Assim, facilmente nos damos conta da natureza das impressões que recebemos, de acordo com o meio onde nos encontramos. Se uma assembléia for composta de pessoas animadas de maus sentimentos, o ar ambiente será saturado com o fluido impregnado de seus sentimentos. Daí, para as almas boas, um mal-estar moral análogo ao mal-estar físico causado pelas emanações mefíticas: a alma fica asfixiada. Se, ao contrário, as pessoas tiverem intenções puras, encontramo-nos em sua atmosfera como se estivéssemos num ar vivificante e salubre.
Naturalmente o efeito será o mesmo num ambiente repleto de Espíritos, conforme sejam bons ou maus.
Isto bem compreendido, chegamos sem dificuldade à ação material dos Espíritos errantes sobre os encarnados e, daí, à explicação da mediunidade.
Quando um Espírito quer agir sobre uma pessoa, dela se aproxima e a envolve, por assim dizer, com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se interpenetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, etc. Tais são os médiuns. Se o Espírito for bom, sua ação será suave, benéfica, e só fará boas coisas; caso seja mau, fará maldades; se for perverso e mau, ele o constrange como se o imobilizasse numa camisa-de-força, até paralisar a vontade e a própria razão, que abafa com seus fluidos, como se apaga o fogo sob um lençol d'água. Faz com que pense, fale e aja por ele, induzindo-o contra a vontade a praticar atos extravagantes ou ridículos; numa palavra, magnetiza-o e o faz entrar numa espécie de catalepsia moral, de modo que o indivíduo se torna um instrumento cego de sua vontade. Tal é a causa da obsessão, da fascinação e da subjugação, que se apresentam em diversos graus de intensidade. O paroxismo da subjugação é vulgarmente chamado possessão. É de notar-se que, neste estado, muitas vezes o indivíduo tem consciência do ridículo daquilo que faz, mas é constrangido a fazê-lo, como se um homem mais vigoroso que ele fizesse com que movesse, contra a vontade, os braços, as pernas, a língua. Eis um curioso exemplo.
Numa pequena reunião em Bordeaux, em meio a uma evocação, o médium, um jovem de caráter suave e de perfeita urbanidade, de repente começa a bater na mesa, levanta-se com olhar ameaçador, mostrando os punhos aos assistentes, proferindo as mais grosseiras injúrias e querendo atirar-lhes um tinteiro. A cena, tanto mais chocante quanto inesperada, durou cerca de dez minutos, depois do que o moço retomou sua calma habitual, desculpou-se do que se havia passado, dizendo saber perfeitamente que fizera e dissera coisas inconvenientes, mas que não pudera impedir. Tomando conhecimento do fato, pedimos explicação numa sessão da Sociedade de Paris, sendo-nos respondido que o Espírito que o havia provocado era mais leviano do que mau e que simplesmente quisera divertir-se com o pavor dos assistentes. O fato não mais se repetiu e o médium continuou a receber excelentes comunicações, o que vem provar a veracidade da explicação. É bom dizer o que provavelmente tenha excitado a verve daquele Espírito farsista. Um antigo maestro do teatro de Bordeaux, o Sr.
Beck, tinha experimentado, durante vários anos antes de morrer, um fenômeno singular. Todas as noites, ao sair do teatro, parecia-lhe que um homem lhe saltava às costas, escarranchava-se nas suas espáduas e se mantinha agarrado até que chegasse à porta de sua casa. Aí o suposto indivíduo descia e o Sr. Beck se via livre. Nessa reunião quiseram evocar o Sr. Beck e pedir-lhe uma explicação. Foi então que o Espírito intrujão julgou por bem substituí-lo, fazendo o médium representar uma cena diabólica, certamente por nele ter encontrado as necessárias disposições fluídicas para o secundar.
O que não passou de acidental naquela circunstância, por vezes toma um caráter permanente, quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se torna uma verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de verdadeira loucura. Dizemos aparência, porquanto a loucura propriamente dita sempre resulta de uma alteração dos órgãos cerebrais, ao passo que, neste caso, os órgãos estão de tal modo intactos quanto os do rapaz de quem acabamos de falar. Não há, pois, loucura real, mas aparente, contra a qual os recursos da terapêutica são impotentes, como o prova a experiência. Ainda mais: eles podem produzir o que não existe. As casas de alienados contam muitos doentes desse gênero, aos quais o contato com outros alienados só poderá ser muito prejudicial, porque este estado denota sempre uma certa fraqueza moral. Ao lado de todas as variedades de loucura patológica, convém, pois, acrescentar a loucura obsessiva, que requer meios especiais. Mas como poderá um médico materialista estabelecer essa diferença, ou mesmo admiti-la?
Bravo! – irão exclamar os nossos adversários. Não se pode demonstrar melhor os perigos do Espiritismo e temos muita razão de proibi-lo.
Um instante! O que dissemos prova precisamente a sua utilidade.
Credes que os Espíritos maus, que pululam no meio da Humanidade, esperaram ser chamados para exercerem sua influência perniciosa? Desde que os Espíritos existiram em todos os tempos, em todos os tempos representaram o mesmo papel, porque esse papel está na Natureza; e a prova disso está no grande número de pessoas obsidiadas, ou possessas, se quiserdes, antes que se pensasse nos Espíritos ou, atualmente, sem que jamais se tivesse ouvido falar de Espiritismo e de médiuns. A ação dos Espíritos, bons ou maus, é, pois, espontânea; a dos maus produz uma porção de perturbações na economia moral e mesmo física que, por ignorância da verdadeira causa, são atribuídas a causas erradas. Os Espíritos maus são inimigos invisíveis tanto mais perigosos quanto não se suspeitava de sua ação. Pondo-os a descoberto, o Espiritismo vem revelar uma nova causa de certos males da Humanidade. Conhecida a causa, não se buscará mais combater o mal por meios que, doravante, sabemos inúteis; procurar-se-ão outros mais eficazes. Ora, o que levou à descoberta desta causa? A mediunidade. Foi pela mediunidade que esses inimigos ocultos traíram sua presença; ela fez para ela o que fez o microscópio para os infinitamente pequenos: revelou todo um mundo. O Espiritismo não atraiu os Espíritos maus; ele os revelou e forneceu os meios de lhes paralisar a ação e, conseqüentemente, de os afastar. Não trouxe, pois, o mal, pois este sempre existiu; ao contrário, trouxe o remédio ao mal, mostrando-lhe as causas. Uma vez reconhecida a ação do mundo invisível, ter-se-á a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos e a Ciência, enriquecida com esta nova lei, verá desdobrarem-se novos horizontes à sua frente. Quando lá chegará? Quando não mais professar o materialismo, pois o materialismo detém o seu avanço e lhe opõe uma barreira intransponível.
Antes de falar do remédio, expliquemos um fato que confunde muitos espíritas, sobretudo nos casos de obsessão simples, isto é, naqueles muito freqüentes, em que o médium não se pode desembaraçar de um Espírito mau, que por ele se comunica obstinadamente, pela escrita ou pela audição; aquele, não menos freqüente, em que, por meio de uma boa comunicação, vem um Espírito imiscuir-se para dizer coisas más. Pergunta-se, então, se os Espíritos maus são mais poderosos que os bons.
Reportemo-nos ao que dissemos inicialmente, quanto à maneira por que age o Espírito e imaginemos um médium envolvido e penetrado pelo fluido perispiritual de um Espírito mau.
Para que o do bom possa atuar sobre o médium, é necessário que penetre esse envoltório e já se sabe que dificilmente a luz penetra um nevoeiro espesso. Conforme o grau da obsessão, o nevoeiro será permanente, tenaz ou intermitente e, por conseguinte, mais ou menos fácil de dissipar.
O Sr. Superchi, nosso correspondente em Parma, enviou-nos dois desenhos feitos por um médium vidente, representando perfeitamente a situação. Num deles vê-se a mão do médium envolta numa nuvem escura – imagem do fluido perispiritual dos Espíritos maus – atravessada por um raio luminoso que lhe clareava a mão; é o bom fluido que a dirige e se opõe à ação do mau. No outro, a mão está na sombra; a luz está em volta do nevoeiro, que não pode penetrar. Aquilo que o desenho restringe à mão do médium deve ser entendido como envolvendo todo o seu corpo.
Resta sempre a questão de saber se o Espírito bom é menos poderoso que o mau. Não é o Espírito bom que é mais fraco e, sim, o médium, que não é bastante forte para livrar-se do manto que sobre si foi lançado e se desembaraçar da opressão dos braços que o enlaçam, nos quais, é bom que se diga, por vezes se compraz. Compreende-se que, neste caso, o Espírito bom não possa triunfar, pois o outro é preferido. Admitamos, agora, o desejo de desvencilhar-se desse envoltório fluídico, de que o seu se acha penetrado, como uma roupa penetrada de umidade: não bastará o desejo e nem sempre a vontade é suficiente.