Capítulo 6
Como o homem é vagaroso em desfazer-se dos seus hábitos, preconceitos e ideias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés, e a nossa geração cristã ainda vê traços de antigos usos bárbaros, se não consagrados, ao menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não-ortodoxos, dos que são considerados heréticos, para acabar com a fogueira e fazer que se compreendesse a verdadeira grandeza de Deus. À em falta de fogueiras, porém, prevalecem ainda as perseguições materiais e morais, tão radicada está no homem a ideia de um Deus cruel. Nutrido por sentimentos que lhe são apregoados desde a infância, poderá o homem estranhar que o Deus que lhe apresentam, lisonjeado por atos bárbaros, condene a torturas eternas e veja sem piedade o sofrimento dos culpados? Sim, foram justamente os filósofos, os ímpios como querem alguns, que se escandalizaram vendo o nome de Deus profanado por atos indignos da sua magnanimidade. Foram eles que o mostraram aos homens na plenitude da sua grandeza, despojando-o das paixões e baixezas humanas, atribuídas por uma crença menos esclarecida. Neste ponto a religião ganhou em dignidade o que tem perdido em prestígio exterior, porque se ainda existem homens apegados à forma, bem maior é o número dos ­sinceramente religiosos pelo sentimento e pelo coração. Ao lado destes, porém, quantos se detiveram na superfície e foram levados, sem mais reflexão, a negarem toda a Providência! Por não ter sido capaz de conciliar as crenças religiosas com o progresso da razão humana, a religião levou muita gente ao deísmo e à incredulidade absoluta, sem esquecermos o panteísmo, isto é, o homem fazendo-se deus ele próprio, à falta de um ser mais perfeito.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Origem da doutrina das penas eternas
Item 9