Trata-se de lutar contra um adversário. Ora, quando dois homens lutam corpo a corpo, é o de músculos mais fortes que vencerá o outro. Com um Espírito deve-se lutar, não corpo a corpo, mas de Espírito a Espírito; e é ainda o mais forte que vencerá. Aqui a força está na autoridade que se pode exercer sobre o Espírito e tal autoridade está subordinada à superioridade moral. Esta é como o Sol: dissipa o nevoeiro pela força de seus raios. Esforçar-se por ser bom; tornar-se melhor se já se é bom; purificar-se de suas imperfeições; numa palavra, elevar-se moralmente o mais possível, tal é o meio de adquirir o poder de dominar os Espíritos inferiores, para os afastar. Do contrário zombarão de vossas ordens. (O Livro dos Médiuns, nos 252 e 279).
Todavia – indagarão – por que os Espíritos protetores não lhes ordenam que se retirem? Certamente o podem e o fazem algumas vezes; mas, permitindo a luta, também deixam o mérito da vitória. Se deixam se debatendo pessoas merecedoras de certa consideração, é para provar sua perseverança e fazer que adquiram mais força no bem; para elas é uma espécie de ginástica moral.
Eis a resposta que demos a um coronel do estado-maior austríaco, na Hungria, o Sr. P..., que nos consultava sobre uma afecção atribuída aos Espíritos maus, desculpando-se por nos intitular de amigo, embora só de nome nos conhecesse: “O Espiritismo é o laço fraterno por excelência e tendes razão de pensar que os que partilham essa crença devem, mesmo sem se conhecerem, tratar-se como amigos. Agradeço-vos por terdes tido de mim uma boa opinião e me dardes esse título.
“Sinto-me contente por encontrar em vós um adepto sincero e devotado dessa consoladora doutrina. Mas, por isso mesmo que é consoladora, deve dar força moral e resignação para suportar as provas da vida que, no mais das vezes, são expiações.
Disto a Revista Espírita vos fornece numerosos exemplos.
“No que respeita à moléstia que sofreis, não vejo prova evidente da influência de Espíritos maus, que vos obsidiariam. No entanto, admitamo-la como hipótese. Só uma força moral poderia opor-se a outra força moral e esta não pode vir senão de vós.
Contra um Espírito é necessário lutar de Espírito a Espírito, e é o mais forte que vencerá. Em casos semelhantes é preciso esforçar-se para adquirir a maior soma possível de superioridade pela vontade, pela energia e pelas qualidades morais, para ter o direito de lhe dizer: Vade retro! Assim, pois, se estiverdes neste caso, não será com o sabre de coronel que o vencereis, mas com a espada do anjo, isto é, a virtude e a prece. A espécie de pavor e angústia que experimentais nesses momentos é um sinal de fraqueza, que o Espírito aproveita. Dominai o medo e com a vontade triunfareis; dominai-o resolutamente, como o fazeis perante o inimigo e crede-me vosso mui dedicado e afeiçoado, A. K.”
É possível que certas pessoas preferissem uma receita mais fácil para expulsar os Espíritos maus: algumas palavras a dizer, ou sinais a fazer, por exemplo, o que seria mais cômodo do que corrigir os próprios defeitos. Lamentamos bastante, mas não conhecemos processo mais eficaz para vencer um inimigo do que ser mais forte que ele. Quando estamos doentes, temos de nos resignar a tomar remédios, por mais amargos que sejam. Mas, também, quando tivemos a coragem de tomá-los, como nos sentimos bem e ficamos fortes! Devemos, pois, persuadir-nos de que, para alcançar tal objetivo, não há palavras sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem sinais materiais quaisquer. Os Espíritos maus se riem e muitas vezes se deleitam em indicar alguns, cuidando sempre de dizer que são infalíveis, para melhor captar a confiança daqueles de que querem abusar, porque estes, então, confiantes na virtude do processo, se entregam sem temor.
Antes de esperar dominar o Espírito mau, é preciso dominar-se a si mesmo. De todos os meios para adquirir a força de o conseguir, o mais eficaz é a vontade, secundada pela prece, entendida a prece de coração e não de palavras, nas quais a boca participa mais que o pensamento. É necessário pedir ao seu anjo-da-guarda e aos Espíritos bons que o assistam na luta. Mas não basta lhes pedir que expulsem o Espírito mau; é preciso lembrar-se da máxima: Ajuda-te, e o céu te ajudará e, sobretudo, pedir-lhes a força que nos falta para vencer nossas más inclinações.
Para nós tais inclinações são piores que os Espíritos maus, pois são elas que os atraem, como a corrupção atrai as aves de rapina.
Orando também pelo Espírito obsessor estamos lhe retribuindo o mal com o bem e nos mostrando melhor que ele, o que já é uma superioridade. Com perseverança, na maioria dos casos acabamos por conduzi-lo a melhores sentimentos e, de perseguidor que era, o transformamos num ser reconhecido. Em resumo, a prece fervorosa e os esforços sérios por melhorar-se são os únicos meios de afastar os Espíritos maus, que reconhecem como senhores aqueles que praticam o bem, ao passo que as fórmulas os fazem rir.
A cólera e a impaciência os excitam. É preciso cansá-los, mostrando mais paciência que eles.
Acontece, porém, que em alguns casos a subjugação chega a ponto de paralisar a vontade do obsidiado, não se lhe podendo esperar nenhum concurso sério. É principalmente então que a intervenção de um terceiro se torna necessária, seja pela prece, seja pela ação magnética. Mas o poder dessa intervenção também depende do ascendente moral que o interventor possa ter sobre os Espíritos, porquanto, se não valerem mais, sua ação será estéril. Neste caso a ação magnética terá por efeito penetrar o fluido do obsidiado por um fluido melhor e liberar o fluido do Espírito mau. Ao operar, deve o magnetizador ter o duplo objetivo de opor uma força moral a outra força moral e produzir sobre o paciente uma espécie de reação química, para nos servirmos de uma comparação material, expulsando um fluido por outro fluido.
Por aí, não só opera um desprendimento salutar, mas dá força aos órgãos enfraquecidos por uma longa e por vezes vigorosa opressão.
Aliás, compreende-se que o poder da ação fluídica não só está na razão da energia da vontade, mas, sobretudo, da qualidade do fluido introduzido e, conforme dissemos, tal qualidade depende da instrução e das qualidades morais do magnetizador. Daí se segue que um magnetizador comum, que agisse maquinalmente para magnetizar pura e simplesmente, produziria pouco ou nenhum efeito. É absolutamente necessário um magnetizador espírita, que age com conhecimento de causa, com a intenção de produzir, não o sonambulismo ou uma cura orgânica, mas os efeitos que acabamos de descrever. Além disso, é evidente que uma ação magnética dirigida nesse sentido não deixa de ser útil nos casos de obsessão ordinária, porque, então, se o magnetizador for secundado pela vontade do obsidiado, em vez de um só o Espírito será combatido por dois adversários.
É preciso dizer, também, que muitas vezes respon-sabilizamos os Espíritos estranhos por malefícios de que não são responsáveis. Certos estados mórbidos e certas aberrações, atribuídos a uma causa oculta, em geral são devidos exclusivamente ao Espírito do indivíduo. As contrariedades que ordinariamente concentramos em nós mesmos, sobretudo as decepções amorosas, têm levado ao cometimento de muitos atos excêntricos, atribuídos por engano à obsessão. Muitas vezes a criatura é o seu próprio obsessor.
Acrescentemos, enfim, que certas obsessões tenazes, principalmente de pessoas de mérito, por vezes fazem parte das provas a que se acham submetidas. “Por vezes, acontece mesmo que a obsessão, quando simples, seja uma tarefa imposta ao obsidiado, que deve trabalhar pela melhoria do obsessor, como um pai por um filho vicioso.”
Remetemos o leitor, para mais detalhes, a O Livro dos Médiuns.
Resta-nos falar da obsessão coletiva ou epidêmica e, em particular, da de Morzine; mas isto exige considerações de certa extensão para mostrar, pelos fatos, sua similitude com as obsessões individuais. E a prova disto nós a encontramos em nossas próprias observações e nas que são consignadas nos relatórios dos médicos.
Além disso, resta-nos examinar o efeito dos meios empregados e, em seguida, a ação do exorcismo e as condições nas quais este pode ser eficaz ou nulo. A amplitude desta segunda parte obriga-nos a fazê-la objeto de um artigo especial, a ser publicado no próximo número.