VIII
Devia ser de manhã cedo, pois ela percebia o orvalho a brilhar na grama. Estava absorta a contemplar o quadro de idílica beleza, quando surgiu, não se sabe de onde, um cãozinho de raça inglesa sheep-dog (pastor). Foi como se tivesse entrado pela 'janela', vindo do aposento em que Regina estava fisicamente. O pêlo do animal era de um branco meio encardido, próprio da sua raça, mas muito brilhante. No início da trilha, sacudiu-se todo (devia estar molhado, provavelmente dormira fora de casa, pensou ela, e se molhara ao sereno). Em seguida, saiu correndo pela trilha afora, balançando seus pêlos, até entrar pelo bosque, onde desapareceu. Regina morreu de pena de perdê-lo. Era um lindo cão. Todo o local era lindo. Era uma pena que ela também não pudesse entrar pela sua janela psíquica e ir ao encalço do cãozinho peralta. Ela própria, contudo, deixa no ar uma dúvida: - Ou talvez pudesse? Quem sabe? E acrescenta um comentário para o qual não tem a minha concordância: - Nunca experimentei. Respondo eu: não apenas experimentou, como, em inúmeras outras oportunidades, ela entrou na cena, ou se viu lá, em outro tempo e espaço, como personagem de história verídica. A única diferença é que não havia janela psíquica recortada num ambiente físico, uma vez que toda a sessão de clarividência ocorria dentro da janela, que se ampliara de tal forma que fizera desaparecer o ambiente físico. É certo, porém, que seu corpo material, em tais situações, tem de ficar em algum ponto do espaço físico e igualmente preso a um esquema rígido de tempo seqüencial, onde ao passado somente se vai pela memória e ao futuro apenas com a imaginação . Mas, no fundo, não é tudo memória? 10. VISÃO DIENCEFÁLICA E AUDIÇÃO COCLEAR Diz ela, para encerrar, que não sabe como a janela se abre diante de seus olhos; subitamente ela está ali. Sabe, contudo, como se fecha. As figuras ou cenas começam a ·derreter-se·, como se estampadas numa fina placa de cera levada ao calor. Não escorrem, porém, de cima para baixo, a desmoronar, como acontece com um cone de sorvete ou uma lâmina de gelo. Derretem-se oscilando lentamente, deformando-se pouco a pouco até desaparecerem. O fenômeno que estamos aqui designando pela expressão 'janela psíquica' se caracteriza, portanto, por uma dupla visão, no sentido de que o sistema visual comum dos olhos físicos contempla o ambiente físico, enquanto a visão interna ou psíquica observa uma cena ou quadro situado no que costumamos chamar de outra dimensão. Aproveitando o ensinamento de André Luiz, como que poderíamos chamar esta segunda visão (a psíquica) de diencefálica, dado que ela se produz pela excitação direta dos 'computadores' da visão e não, da visão em si, como a conhecemos, a dos olhos físicos. A idéia de Boddington não difere muito dessa. Discorrendo sobre o desenvolvimento da clarividência, ensina ele, em Secrets of mediumship: Na maioria das técnicas de desenvolvimento ocorre uma combinação da visão normal com a visão espiritual ( ... ) A imagem resultante é mais objetiva e é vista pelos olhos, bem como, pele visão espiritual. (Boddington. Harry. 1949). Nada impede, portanto, que os olhos físicos vejam o ambiente físico e a visão espiritual (ou diencefálica, registre o ambiente hiperfísico ou espiritual normalmente invisível aos olhos materiais. Creio legítimo supor que, assim como a consciência pode, ocasionalmente, ficar distribuída em dois pontos distintos, ao mesmo tempo, ou seja, no corpo físico e no corpo espiritual, também a visão pode ocorrer em paralelo, sem que uma interfira na outra. Ou a audição. O sensitivo pode perceber, ao mesmo tempo, uma voz íntima que lhe fala sem som, enquanto ouve o ruído da rua ou uma pessoa que canta na casa ao lado. Ainda com André Luiz, diríamos que esse tipo de audição é 'coclear'. Não exijo patente para as proposições que aí ficam e não passam esforço honesto para explicar e catalogar fenômenos muito estudados, mas ainda pouco entendidos. Não importa, contudo, que tenhamos ou não nomes apropriados para os fenômenos. Os nomes são meros rótulos, como vivia a dizer Silver Birch. Acha o sábio índio desencarnado que os homens se preocupam demais com os rótulos das coisas. Talvez por isso acabem esquecendo de examinar o conteúdo dos frascos e dos pacotes nos quais vão pregados os rótulos. O Pequeno príncipe de Saint-Éxupery se queixa da fixação das pessoas com os números. Mal nos conhecem, já querem saber quantos anos tem, quantos quilos pesamos, quanto dinheiro há na conta bancária ou que carros temos na garagem. Pouco se interessam em saber, contudo, que tipo de pessoa somos. Quanto aos fenômenos psíquicos, claro que os nomes nos ajudam raciocinar. Não precisamos estar a repetir que desejamos nos referir àquele fenômeno segundo o qual o sensitivo se desdobra e vê à distância", basta chamá-lo pelo rótulo de clarividência. É preciso cuidado, não obstante, para que o rótulo não se torne mais importante do que o conteúdo do fenômeno ou seja, como ele ocorre, por que e para que e, se possível, que leis naturais regulamentam a sua eclosão. Essa psicose do rótulo precisa ser controlada, mesmo porque os fenômenos suscitados pelo espírito (encarnado ou desencarnado não costumam submeter-se docilmente às nossas arbitrárias classificações. Quando pensamos ter conseguido inventar um bom rótulo e descobrir toda a mecânica dos fenômenos, eles explodem de maneira diferente, obrigando-nos a abandonar a 'explicação' anterior que nos parecia tão abrangente. Colin Wilson, desalentado, queixa-se disso em mais de uma oportunidade. Por exemplo: ... uma das coisas mais desencorajadoras da pesquisa psíquica é que, tão logo a gente consegue elaborar uma teoria sensata e científica para explicar algum problema, descobre-se novo caso que a contradiz. (Wilson, Colin. 1984). Isto nos leva de volta a Kardec naquele exato ponto em que começamos nossas especulações neste capítulo. Como todo estudioso competente e responsável, ele observou o fenômeno e propôs-lhe uma explicação teórica. Não lhe faltou, contudo, dignidade e humildade intelectual para acrescentar que não considerava a sua manifestação pessoal como 'última palavra' no assunto. Propunha mesmo que se aguardassem novos estudos que certamente viriam, como vieram, com o tempo. Aliás, esse é um dos mais difíceis problemas suscitados pela pesquisa psíquica: a falta de humildade intelectual dos pesquisadores que, em vez de aprenderem com os fatos, preferem forçar suas teorias prediletas sobre eles, com a tola arrogância de ensinar a Deus como devem ser feitas as coisas da vida ... Sobre isso, Monteiro Lobato produziu uma das suas deliciosas e geniais sátiras ao escrever a sua Reforma da Natureza.
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