Capítulo 6
Só um ser infinito pode fazer algo infinito. Sendo limitado nas virtudes, nos conhecimentos, no poderio, nas aptidões e na existência terrena, o homem não pode produzir senão coisas limitadas. Se pudesse ser infinito no mal que faz, ele o seria igualmente no bem, igualando-se, então, a Deus. Se o homem, porém, fosse infinito no bem não praticaria o mal, já que o bem absoluto é a exclusão de todo o mal. Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser absoluta, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria infinitamente vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto que um desses atributos é a negação do outro. Se não for infinitamente bom não é perfeito; e se não for perfeito deixa de ser Deus. Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom. Por que, então, Deus outorgaria aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro consolo. Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver também as torturas dos condenados; e se Ele se mantém insensível aos gemidos deles por toda a eternidade, será eternamente impiedoso. Logo, se não tem piedade, não é infinitamente bom.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Argumentos a favor das penas eternas
Item 11