A lei circular preside a todos os movimentos do mundo; rege as evoluções da Natureza, as da história da Humanidade. Cada ser gravita em um círculo, cada vida descreve um circuito, toda a história humana se divide em ciclos.
Os dias, as horas, o ano e os séculos rolam na órbita do Espaço e do Tempo, e renascem, porque seu fim, se há um fim, é precisamente o de voltar ao princípio. Os ventos, as nuvens, as águas, as flores e a luz seguem o mesmo destino. Os ventos voltam de novo, pelas mesmas órbitas, para as cavernas misteriosas donde procedem.
O vapor sobe para as alturas; forma nuvens, verdadeiros oceanos suspensos sobre nossas frontes. As nuvens que planam no espaço, mares imensos e móveis, fundem-se em chuvas e tornam a ser os rios e os regatos que já foram. Assim, o Ródano, o Reno, o Danúbio e o Volga já têm rolado acima de nossas cabeças antes de correr a nossos pés. É esta a lei, a lei da Natureza e da Humanidade.
Todo ser já existiu; renasce e sobe, evolve assim em uma espiral, cujas órbitas vão aumentando cada vez mais, e é por isso que a História vai tomando um caráter universal: é o corso e ricorso de que fala o filósofo italiano, Vico de Ferrara.
Uma vez colocados esses princípios, consagremos esta meditação a estudar as idades da vida humana: a mocidade, a idade madura, a velhice, à luz dessa grande lei, sendo a morte sua coroação e apoteose. Desses estudos surgirá o grande princípio espiritualista da reencarnação, o único que explica o mistério do ser e do seu destino.
É preciso renascer – é esta a lei comum do destino humano, que também evolve em um círculo do qual Deus é o centro.
“Ninguém – dizia Jesus a Nicodemos – verá o reino de Deus – isto é, não compreenderá a lei de seu destino – se não renascer da água e do espírito.”
A reencarnação está claramente expressa nessas palavras, e Jesus repreende a Nicodemos “ser mestre em Israel e desconhecer essas coisas”.
Quantos, entre nossos mestres contemporâneos, são passíveis da mesma censura! Há muitos que se contentam com a noção superficial da vida, e nunca se sentem tentados a olhar para o fundo! É tão fácil negar as coisas para fugir ao dever e ao trabalho de estudar e compreender!
O positivista jamais encara o problema da origem, nem o dos fins; contenta-se com o momento presente e o explora da melhor maneira. Muitos homens, mesmo inteligentes, agem igual àquele. Por seu lado, o católico limita-se a crer no que manda a igreja, que faz da vida um mistério do começo ao fim, pondo-lhe alguns milagres no meio; e quando estas duas palavras são pronunciadas: milagre, mistério! Todos se inclinam, todos se calam, todos crêem. Por outra parte, os universitários só acreditaram, durante muito tempo, nos dados da experimentação. Para eles, tudo que não figurasse em seus programas era destituído de valor. Nunca os ídolos de Bacon tiveram tantos adoradores. A ciência oficial, também, há meio século vem apenas contribuindo com diminuto progresso para o pensamento moderno.
Entretanto, o médico dos nossos dias, tão ligado, até então, aos sistemas materialistas da Escola, começa a sacudir o jugo; e é das fileiras da Medicina atual que saem os doutores mais autorizados e mais competentes do Espiritualismo.
A próxima geração será mais feliz e ainda melhor dotada. Cresce uma mocidade, que não surge de nenhum pedagogismo e só se instrui na grande escola da Natureza e da consciência íntima. Esta será verdadeiramente a mocidade livre, isto é, independente de qualquer educação fictícia, de qualquer método empírico e convencional. Ela ouve as verdadeiras vozes; a voz interior, a voz subliminal do ser, a voz que explica o homem ao homem e resolve o teorema do destino com a clareza que lhe é possível.
É para essa sociedade de amanhã que escrevo estas páginas; dedico-as aos iniciados e aos avisados, àqueles que, segundo a palavra do Mestre, têm olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Voltemos, pois, à lei circulatória da vida e do destino, isto é, à doutrina da reencarnação.
Resumiremos ligeiramente a exposição científica, porque nosso fim não é fazer trabalho dogmático, senão apenas nos entregarmos às efusões platônicas sobre a vida, suas fases, sobre o destino e sobre a morte, que a remata aparentemente, para lhe permitir retome o seu novo curso.
O nascimento – A união da Alma e do corpo começa com a concepção e só fica completa na ocasião do nascimento. É o invólucro fluídico que liga o Espírito ao gérmen; essa união se vai apertando cada vez mais, até tornar-se completa, e isto se dá quando a criança vê a luz do dia terrestre. No intervalo da concepção ao nascimento, as faculdades da Alma vão, pouco a pouco, sendo aniquiladas pelo poder sempre crescente da força vital recebida dos geradores, que diminui o movimento vibratório do perispírito, até o momento em que o Espírito na criança fica inteiramente inconsciente. Essa diminuição vibratória do movimento fluídico produz a perda da lembrança das vidas anteriores, de que breve trataremos.
O Espírito na criança dormita em seu invólucro material e, à medida que se aproxima o nascimento, suas idéias se apagam e, assim, o conhecimento do passado, de que não tem mais consciência quando abre os olhos à luz do dia. Essa consciência só voltará quando, pela desmaterialização final ou pelas influências profundas da exteriorização, na hipnose, a Alma retomar seu movimento vibratório e encontrar seu passado e o mundo adormecido de suas recordações. Eis a verdadeira gênese da vida humana.
As aquisições do passado são latentes em cada Alma: as faculdades não se destroem; têm raízes no inconsciente e sua aparência depende do progresso anteriormente capitalizado, dos conhecimentos, das impressões, das imagens, do saber e da experiência. É o que constitui o “caráter” de cada indivíduo vivo e lhe dá as aptidões originais e proporcionais a seu grau de evolução.
A criança adquire de seus pais apenas a força vital, à qual é preciso ajuntar certos elementos hereditários. Por ocasião da encarnação, o perispírito se une, molécula por molécula, à matéria do gérmen. Nesse gérmen, que deve mais tarde constituir o indivíduo, reside uma força inicial, que resulta da soma dos elementos de vida do pai e da mãe, no momento da geração. Esse gérmen contém uma energia potencial maior ou menor, que, transformando-se em energia ativa, durante o período total da vida, determina o grau de longevidade do ser.
É, pois, sob a influência dessa força vital, emanada dos geradores, que, por sua vez, a recebem dos antepassados, que o perispírito desenvolve suas propriedades funcionais. Assim, o duplo fluídico reproduz, sob a forma de movimentos, o traço indelével de todos os estados da Alma, desde seu primeiro nascimento; por outra parte, o gérmen material recebe a impressão de todos os estados sucessivos do perispírito: há aí um paralelismo vital absolutamente lógico e harmonioso. Torna-se assim o perispírito o regulador e o apoio da energia vital modificada pela hereditariedade. É por aí que se forma o tipo individual de cada um. Ele é o “mediador plástico” do filósofo escocês Wordsworth, a tessitura fluídica permanente, através da qual passa a torrente da matéria fluente que destrói e reconstrói incessantemente o organismo vivo. É a armadura invisível que sustém interiormente a estátua humana.
O perispírito é o princípio de identidade física e moral que mantém indefectível, no meio das vicissitudes do ser móvel e mutável, o princípio do eu consciente. A memória, que nos dá a certeza íntima de nossa identidade pessoal, é a irradiação reflexa desse perispírito.
Tal é a origem de nossa vida.
Em realidade, somos unicamente filhos de nós próprios. Os fatos aí estão para confirmar tal asserção. Os filósofos do século XVIII, com seu sistema da alma, comparada a uma tábua rasa, sobre a qual nada ainda existe escrito, estão, pois, enganados. Os doutores do generacionismo estariam mais perto da verdade; exageraram, entretanto, o alcance de sua doutrina, e assim suas conclusões.
Cada encarnação perispiritual introduz, sem dúvida, modalidades novas na alma da criança, que reedita sua vida; mas, encontra o terreno já cultivado para isso. Platão tinha razão quando dizia: – “Aprender é recordar-se”.
Assim se explicam os fenômenos de cultura e a fisiologia dos grandes gênios de que fala a História: a ciência dominante de Pico de la Mirandola; a intuição de Pascal, reconstituindo, aos treze anos de idade, os teoremas de Euclides; Mozart, compondo, com a idade de doze anos, uma de suas obras mais célebres.
Pode suceder, entretanto, que as leis de hereditariedade embaracem a manifestação do gênio, porque o Espírito molda o seu corpo, mas só se pode servir dos elementos postos à sua disposição por essa hereditariedade.
O que acabamos de dizer basta, por enquanto, para justificar cientificamente a doutrina luminosa das vidas sucessivas.
Responderemos, em poucas palavras, à objeção dos que não cessam de redizer que, se nossas vidas fossem múltiplas, delas conservaríamos, pelo menos, uma vaga lembrança.
Já vimos como – e por que – se perde, na ocasião do nascimento, a memória do passado. Esse eclipse parcial e momentâneo das existências anteriores é absolutamente necessário para conservarmos intacta, aqui, em nosso mundo, a liberdade. Se delas nos recordássemos com muita facilidade, haveria confusão na ordem lógica e fatal do destino; e o Mestre disse em seu Evangelho: “Infeliz daquele que, tendo posto a mão na charrua, olhar para trás.”.
Traçar um sulco firme e seguro exige olhar para diante e fixar unicamente o futuro.