Como se pode inferir, ela concentra, com enorme esforço de vontade, uma considerável carga de energia sobre o objeto a ser movimentado, dando até a impressão de que mão invisível produz o fenômeno.
Experiências com outros sensitivos especializados em fenômenos de efeito físico puderam documentar a formação de uma espécie de membro ou alavanca ectoplasmática com a qual os objetos são movimentados. É o que foi observado, por exemplo, com Eusapia Paladino.
No caso Kulagina, segundo informaram Gris e Dick: Os cientistas também mediram o campo energético das descargas elétricas em torno do seu corpo. Verificaram que, quando Kulagina se concentrava no esforço de mover o objetos, o campo energético reduzia-se à metade do normal para uma pessoa.
Acreditam eles que Kulagina absorvia energia ambiente com o seu corpo e, em seguida, descarregava-a no objeto-alvo para fazê-lo mover-se. (Idem) Por óbvias razões, o enfoque da pesquisa soviética é solidamente materialista e, nem por hipótese, se infiltra nos relatos que chegam até nós qualquer implicação de natureza espiritual. Ou, pelo menos, o que poderia sugerir tal envolvimento é deliberada ou involuntariamente ignorado.
Digo isto porque encontro na narrativa de Gris e Dick uma enigmática observação que nos remete a uma informação que Kardec recebeu dos espíritos. Vejamos: Várias vezes, durante as experiências telecinéticas com Sergeyev, Kulagina perdeu os sentidos. Os instrumentos destinados a medir o campo elétrico em torno dela mostram que, quando ela absorvia energia elétrica ambiental e a enviava ao objeto, ela ficava totalmente exaurida de energia. Em várias oportunidades, uma força elétrica ambiental penetrava rapidamente o seu corpo, usualmente através de um braço, e deixava marcas de queimadura na pele. Tais manchas podiam ser facilmente vistas, de vez que Kulagina preferia vestidos de mangas curtas para as suas experiências. (Idem).
Páginas atrás, ao comentarmos o problema da mediunidade de cura, encontramos esta observação dos espíritos a Kardec: Esta faculdade não é essencialmente mediúnica: possuem-na todos os verdadeiros crentes, sejam médiuns ou não. As mais das vezes é apenas uma exaltação do poder magnético fortalecido, se necessário, pelo concurso de bons espíritos. (Kardec. Allan, 1975) Destacamos, naquela oportunidade, o aspecto de que não se tratava, em essência, de mediunidade, conceito que também considero aplicável à faculdade telecinética de Kulagina, que é eminentemente anímica. Nada impede, contudo, que, dispondo a sensitiva soviética de grande poder magnético, seja assistida por espíritos interessados nas pesquisas que se desenvolvem atrás da Cortina de Ferro, caso em que a energia que eles consideram como "força elétrica ambiental" e que penetrava pelo seu corpo, poderá ser perfeitamente uma transfusão magnética promovida pelos espíritos.
3. PROVOCAÇÃO E PARTICIPAÇÃO
O desgaste energético do sensitivo especializado na produção de fenômenos de efeito físico é fato bem conhecido dos pesquisadores. Parece, às vezes, tão premente a demanda de energia impregnada de magnetismo anima gerada no ser encarnado que há casos em que o sensitivo não apenas perde uma parte substancial de seu peso, como é parcialmente desmaterializado, como no dramático episódio vivido por madame d'Esperance e narrado por Alexandre Aksakof, no livro Animismo e Espiritismo.
Insistimos, contudo, em dizer que é tarefa inglória a de catalogar e explicar toda a vastíssima gama de fenômenos psíquicos e as inúmeras categorias de faculdades empregadas na produção de tais fenômenos.
Lembremos, somente para exemplificar, o caso do médium brasileiro José Arigó, que assombrou o mundo com suas dramáticas operações a canivete.
O primeiro impulso é o de classificá-lo, prontamente, como médium de efeitos físicos, que apenas provocaria a eclosão dos fenômenos operatórios. Mas as coisas não parecem ocorrer com essa simplicidade linear. Na realidade, Arigó emprestava todo o seu corpo e principalmente o cérebro para que competentes médicos desencarnados pudessem promover tão desusadas operações, sem instrumentos adequados, sem anestesia e sem nenhum cuidado aparente com as condições mínimas de assepsia. O controle corporal do médium era tão perfeito que, subitamente suas mãos adquiriam a destreza e segurança indispensáveis aos melhores cirurgiões. E não eram mãos delicadas e habituadas aos instrumentos da cirurgia, e sim, mãos de trabalhador braçal, de ex-minerador, como eu mesmo pude observar.
Estaríamos, por certo, equivocados, se, impressionados pela riqueza da fenomenologia física que ele produzia, o considerássemos apenas como alguém que provoca o fenômeno, mas não funciona especificamente como médium, no sentido exato da palavra, ou seja, como intermediário. Na realidade, ele foi um médium na ampla acepção do termo, por servir de medianeiro entre o médico desencarnado e o seu paciente encarnado.
A classificação deve ser sempre flexível, no sentido de que há faculdades (e fenômenos) que participam de ambas as categorias, simultaneamente. Em outras palavras: há mediunidades de efeitos físicos, nas quais podemos observar efeitos intelectuais, tanto quanto o próprio efeito físico é a resultante de um impulso inteligente.
Encontramos, nas experiências do barão de Guldenstubbé, comunicações inteligentes obtidas pelo fenômeno físico de escrita direta. Vemos, por outro lado, uma abundância de fenômenos altamente sofisticados e inteligentes, como complexas intervenções cirúrgicas abdominais produzidas por um médium considerado, basicamente, de efeitos físicos, como Arigó.
Escreveu Kardec: Se analisarmos os diferentes fenômenos produzidos sob a influência mediúnica, veremos que, em todos, há um efeito físico e que aos efeitos físicos se aliam quase sempre um efeito inteligente. (Kardec, Allan. 1975) Chamo a atenção para os destaques (meus) que evidenciam, mais uma vez, a precisão da linguagem de Kardec, que revela uma densidade extraordinária de conteúdo, a exigir do leitor mais que mera atenção, um permanente estado de alerta, se é que ele pretende penetrar mesmo as sutilezas dos ensinamentos que lhe estão sendo oferecidos.
Em todos os fenômenos mediúnicos, portanto, há um componente físico, e nem poderia ser de outra maneira, já que a sua finalidade é promover um evento suscitado para impressionar o ser inteligente aprisionado num contexto físico. Já a recíproca não é verdadeira; nem sempre um fenômeno físico ocorre simultaneamente com um efeito inteligente, ou seja, ele pode ocorrer isoladamente, sem conteúdo ou significado intelectual específico.
Para entender melhor a questão precisamos voltar às observações dos espíritos a Kardec acerca da escrita direta. Vamos reproduzir o que então disseram: Os efeitos inteligentes são aqueles para cuja produção o espírito se serve dos materiais existentes no cérebro do médium, o que não se dá na escrita direta. A ação do médium é aqui toda material, ao passo que no médium escrevente, ainda que completamente mecânico, o cérebro desempenha sempre um papel ativo, (Idem) Aplicando-se isto ao caso Arigó, podemos observar que os médicos desencarnados obtinham um efeito inteligente - diagnósticos, prescrição de medicamentos, cirurgias -, conduzindo todo o processo através do cérebro do médium, mas com os conhecimentos que lhes eram próprios, a fim de poderem comandar os gestos necessários para a cirurgia, por exemplo. Eis um caso, portanto, em que a ação do médium não é simplesmente a de suprir os fluidos de que os espíritos precisavam para as suas tarefas. Ele como que se integrava no procedimento, o que é função própria do médium.Isso não ocorre, por exemplo, num fenômeno de poltergeist, no qual, na maioria dos casos, as pessoas encarnadas que fornecem as energias magnéticas necessárias nem sequer têm consciência de estar agindo como fontes geradoras de recursos energéticos destinados àquele fim. Não há transe ou perda de consciência nem a chamada incorporação. Os espíritos incumbidos da promoção dos distúrbios simplesmente tomam das pessoas adequadas as energias de que necessitam para a realização do fenômeno. O que nos leva de volta ao problema da rigidez classificatória, que dificilmente se aplica a todos os casos. Mediunidade ocorre quando se dá a interferência de espíritos desencarnados num fenômeno do qual participam necessariamente os encarnados. Temos, no poltergeist, um fenômeno no qual a interferência espiritual é, às vezes, óbvia e às claras e que, no entanto, os encarnados não funcionam especificamente como médiuns e, sim, como meros supridores de energia magnética.
Isto coloca o poltergeist numa categoria mista, dado que nem seria correto classificá-lo rigidamente como fenômeno mediúnico e muito menos como fenômeno anímico.
4. FORÇA MENTAL
Por isso tudo, falávamos das dificuldades de incluir neste livro o exame dos fenômenos de efeito físico. A notícia que aí fica é mais um lembrete, quase uma provocação, para que estudos mais aprofundados retomem tais aspectos.
Ao comentar alguns aspectos do 'mau-olhado', observamos que, em verdade, não é o olhar em si que acarreta os fenômenos abordados, mas a energia magnética emitida e dirigida com forte impulso (consciente ou inconsciente) da vontade para um objetivo específico. No fundo, o mesmo mecanismo que vimos em operação com a sensitiva soviética Nina Kulagina. Ao que tudo indica, é esse mesmo tipo de energia, por idêntico processo de emissão dirigida pela vontade, que penetra o campo mental alheio ou se transmite telepaticamente.
Essa energia telecinética, ampliada ou não na intensidade de seu poder por algum espírito desencarnado, é que atua sobre objetos inanimados, além de agir sobre seres vivos como plantas, animais e pessoas.
Uri Geller é um emissor desses, já bastante estudado em laboratórios e submetido a testes suficientemente rigorosos para documentarem suas faculdades.
Muitos anos antes da fama do sensitivo israelense se espalhar pelo mundo afora.