VIII
Convém lembrar que a carta não foi escrita deliberadamente para confirmar a visão pois, ao escrevê-la, o homem não sabia ainda do fenômeno. Apesar de insistir que não havia dormido - ela reitera a declaração pouco adiante - é difícil acreditar, já que ela própria informa que, se sentindo cansada, deixou "cair o livro e fechou os olhos", Mais uma vez observamos que se confunde com muita facilidade estado de consciência em desdobramento com estado de vigília. Como poderia ela, sem desdobrar-se, ver com riqueza de detalhes a queda do amigo no exato local e da maneira exata como ocorreu? Sabemos, além disso, que não é preciso um sono profundo para que o espírito se desdobre: basta um estado de relaxamento. No caso presente, contudo, são veementes os indícios de que a dama 'cochilou' o tempo suficiente para se esprender-se, ir ao local onde o amigo caçava, presenciar a cena do tombo e reassumir seu corpo, convicta de que estivera acordada o tempo todo. Consciente, sim; acordada, não me parece. 9. VIDÊNCIA E CLARIVIDÊNCIA Vamos dar um passo atrás para comentar certos aspectos da segunda conclusão, ou seja, a de que só devemos atribuir o nome clarividência para fenômenos que produzam efeito ótico, seja sobre os órgãos comuns da são ou diretamente sobre os dispositivos cerebrais correspondentes. É que incluímos aí a visão do passado e a do futuro, tanto quanto a do presente. Só porque o fenômeno da clarividência antecipa eventos ainda não ocorridos em nosso contexto normal de tempo, não vejo por que jorgarmos tais fenômenos para a categoria de premonição, profecia, ou precognição. Da mesma forma que uma penetração no passado não significa, necessariamente, retrocognição. Realmente, ocorre nesses casos um conhecimento (cognição) antecipado ou posterior de eventos, não, porém, que sejam devidas tais informações a qualquer faculdade profética ou retroativa especial do sensitivo, mas porque, uma vez desdobrados, parcialmente libertos do contexto habitual de espaço e tempo seqüencial (como os entendemos pela ótica humana de seres encarnados), temos todos, em maior ou menor grau, a condição de viajar tanto através do espaço físico, quanto no tempo, no sentido presente/passado ou presente/futuro. O chamado sonho profético não é outra coisa senão uma viagem do espírito ao 'local' que, para nós, presos aos condicionamentos do tempo seqüencial, ainda é futuro. Vimos isso com Regina também ou com o sensitivo inglês que descrevia por antecipação onde Jack, o Estripador, iria cometer o seu próximo crime. De forma idêntica, Regina viu um desastre de ônibus e outro de automóvel, sendo que neste viu também seus amigos mortos, tudo isso antes do evento real na 'faixa' de tempo em que vivemos as nossas vidas terrenas, metidos num corpo de carne. O que nos levou a especular, em A memória e o tempo, não só que o tempo é um lugar, mas, também, que o futuro já existe. Em suma: como fenômeno de clarividência, eu colocaria apenas aqueles, em que há visão à distância, no tempo e/ou no espaço. E mais, que a clarividência é um fenômeno anímico que usualmente depende de um desdobramento perispiritual a fim de que possa ocorrer. Quando o sensitivo vê espíritos desencarnados ou participa de eventos em que há envolvimentos de tais espíritos, então o fenômeno é espírita e, portanto, mediúnico, ainda que também precedido pelo desdobramento. Proponho designar estes casos como fenômenos de vidência e não, de clarividência, que ficaria adstrito, vamos reiterar, a fenômenos anímicos de visão à distância. A vidência é fenômeno mediúnico e o médium correspondente está classificado no quadro proposto por Allan Kardec como médium vidente. É preciso, contudo, estar alerta para o fato de que a fenomenologia psiquica não é nada fácil de se enquadrar em rígidas e didáticas classificações. Os quadros sinóticos são úteis no estudo de tais complexidades, mas é preciso não dogmatizar ou supervalorizar tais esquemas. Eles precisam ser suficientemente flexíveis para acomodar variedades e combinações fenomenológicas. E nós, igualmente flexíveis para aprendermos com os fatos e aceitar modificações em nossas posturas e convicções. Por exemplo: não é impossível que, no decorrer de um fenômeno anímico de clarividência, interfira ou apareça no campo visual do sensitivo um espírito desencarnado. Como classificar esse fenômeno misto? Anímico-mediúnico? Vidência ou clarividência? Não é a classificação ou a distribuição cuidadosa da terminologia que vai resolver o problema suscitado pelo entendimento desses e de outros fenômenos. Eles simplesmente ocorrem. Cabe ao observador atento procurar descobrir as leis que os produzem e buscar um rótulo ou um nome para identificá-los. Nunca se esquecendo, contudo, de que não são as palavras que inventamos que determinarão o fenômeno, obrigando-o a acontecer desta ou daquela maneira, a fim de não desarrumar os nossos caprichosos quadros classificatórios. Outro exemplo: há fenômenos de vidência ou clarividência - difícil ainda determinar- lhes a natureza com precisão - em que as imagens ficam como que superpostas, ou melhor, como num quadro menor dentro de um maior. Neste caso, o menor fica como que embutido ou encaixado no maior. O fenômeno ficou exposto em A memória e o tempo e para ele arrisquei-me até a desenhar uma ilustração a bico de pena, mostrando uma paisagem externa com um rio, uma casa, árvores etc., dentro da qual, num quadrinho menor, aparece a mão de uma pessoa escrevendo algo numa folha de papel. À falta de designação apropriada, usualmente com sonoros radicais e sufixos gregos, batizei o fenômeno de 'janela psíquica'. Segundo Regina, isto ocorre de repente, sem nenhuma sorte de preparação ou 'aviso'. Sentada, de pé ou deitada e lúcida (Acordada? Diz ela que sim, mas tenho minhas dúvidas, como já vimos), de repente, no próprio ambiente em que ela se encontra, abre-se uma janela, geralmente larga, através da qual ela vê cenas diferentes daquilo que está ali no ambiente físico em que se encontra. Às vezes as figuras são estáticas, como slides fixos, projetados numa tela. Tudo em cores. É como se fosse um retrato mesmo, ao natural, e não, uma pintura. Como se o movimento de uma cena real ficasse de repente congelado ante seus olhos. Acontece, também, surgirem pessoas ali, também paradas, em posições congeladas, porém, tudo dentro dos limites da janela. Fora desta, no milímetro seguinte de espaço, continua a visão do ambiente físico em que ela se encontra. Certa vez, ela viu, assim, uma figura de mulher, bonita, de perfil, cabelos muito pretos, despejados sobre os ombros. De outra vez, foi um homem, de pé, sem camisa, fumando um cachimbo. Também estático. Certas cenas têm movimento, contudo. Ela costuma conferir o ambiente onde se encontra a fim de se certificar de que está bem consciente de tudo, ou seja, de que aquilo não é uma ilusão de ótica ou uma alucinação. Como sempre acontece e temos observado, ela insiste em dizer que está bem acordada (assim mesmo, com a expressão grifada) enquanto eu, com a mesma insistência, estou convicto de que ela está consciente sim, mas não acordada, ou seja, em estado de vigília. Como o desdobramento é consciente, ela acha que está também acordada no corpo físico, o que não é, necessariamente, verdade. Pode até ocorrer que a consciência esteja como que repartida, como vimos em de Rochas, ficando parte no corpo físico e parte no corpo espiritual, ou melhor, no corpo físico e no corpo espiritual simultaneamente. A hipótese, aqui, como lembra o leitor, é a de que, a curta distância entre o corpo físico e o perispírito, a consciência tem condições de estar presente em ambos ao mesmo tempo, o que daria a ela a impressão de estar bem acordada. Mas não é o fato de estar ou não acordada que importa aqui e sim, o de que ela tem uma visão simultânea de dois ambientes, com os seus eventos próprios e autônomos. No quadro maior, ela vê o ambiente em que se encontra fisicamente, seus móveis, as paredes, cortinas etc, até à linha que o separa do ambiente número dois, o menor. A fatia de paisagem que se projeta na janela tem profundidade normal, tridimensional, com as perspectivas próprias. Não é um quadro bidimensional, só comprimento é largura. Duas dessas curiosas projeções ela gravou bem na memória. Uma delas era uma cena que ela situa aí pelo século XV ou XVI, a julgar pelas roupas usadas pela figura humana presente. Começou vendo os degraus de uma escada estreita. Deixemo-la descrever o que se segue: - Acompanhando os degraus - diz ela - dei com linda porta maciça de carvalho, larga e alta. (Do que se depreende que ela estava lá na cena, portanto já desdobrada e obviamente consciente, mas não acordada). Em seguida, vê uma pessoa que se aproximava. Era um homem alto, bonito, forte e trazia sobre os ombros uma capa de veludo de cor creme-dourado. Seus cabelos eram negros, anelados e desciam até os ombros. Ele chegou e subiu as escadas. E, via claramente as suas botas. Eram pretas, pareciam de couro muito maciço estavam lustradas. Ele chegou até à porta e parou diante dela, com um pé no degrau de baixo. A cena parou aí e permaneceu como que 'congelada' por algum tempo. Em seguida, a janela fechou-se. Dentro da nossa classificação, onde poríamos o fenômeno? Como clarividência, ou seja, uma cena vista à distância, no tempo (século XV ou XVI) e no espaço (Europa, talvez), ou uma cena mediúnica, na qual um espírito desencarnado produziu as imagens para ela? Ou, terceira hipótese, de dramatização de cena registrada na sua memória integral e que, por algum estímulo desconhecido, de repente emergiu na consciência? Não sei como decidir. Ainda mais que temos aqui o complicador da superposição de ambientes, ou seja, a de uma ambiência encaixada na outra, ignorando dogmas espaciais e temporais. Outra cena: ao abrir-se a janela psíquica, Regina vê um caminho estreito aberto num gramado que ia dar num bosque. Diz ela nunca ter visto tão: verde, como se luminoso.
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Nome do Capítulo Clarividência