O Espiritismo em Rochefort – Episódio da Viagem do Sr. Allan Kardec
EPISÓDIO DE VIAGEM DO SR. ALLAN KARDEC Rochefort não é ainda um foco de Espiritismo, embora tenha alguns adeptos fervorosos e numerosos simpatizantes das novas idéias. Mas lá, menos que alhures, há coragem de opinião e muitos crentes se mantêm à margem. No dia em que ousarem mostrar-se ficaremos surpreendidos ao vê-los tão numerosos. Como apenas íamos ver algumas pessoas isoladas, esperávamos ali demorar poucas horas. Mas um passageiro, que se achava na mesma viatura, havendo nos reconhecido por um retrato que vira em Marennes, preveniu os seus amigos da nossa chegada. Então recebemos com insistência um amável convite, da parte de vários espíritas, que nos desejavam conhecer e receber instruções. Adiada nossa partida para o dia seguinte, tivemos a satisfação de passar a noite numa reunião de espíritas sinceros e dedicados. Durante a reunião recebemos outro convite, em termos não menos obsequiosos, em nome de um alto funcionário e de várias notabilidades da cidade, manifestando o desejo de uma reunião na noite seguinte, o que ocasionou novo adiamento de nossa partida. Não teríamos mencionado tais detalhes se não fossem necessários às explicações que julgamos um dever dar a seguir, a propósito de um jornal da localidade. Nesta última reunião fizemos, ao início da sessão, a seguinte alocução: “Senhores, “Embora não tivesse a intenção de passar senão algumas horas em Rochefort, o desejo que me manifestastes para esta reunião e, sobretudo, a maneira por que o convite foi feito, era muito lisonjeiro para que eu não o aceitasse. Ignoro se todas as pessoas que me honram em assistir a esta reunião são iniciadas na ciência espírita; suponho que muitos ainda são noviços na matéria; poder-se-ia até mesmo encontrar alguns que são hostis. Ora, em conseqüência da falsa idéia que fazem do Espiritismo aqueles que não o conhecem, ou só o conhecem imperfeitamente, poderia o resultado desta sessão causar algumas decepções aos que não encontrassem aquilo que esperavam. Devo, pois, explicar claramente a sua finalidade, para que não haja equívocos. “Antes de tudo, devo informar quanto ao objetivo que me proponho nessas excursões. Vou unicamente visitar centros espíritas e lhes dar as instruções de que possam necessitar. Enganar-se-ia quem pensasse que vou pregar a doutrina aos incrédulos. O Espiritismo é toda uma ciência que reclama estudos sérios, como as outras ciências, e requer numerosas observações. Para expô-la minuciosamente seria necessário dar um curso regular, e um curso de Espiritismo não pode ser dado em uma ou duas aulas, como não o poderia um curso de Física ou de Astronomia. Para os que lhes não conhecem as primeiras noções, sou obrigado a enviá-los à fonte, ou seja, ao estudo das obras onde se acham todos os ensinamentos necessários e a resposta à maioria das perguntas que poderiam fazer e que, em sua maior parte, recaem sobre os princípios mais elementares. Eis por que, em minhas visitas, só me dirijo aos que já sabem, aos que precisam de ensino complementar, e não de á-bê-cê. Jamais vou dar o que se chama sessões, nem convocar o público para assistir a experiências ou demonstrações e, menos ainda, fazer exibição de Espíritos. Os que esperassem ver aqui coisa semelhante estariam completamente equivocados e devo apressar-me em lhes tirar a ilusão. “A reunião desta noite é, de certo modo, excepcional e fora de meus hábitos. Pelos motivos que acabo de expor, não posso ter a pretensão de convencer os que rejeitassem as bases mesmas dos meus princípios. Só uma coisa desejo: é que, em falta de convicção, preservem a idéia de que o Espiritismo é uma coisa séria e digna de atenção, pois atrai o cuidado dos homens mais esclarecidos de todos os países. Que não o aceitem cegamente e sem exame, é compreensível; mas seria presunção contestar uma opinião que conta seus mais numerosos partidários na fina flor da sociedade. As pessoas sensatas dizem: Há tantas coisas novas que nos vêm surpreender e que, um século atrás, pareceriam absurdas; todos os dias presenciamos a descoberta de novas leis, a revelação de novas forças da Natureza que seria ilógico admitir que a Natureza houvesse dito a última palavra. Assim, antes de negar, é prudente estudar e observar. Para julgar uma coisa é preciso conhecê-la. A crítica só é permitida ao que fala do que sabe. Que diriam de um homem que, não sabendo música, criticasse uma ópera? daquele que, ignorando as primeiras noções de literatura, criticasse uma obra literária? Pois bem! dá-se o mesmo com a maioria dos detratores do Espiritismo: julgam com dados incom-pletos, muitas vezes, até, por ouvir dizer. Assim, todas as suas objeções denotam ignorância absoluta da coisa. Só lhes poderíamos responder: estudai antes de julgar. “Como tive a honra de vos dizer, seria materialmente impossível, senhores, expor minuciosamente todos os princípios da ciência espírita. Quanto a satisfazer à curiosidade de quem quer que seja, há entre vós quem me conheça bastante para saber que jamais representei esse papel. Mas, na impossibilidade de vos expor as coisas em detalhes, talvez seja útil vos dar a conhecer o fim e as tendências. É o que me proponho fazer. Depois julgareis se o objetivo é sério e se é permitido zombar. Peço, pois, permissão para ler algumas passagens do discurso que pronunciei nas grandes reuniões de Lyon e Bordeaux. Para os que não têm do Espiritismo senão uma idéia incompleta, sem dúvida a questão principal é hipotética, pois me dirijo a adeptos já instruídos; todavia, até que as circunstâncias vos tenham transformado a hipótese em verdade, podeis ver as suas conseqüências, assim como a natureza das instruções que dou, e por aí julgar o caráter das reuniões a que assisto. “Posso, contudo, dizer do Espiritismo que nele nada é hipotético: de todos os princípios formulados em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns, nenhum é produto de um sistema ou de uma opinião pessoal. Todos, sem exceção, são fruto da experiência e da observação; eu não poderia reivindicar um só como produto de minha iniciativa. Aquelas obras contêm o que aprendi, e não o que criei. Ora, o que aprendi, outros podem aprender, mas, como eu, devem trabalhar. Apenas lhes poupei o esforço dos primeiros trabalhos e das primeiras pesquisas.” Depois desse preâmbulo lemos alguns trechos do discurso pronunciado em Lyon e Bordeaux, dando, em seguida, algumas explicações, forçosamente muito sumárias, sobre os princípios fundamentais do Espiritismo, entre outras sobre a natureza dos Espíritos e os meios por que se comunicam, destacando, sobretudo, a influência moral que resulta das manifestações pela certeza da vida futura, e os efeitos desta certeza sobre a conduta na vida presente. Pelo preâmbulo era impossível estabelecer a situação de maneira mais clara e melhor precisar o objetivo a que nos propúnhamos, a fim de evitar qualquer equívoco. Tivemos de tomar tal precaução, pois sabíamos que a assembléia estava longe de ser homogênea e inteiramente simpática. Isto naturalmente não satisfez aos que aguardavam uma sessão do gênero das do Sr. Home. De forma polida, um dos assistentes chegou mesmo a declarar que não era exatamente o que ele esperava, no que acreditamos sem esforço, porquanto, em vez de exibir coisas curiosas, vínhamos falar de moral. Ele pediu com tanta insistência que déssemos provas da existência dos Espíritos que fomos forçados a lhe dizer que não os tínhamos no bolso para lhos mostrar. Creio que por pouco nos teria dito: “Procurai bem!” Sob o pseudônimo de Tony, um jornalista que assistia à reunião julgou por bem noticiar o ocorrido no Spectateur, jornal hebdomadário de teatros, número de 12 de outubro. Começa assim: Atraído pelo anúncio de um sarau espírita, apressei-me em ir ouvir um dos hierofantes mais autorizados desta ciência... assim classificam os adeptos o Espiritismo. Repleto, o auditório esperava com certa ansiedade a exposição meticulosa das bases desta ciência... pois há ciência. O Sr. Allan Kardec, autor de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns iria iniciar-nos em terríveis segredos! Movido por um sentimento de curiosidade muito compreensível e que nada tinha de hostil, esperávamos sair da sessão com uma certa convicção se o professor, homem de habilidade incontestável, se tivesse dado ao trabalho de expor sua doutrina. O Sr. Allan Kardec pensou de maneira diferente, o que é lamentável. Não lhe pediam que evocasse Espíritos, mas, pelo menos, que desse explicações claras ou mesmo elementares para facilitar a experimentação dos profanos. Este começo caracteriza perfeitamente alguns ouvintes, que se julgavam espectadores. A palavra atraído diz mais que o resto. O que queriam eram explicações claras para facilitar a experimentação dos profanos. Em outras palavras, uma receita para que cada um, ao chegar em casa, pudesse divertir-se a evocar Espíritos. Segue-se uma tirada sobre a base da doutrina: a caridade e outras máximas que, diz ele, vêm diretamente do Cristianismo e nada ensinam de novo. Se um dia aquele senhor se der ao trabalho de ler, saberá que o Espiritismo jamais pretendeu trazer aos homens outra moral senão a do Cristo e que não se dirige aos que a praticam em sua pureza. Mas como há muitos que não crêem em Deus, nem na alma, nem nos ensinamentos do Cristo, ou, pelo menos, duvidam, e cuja moral se resume na expressão cada um por si, o Espiritismo, ao provar a existência da alma e da vida futura, vem dar uma sanção prática, uma necessidade a essa moral.
TAG Valor
Mês Dezembro
Ano 1862