Capítulo 6
Voltemos ao dogma das penas eternas, que tem, como principal argumento invocado em seu favor, o seguinte: “É ponto pacífico entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcional à qualidade do ofendido. O crime perpetrado contra um soberano, por exemplo, sendo considerado mais grave do que o cometido contra qualquer súdito é, por isso mesmo, punido com maior severidade. E sendo Deus muito mais que um soberano, pois é infinito, a ofensa a Ele deve ser infinita, como infinito deve ser o respectivo castigo, isto é, eterno.” Refutação – Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto de partida, uma base sobre a qual se apoie, premissas, enfim. Tomemos essas premissas aos próprios atributos de Deus: — único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições. É impossível conceber Deus de outra maneira, visto que, sem a infinita perfeição, poder-se-ia conceber outro ser que lhe fosse superior. Para que seja único acima de todos os seres, é absolutamente necessário que ninguém possa excedê-lo ou sequer igualá-lo no que quer que seja. Logo, é preciso que seja infinito em tudo. Por serem infinitos, os atributos divinos não podem sofrer aumento nem diminuição, sem o que não seriam infinitos nem Deus seria perfeito. Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos, já não haveria Deus, visto que poderia coexistir um ser mais perfeito do que Ele. O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de outra qualidade contrária que pudesse diminuí-la e anulá-la. Um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau pode ter a menor parcela de bondade. Assim também um objeto não seria absolutamente negro com a mais leve nuança de branco e vice-versa. Estabelecido este ponto de partida, oporemos aos argumentos citados os seguintes:
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Argumentos a favor das penas eternas
Item 10