a sua chancela. Pretende ter entrado nesse país com a expedição muçulmana, em 1035. Lá viveu 50 anos, passou belos dias e fixou residência definitiva; lá continuou a ser poeta, mas menos dedicado às letras que em Roma e Paris. Guerreiro nos primeiros tempos, cismador mais tarde, conservou impressas na sua alma as imagens surpreendentes das margens do rio sagrado e dos sítios hindus. Tinha muitas moradas na cidade e no campo, orou no templo dos elefantes, conheceu a civilização adiantada de Java, viu as esplêndidas ruínas que ele assinala e que são ainda tão pouco conhecidas. É preciso ouvi-lo cantar os seus poemas, porque são verdadeiros poemas essas lembranças a Swedenborg. Não suspeiteis da sua seriedade, que é muito grande. Não há mistificação feita à custa dos seus ouvintes; há uma realidade da qual ele consegue convencer-vos.” Paul Stapfer, em seu livro recentemente publicado, Victor Hugo à Guernesey, conta as suas palestras com o grande poeta. Este lhe expunha a sua crença nas vidas sucessivas; julgava ter sido Ésquilo, Juvenal, etc. Forçoso é reconhecer que tais colóquios não primam por excesso de modéstia e carecem um tanto de provas demonstrativas. O filósofo sutil e profundo que foi Amiel escrevia: “Quando penso nas intuições de toda espécie que tive desde a minha adolescência, parece-me que vivi muitas dúzias e até centenas de vidas. Toda a individualidade caracteriza esse mundo idealmente em mim ou, antes, forma-me momentaneamente à sua imagem. Assim é que fui matemático, músico, frade, filho, mãe, etc. Nesses estados de simpatia universal, fui mesmo animal e planta.” Théophile Gautier, Alexandre Dumas, Ponson do Terrail e muitos outros escritores modernos comungavam nessas convicções. Sucedia o mesmo com Walter Scott, segundo o testemunho de Lockart, seu biógrafo.(156) O Conde de Résie, na sua Histoire des Sciences Occultes,(157) diz: “Podemos citar o nosso próprio testemunho, assim como as numerosas surpresas que freqüentes vezes nos causou o aspecto de muitos lugares em diferentes partes do mundo, cuja vista nos trazia logo à memória uma antiga recordação, uma coisa que não nos era desconhecida e que, entretanto, estávamos vendo pela primeira vez.” Gustave Flaubert, em sua Correspondance, escreve: “Tenho certeza de ter sido no Império Romano diretor de alguma trupe de comediantes ambulantes (...) e, ao reler as comédias de Plauto, surgem para mim como que recordações.” Às reminiscências de homens ilustres, em sua maioria, devem-se juntar as de grande número de crianças. Aqui o fenômeno se explica facilmente. A adaptação dos sentidos psíquicos ao organismo material, a começar do nascimento, opera-se morosa e gradualmente; só é completa por volta dos sete anos, e mais tarde ainda em certos indivíduos. Até essa época, o Espírito da criança, flutuando em torno do seu invólucro, vive até certo ponto da vida do espaço; goza de percepções, de visões que, às vezes, impressionam com fugitivos vislumbres o cérebro físico. Assim é que foi possível recolher de certas bocas juvenis alusões a vidas anteriores, descrições de cenas e personagens sem relação alguma com a vida atual desses jovens. Essas visões, essas reminiscências esvaem-se, geralmente, próximo da idade adulta, quando a alma da criança entrou na plena posse dos seus órgãos terrestres. Então, debalde é interrogada a respeito dessas lembranças fugazes; cessou de todo a transmissão das vibrações perispirituais, a consciência profunda emudeceu.
TAG Valor
Título As vidas sucessivas – Provas experimentais – Renovação da memória
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino