XII
1. INTRODUÇÃO No roteiro originário elaborado para este livro, foi minha intenção deixar de considerar as manifestações de efeito físico. Pelas suas complexidades e amplitude, a questão não poderia, a meu ver, ser tratada no contexto temático da mediunidade em geral sem prejuízo ao seu entendimento. Mesmo porque não alimentei a pretensão ambiciosa de abranger todos os aspectos da fenomenologia psíquica. Alguma coisa, contudo, precisa ser dita sobre o assunto, o mínimo possível a uma visão sumária dos problemas envolvidos, principalmente porque muitos são os que se deixam fascinar pelo espetáculo, às vezes dramático, que os fenômenos promovem. Milhões de pessoas foram testemunhas e participantes dessa 'empolgação' quando o sensitivo israelense Uri Geller apresentou -se na televisão brasileira, repetindo, aliás, o êxito que alcança onde quer que se exiba a um público sempre ávido e atento. No seu minucioso quadro classificatório das modalidades de manifestações e de faculdades, Allan Kardec identificou duas categorias de médiuns: os de efeitos físicos e os de efeitos intelectuais. Colocou no primeiro grupo "os que têm o poder de provocar efeitos materiais ou manifestações ostensivas" e no segundo, os que considerou "mais aptos a receber e a transmitir comunicações inteligentes". Conforme tivemos oportunidade de observar ao comentar tais aspectos, fenômeno mediúnico de fato, na plenitude de sua conotação semântica, é o de efeito intelectual, no qual o sensitivo funciona, realmente, como canal de comunicação entre desencarnados e encarnados. A certa altura (Livro dos médiuns, Item 99), um espírito explica, à sua maneira, o que julga ocorrer no fenômeno de transporte. Em nota explicativa à 19ª pergunta, Erasmo corrige a informação do manifestante, esclarecendo o seguinte: O que os envolve (os objetos transportados) não é matéria propriamente dita, mas um fluido tirado, metade, do perispírito do médium e, metade, do espírito que opera. O papel do médium aí é, por conseguinte, apenas o de provocar o fenômeno, cedendo parte de sua energia magnética de ser encarnado para que o fenômeno se produza. Coisa semelhante, ainda que sob outro enfoque, ocorre com o fenômeno da escrita direta. Entendia Kardec que tais fenômenos seriam de ordem intelectual mas, contra a sua opinião, os espíritos "insistiram ( ... ) em incluir a escrita direta entre os fenômenos de ordem física". E justificaram-se, dizendo o seguinte: Os efeitos inteligentes são aqueles para cuja produção o espírito se serve: dos materiais existentes no cérebro do médium, o que não se dá na escrita direta. A ação do médium é aqui toda material, ao passo que no médium escrevente ainda que completamente mecânico, o cérebro desempenha sempre um papel ativo, (Kardec, Allan, 1975). Devo confessar que encontrei certa dificuldade em perceber o exato sentido e conteúdo da expressão "materiais existentes no cérebro", necessários segundo os espíritos, à produção dos efeitos inteligentes. Recorrendo ao original francês de que disponho (Le livre des médiuns, 12ª edição da Librairie de la Revue Spirite, sem data), encontro, à página 227, a expressão correspondente "materiaux cérébraux du médium" - materiais cerebrais do médium. Eu estava supondo, ante o texto em português, que Kardec se referia material (idéias, conceitos, vocabulário) guardado no cérebro, ou melhor memória do médium. Na realidade, ele se refere ao próprio cérebro em si, órgão incumbido de controlar as funções e tarefas inteligentes do ser encarnado. É, portanto, servindo-se dos "materiais cerebrais do médium", isto é, conjunto de células nervosas que constituem o cérebro, que os espíritos produzem os fenômenos intelectuais e não, propriamente, do material existente no cérebro, como que ali arquivado, à disposição do manifestante. O texto se refere, portanto, e no meu entender, ao cérebro como central nervosa, e posto de comando do sistema e não como instrumento da memória. Feita essa digressão, prossigamos. Logo em seguida, ao discorrer sobre os médiuns curadores, os espíritos têm isto a dizer: Esta faculdade não é essencialmente mediúnica; possuem-na todos os verdadeiros crentes, sejam médiuns ou não. As mais das vezes é apenas uma exaltação do poder magnético fortalecido, se necessário, pelo concurso de bons espíritos. (Idem) Foi, aliás, a propósito dos médiuns curadores (Item 175, p, 208 e seguintes), que Kardec manteve um diálogo mais explícito e mais longo com os seus amigos e instrutores. As curas sem a utilização de remédios, a um toque ou gesto, deverão ser consideradas como ação do magnetismo pessoal de cada um, o que coloca o fenômeno na categoria anímica. O que caracteriza a mediunidade de cura é a intervenção de um espírito no procedimento. Escreve Kardec: A intenvenção de uma potência oculta, que é o que constitui a mediunidade, se faz manifesta, em certas circunstâncias ... Mesmo assim, contudo, os espíritos observaram que as pessoas dotadas de energia magnética também devem ser consideradas como médiuns, de vez que tais recursos pessoais são fortalecidos e ampliados pelos espíritos que se interessam pelo magnetizador ou pelo doente. 2. ANIMISMO E MEDIUNISMO: PERSISTE A INDEFINIÇÃO DAS FRONTEIRAS Tais considerações nos levam a concluir que há fenômenos de efeitos físicos na área específica do animismo, bem como os há na categoria de fenômenos mediúnicos. Como se pode observar, contudo, tanto no primeiro caso pode ocorrer (e há com freqüência) participação de espíritos desencarnados, como no caso do fenômeno mediúnico é óbvia a presença de um componente anímico, sem o que a manifestação não se produziria. Cabe enfatizar que os instrutores da codificação não vão ao radicalismo de considerar certos fenômenos de efeito físico como de mediunidade propriamente dita, nos quais o sensitivo funciona como intermediário que recebe e transmite certa categoria de manifestação. Por isso, diz Erasto que a faculdade de cura "não é essencialmente mediúnica". Peculiaridade interessante podemos identificar, por exemplo, no fenômeno da escrita direta que os espíritos, no dizer de Kardec, insistiram em considerar como "de ordem física", dado que, nele, o cérebro do médium não "desempenha um papel ativo", como na psicografia. No entanto, a escrita direta assume, com freqüência, as características de mensagem, como se pode ver no famoso livro do barão de Guldenstubbé, De la Realité des Esprits, sobre o qual escrevi um estudo para o Reformador (agosto/1975), sob o título O tempo, o preconceito e a humildade. Em 16 de agosto de 1856, às onze horas da noite, em casa do barão, um espírito que o autor do livro conheceu pessoalmente 'em vida', em resposta ao ceticismo do conde d'Ourches, também presente, escreveu esta mensagem: "Je confesse Jésus en chair" e assinou A. vG. Aí está um fenômeno de efeito inteligente, no qual os cérebros de médiuns eventuais não foram acionados. Evidentemente que alguém no grupo forneceu os recursos energéticos para que os espíritos pudessem produzir materialmente os textos escritos sem se utilizarem da psicografia. O barão, pesquisador e autor do livro, contudo, é extremamente parcimonioso em explicações analíticas dos notáveis fenômenos por ele obtidos. É de se supor que ele próprio, sua irmã, ou o seu amigo conde d'Ourches funcionassem, inconscientemente, como doadores dos fluidos necessários à produção dos escritos, mas disso não ficamos sabendo porque ele se manteve olimpicamente à margem do espiritismo doutrinário que se desdobrava, em paralelo, sob a competente coordenação de Allan Kardec. (A primeira edição de seu livro é de 1857, precisamente o ano em que foi lançado O livro dos espiritos). Somente a escrita direta do mundo póstumo" - escreve o barão de Guldenstubbé - nos revela a realidade do mundo invisível, de onde promanam as revelações religiosas e os milagres. Não hesitou mesmo em considerar o que chamou de 'catecismo do espiritismo de Allan Kardec', como uma "paródia vulgar do espiritualismo experimental", ainda que mais valiosa, a seu ver, do que as "elucubrações absurdas dos concílios da Igreja Católica". Logo na introdução de seu livro, ele declarou que foi em 13 de agosto 1856 que, pela primeira vez, demonstrou a testemunhas inteligentes e dignas de fé "sua maravilhosa descoberta da escrita direta dos espíritos, sem intermediário de qualquer espécie". Mal sabia ele que alguém no seu círculo, talvez ele próprio, estivesse a fornecer os recursos magnéticos necessários para que os espíritos tornarem possível sua "maravilhosa descoberta". Esse mesmo tipo de participação involuntária, inconsciente ou ignorada, ocorre em outros fenômenos de efeito físico, como materialização, transporte, poltergeist, cura, voz direta, assombração e outros. Seria difícil, senão impraticável de todo, determinar em cada fenômeno e manifestação o grau de participação de espíritos e o de seres encarnados. Até onde, por exemplo, pode ocorrer uma interferência de entidades desencarnadas em fenômenos que a parapsicologia investiga sob a categoria genética de PK (psicocinética)? A extraordinária sensitiva soviética Nina Kulagina provou, sob estritas condições de controle laboratorial, sua capacidade de mover, 'com o poder da mente', segundo os pesquisadores, pequenos objetos, sem tocá-los. Escrevem Gris e Dick, na obra The New Soviet Psychic Discoveries. Ela se concentrava exclusivamente sobre o objeto-alvo de tal forma que somente sua imagem ocupa toda a mente dela. Pouco antes de se mover o objeto, ela diz aos pesquisadores que sente uma forte dor na espinha dorsal e a vista fica toldada. Os médicos observaram que a sua pressão arterial subiu significativamente, (Gris. Henn & Dick, William, 1979.) E pouco adiante: Ao alcançar o pique de seu estado emocional, ela parecia estar a ponto de perder a consciência, "esse exato momento, uma mão invisível parecia tocar o objeto e movimentá-lo. (Idem).
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Nome do Capítulo Fenômeno de efeito físico