V
1. INTRODUÇÃO Muitas referências têm sido feitas - e ainda o serão -, neste livro, ao fenômeno do desdobramento. Creio que é chegado o momento de examinarmos isto mais de perto e no lugar próprio, pois se trata de um fenômeno unicamente anímico. Embora sem o aprofundamento que muitos desejariam, O livro dos espíritos cuida do assunto em seu capítulo VIII ("Da emancipação da alma"), ensinando que o "espírito encarnado aspira constantemente à sua libertação, e tanto mais deseja ver-se livre do seu invólucro, quanto mais grosseiro é este". E que durante o sono relaxam-se os vínculos que o mantêm preso ao corpo uma vez que este não precisa de sua presença, "ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros espíritos ". Mais adiante informam os instrutores que não é necessário o sono profundo para que se desprenda o espírito encarnado. (...) basta que os sentidos entrem em torpor para que o espírito recobre sua liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre quanto mais fraco for o corpo. (Kardec. Allan.1981). O desdobramento é, portanto, fenômeno freqüente e comum a todos os seres encarnados, ainda que nem todos disponham de condições para se lembrarem, na vigília, de regresso ao corpo físico, do que fizeram durante o tempo em que estiveram parcialmente libertados deste. É que, colhidas pelo espírito no ambiente que lhe é próprio, as impressões dificilmente são conservadas porque, no dizer dos espíritos, "não chegaram (ao corpo físico) por intermédio dos órgãos corporais". Ao escrevermos este livro, são muitos os estudos acerca do desdobramennto publicados por toda parte, em vários línguas. Nas pesquisas parapsicológicas, o fenômeno foi catalogado como "OBE" da expressão inglesa "out-of-the-body experiences", ou seja, experiências fora do corpo. O mais recente interesse da parapsicologia - os fenômenos de morte aparente - também está intimamennte relacionado com o desdobramento. Neste caso, rotulado de "NDE", do inglês 'near death experiences', experiências de morte iminente, o espírito se desdobra, não levado pelo sono ou pelo estado de relaxamento muscular, mas pela crise que antecede a morte do corpo físico. Dramáticos relatos de muitos agonizanntes recuperados por processos de ressuscitação ou espontaneamente, mesmo após verificada tecnicamente a morte clínica, têm surpreendido os médicos. Esses depoimentos testemunham atividades conscientes do ser que - segundo os critérios consagrados pelas convicções materialistas predominantes na classe médica - não deveria mais existir, por estar oficialmente morto, sendo considerada impossível a sobrevivência, uma vez que ninguém pode pensar e, portanto, viver sem cérebro físico. Ainda bem que a realidade espiritual ignora 'proibições' e 'impossibilidades' inventadas pela ciência e o espírito continua a existir, a sobreviver e a reencarnar-se, à espera de que a ciência se torne menos presunçosa e mais inteligente. Chegaremos lá um dia ... Na verdade, o espírito encarnado desenvolve prodigiosa atividade durante seus habituais desprendimentos parciais do corpo físico, principalmente, mas não exclusivamente, durante o sono comum. Sempre que pode, ele aproveita esses momentos de liberdade relativa para realizar projetos, promover estudos, pôr-se em contato com pessoas amigas que vivem na carne ou na dimensão espiritual e até resolver importantes problemas pessoais a partir de um contexto no qual sua visão é mais ampla, serena e mais bem-informada. 2. ELABORAÇÃO INCONSCIENTE Se o leitor cético achar que isso é mera especulação, estará completamente enganado, pois há um impressionante volume de depoimentos que, confirmam essa realidade, que tem sido estudada a sério por pesquisadores competentes. Um deles é Brewster Ghiselin, em sua fascinante coletânea intitulada "The criative process", na qual reuniu contribuições de compositores, pensadores, poetas, escritores, cientistas e outros intelectuais do mais elevado gabarito para demonstrar a tese do trabalho inconsciente. Sigmund Freud aconselhava as pessoas a dormirem uma noite ou duas com seus problemas mais difíceis, aguardando uma solução mais inteligente e elaborada que, certamente, emergiria do inconsciente. Estou sabendo, leitor, que isto não prova que o espírito existe, mas você já conhece minha posição - não estamos aqui para provar coisa alguma e, sim, para debater o que poderá ser feito com o conhecimento de que já dispomos sobre o assunto, ainda que rejeitado pela ciência oficial. Curioso é que são muitos os que, mesmo sem admitir a existência do espírito, como unidade autônoma, independente do corpo físico, servem-se do mecanismo em proveito próprio, na convicção de que estão apenas se utilizando do inconsciente - o que é verdadeiro -, que por sua vez somente pode funcionar enquanto vive o corpo - o que é falso. Ghiselin não foi o primeiro a explorar o assunto. Colhemos em Gabriel Delanne (Les apparitions des vivants et des morts), amostras valiosas de trabalho semelhante realizado por outros pesquisadores do passado. Cita o eminente engenheiro francês o livro do dr. Chabaneix, cujo título é uma verdadeira hors d'oeuvre, para um banquete intelectual de curiosidades: Le subconscient chez les savant, les artistes et les ecrivains (O subconsciente nos sábios, artistas e escritores). Menciona ainda Medicine de L'esprit, de Maurice de Fleury, Étude sur la vie inconciente de l'esprit, de Edmond Chalmet, Notices biographiques, de Arago, e Le monde des rêves, de autor não- identificado, citado por Max Simon. Alinhemos, a seguir, alguns desses verdadeiros achados. Michelet tinha por hábito somente deitar-se para dormir após examinar, por algum tempo, documentos relacionados com seu trabalho do dia seguinte. Sabia, por experiência própria, que pela manhã estaria bem-preparado para escrever seu texto, enriquecido "pelos conceitos depositados em sua memóória" e resultantes do trabalho oculto do inconsciente no decorrer da noite. Maudsley menciona um geômetra que, após procurar em vão a solução de um problema complexo, levou praticamente 'um susto' ao ver surgir um dia, diante de sua visão, a figura geométrica pronta com a solução do problema sobre o qual não pensara mais durante dois anos . Coisa semelhante ocorreu ao famoso físico e matemático Henri Poincaré, que descobriu o segredo das equações fucsianas por um processo de elaboração inconsciente. Primeiro examinou todo o material que havia a respeito e tentou as soluções viáveis em termos de matemática de seu tempo, sem conseguir chegar ao resultado que esperava e que sua intuição provavelmente sabia ser possível. Em seguida, abandonou deliberadamente o estudo da questão e dedicou-se a outras tarefas. Um dia, ao colocar o pé no estribo de uma condução, em momento em que não estava pensando no enigma das fucsianas, a solução ocorreu-lhe, simples, completa e acabada, logo que lhe foi possível, desenvolveu os cálculos conforme a indicação inconsciente e chegou à descoberta. Seu depoimento pessoal, nesse sentido, está no livro de Ghiselin. Alfred de Vigny escreveu no seu diário: Tenho na cabeça uma linha reta. Uma vez lançada nessa estrada de ferro uma idéia qualquer, ela segue até o fim, a despeito de mim mesmo e enquanto eu falo e me movimento. Escreveu Arago: Em vez de me obstinar a compreender, ao primeiro contato, as proposições que se me apresentam, admito provisoriamente sua autenticidade, passo a outra questão e sou surpreendido, no dia seguinte, com a perfeita compreensão de, que, na véspera, me parecera envolvido em espessa névoa. Condillac informa que ao tempo em que redigia seus textos didáticos, se fosse forçado a interromper o trabalho já preparado, mas incompleto, para dormir, acontecia -lhe freqüentemente acordar com o trabalho concluído em sua mente. Todos esses exemplos colocam em destaque o trabalho da alma enquanto o corpo repousa, mas como os filósofos positivistas e os fisiologistas entendem que a atividade intelectual resulta apenas das funções cerebrais e que o sono é essencialmente o repouso dos centros nervosos, ficariam logicamente obrigados a concluir que estão perante um pensamento inconsciente - o que é, de fato um disparate. De vez que o pensamento só existe a partir do momento em que se torna conhecido pelo eu, pelo ser pensante. Fora da individualidade psíquica não pode haver senão fenômenos fisiológicos, físico-químicos, completamente desprovidos de consciência. Da mesma forma que um relógio não produz a idéia das horas indicadas pelos ponteiros, o cérebro é apenas o suporte físico do espírito. (Delanne. Gabriel, 1902). Pouca gente poderia tê-lo dito melhor. Essa capacidade quase miraculosa da mente de produzir versos geniais ou decifrar problemas científicos, matemáticos ou pessoais com soluções com as quais o estado consciente de vigília não conseguiu atinar, está profusamente documentada no testemunho das próprias pessoas, como os de Reli: Poincaré, Mozart, Nietszche e inúmeros outros, Sabe-se que Niels Bohr teve a súbita visão íntima do modelo atômico que andava tentando conceber, sem êxito, há muito tempo. Não há, pois, dúvida de que o mecanismo inconsciente funciona em regime de autonomia, articulado, porém, com a consciência. Uma vez encontrada a resposta para a questão que a consciência lhe propôs, o inconsciente 'despacha' a informação. Usualmente o problema é resolvido de maneira engenhosa, inteligente e inesperada, pelo processo mais simples possível. O que demonstra não apenas a existência de uma atividade subliminar inteligente, mas uma insuspeitada consciência II que, para fins didáticos, costumamos chamar de inconsciente para não confundir com a subconsciência, aliás bem mais modesta e limitada.
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