Até agora não tem sido prestada a essas revelações toda a atenção que elas merecem. Os pais, a quem manifestações consideradas estranhas e anormais lançam em desassossego, em vez de provocá-las, procuram, pelo contrário, impedi-las. A Ciência perde, assim, indicações úteis. Se a criança, quando tenta traduzir, na sua linguagem afanosa e confusa, as vibrações fugitivas do seu cérebro psíquico, fosse animada, interrogada, em vez de ser repelida, ridicularizada, seria possível obter a respeito do passado elucidações de certo interesse, ao passo que atualmente se perdem na maioria dos casos.
No Oriente, onde a doutrina das vidas sucessivas está espalhada por toda parte, dá-se mais importância a essas reminiscências; recolhem-nas, constatam-nas na medida do possível e, muitas vezes, é reconhecida a sua exatidão. Dentre mil, vamos apresentar uma prova:
Uma correspondência de Simla (Índias Orientais) ao Daily Mail (158) refere que um menino, nascido no distrito, é considerado como a reencarnação do falecido Sr. Tucker, superintendente da comarca, assassinado, em 1894, por “discoitos”. O menino recorda-se dos menores incidentes da sua vida precedente; quis transportar-se a vários lugares familiares ao Sr. Tucker. No local do homicídio pôs-se a tremer e deu todas as demonstrações de terror. “Esses fatos são muito comuns em Burma – acrescenta o jornal –, onde os reencarnados que se lembram do seu passado têm o nome de winsas.”
C. de Lagrange, cônsul de França, escrevia de Vera Cruz (México) à Revue Spirite, em 14 de julho de 1880:(159)
“Há dois anos tínhamos, em Vera Cruz, um menino de sete anos que possuía a faculdade de médium curador. Muitas pessoas foram curadas, quer por imposição das suas mãozinhas, quer por meio de remédios vegetais que ele receitava e afirmava conhecer. Quando lhe perguntavam onde aprendera essas coisas, respondia que, no tempo em que era grande, tinha sido médico. Esse menino recorda-se, portanto, de uma existência anterior.
Falava com dificuldade. Chamava-se Jules Alphonse e nascera em Vera Cruz. Essa faculdade surpreendente desenvolveu-se nele aos 4 anos de idade e causou impressão em muitas pessoas que, incrédulas a princípio, estão hoje convencidas. Quando estava só com o pai, repetia-lhe muitas vezes: “Pai, não creias que eu fique muito tempo contigo; estou aqui só por alguns anos, porque é preciso que vá para outra parte.” E, se lhe perguntavam: “Mas, para onde queres tu ir?”, respondia: “Para longe daqui, para onde se está melhor do que aqui.”
Esse menino era muito sóbrio, grande em todas as ações, perspicaz e muito obediente. Pouco tempo depois, morreu.” O Banner of Light, de Boston, 15 de outubro de 1892, publica
a narrativa, abaixo transcrita, do honrado Isaac G. Forster,
inserta igualmente no Globe Democrat, de S. Luís, 20 de
setembro de 1892, no Brooklyn Eagle e no Milwaukee Sentinel,
de 25 de setembro de 1892:
“Há doze anos habitava eu o Condado de Effingham (Illinois) e lá perdi uma filha, Maria, quando para ela principiava a puberdade. No ano seguinte fui fixar residência no Dakota. Aí, nasceu-me, há nove anos, outra filhinha, a quem demos o nome de Nellie. Assim que chegou à idade de falar, pretendia não se chamar Nellie, mas sim Maria, que seu nome verdadeiro era o que em tempo lhe dávamos.
Ultimamente voltei para o Condado de Effingham, para pôr em dia alguns negócios. e levei Nellie comigo. Ela reconheceu a nossa antiga habitação e muitas pessoas que nunca vira, mas que minha primeira filha, Maria, conhecera muito bem.
A uma milha de distância está situada a casa da escola em que Maria andava; Nellie, que nunca a vira, dela fez uma descrição exata e exprimiu-me o desejo de tornar a vê-la. Levei-a e, quando lá chegou, dirigiu-se diretamente para a carteira que sua irmã ocupava, dizendo-me: “Esta carteira é a minha!” O Journal des Débats, de 11 de abril de 1912, em seu
folhetim científico cita, sob a assinatura de Henri de Varigny, um
caso semelhante colhido na obra do Sr. Fielding Hall, o qual se
entregou a longas pesquisas sobre esse assunto:
“Há cerca de meio século, duas crianças, um rapaz e uma menina, nasceram no mesmo dia e na mesma aldeia, na Birmânia. Casaram-se mais tarde e, depois de haver constituído família e praticado todas as virtudes, morreram no mesmo dia.
Maus tempos sobrevieram, e dois jovens, de sexos diferentes, tiveram de fugir da aldeia onde se tinha desenrolado o primeiro episódio. Foram estabelecer-se em outra parte e tiveram dois filhos gêmeos, que, em vez de se chamarem por seus próprios nomes, se davam entre si os nomes do par virtuoso e já morto do qual falamos.
Os pais espantaram-se com isso, mas logo compreenderam o fato. Para eles, o par virtuoso se tinha encarnado em seus filhos. Quiseram tirar a prova. Levaram-nos à aldeia onde anteriormente haviam nascido. Reconheceram tudo: estradas, casas, pessoas e até as vestimentas do casal, conservadas, não se sabe por que razão. Um se lembrou de terem emprestado duas rupias (moeda indiana) a certa pessoa. Esta vivia ainda e confirmou o fato.
O Sr. Fielding Hall, que viu as duas crianças quando elas ainda tinham 6 anos, achava uma com aparência mais feminina; esta albergava a alma da mulher defunta. Antes da reencarnação, diziam eles, viveram algum tempo sem corpo, nos ramos das árvores. Mas essas lembranças longínquas tornam-se cada vez menos nítidas e vão-se apagando pouco a pouco.” Essa percepção das vidas anteriores encontra-se, também,
excepcionalmente, em alguns adultos.
O Dr. Gaston Durville, no Psychic Magazine, número de janeiro e abril de 1914, conta um caso interessante de renovação das lembranças em estado de vigília.
A Sra. Laura Raynaud, conhecida em Paris por suas curas por meio do magnetismo, afirmava, desde muito, que se recordava de uma vida passada em um lugar que descrevia e que declarava iria encontrar um dia. Afirmava, ainda, ter vivido em condições nitidamente determinadas (sexo, condição social, nacionalidade, etc.), e haver desencarnado, havia certo número de anos, em conseqüência de tal moléstia.
A Sra. Raynaud, em viagem à Itália, em março de 1913, reconheceu o país em que tinha vivido. Percorreu os arredores de Gênova e encontrou uma habitação como tinha descrito. “Graças ao concurso do Sr. Calure, psiquista erudito de Gênova, encontramos – diz o doutor – nos registros da paróquia de São Francisco de Albaro, um registro de óbito que foi o da Sra. Raynaud n° 1.”
Todas as declarações por ela feitas, muitos anos antes (sexo, condição social, nacionalidade, idade e causa da morte), foram confirmadas.
Um sujet do doutor, em estado de sonambulismo lúcido, revelou curiosos pormenores sobre a sepultura da citada senhora.
Os testemunhos oriundos do mundo invisível são tão numerosos quanto variados. Não só Espíritos em grande número afirmam, nas suas mensagens, terem vivido muitas vezes na Terra, mas há os que anunciam antecipadamente a sua reencarnação; designam seu futuro sexo e a época de seu nascimento; ministram indicações sobre as suas aparências físicas ou disposições morais, que permitem reconhecê-los em seu regresso a este mundo; predizem ou expõem particularidades de sua próxima existência, o que se tem podido verificar.
A revista Filosofia della Scienza, de Palermo, no número de janeiro de 1911, publicou, sobre um caso de reencarnação, uma narrativa do mais alto interesse, que resumimos aqui. É o chefe da família, na qual os acontecimentos se passaram, o Dr. Carmelo Samona, de Palermo, quem fala:
“Perdemos, a 15 de março de 1910, uma filhinha que minha mulher e eu adorávamos; em minha companheira o desespero foi tal que receei, um momento, perdesse a razão. Três dias depois da morte de Alexandrina, minha mulher teve um sonho onde acreditou ver a criança a dizer-lhe:
– Mãe, não chores mais, não te abandonarei; não estou afastada de ti: ao contrário, tornarei a ti como filha.
Três dias mais tarde houve a repetição do mesmo sonho. A pobre mãe, a quem nada podia atenuar a dor e que não tinha, nessa época, noção alguma das teorias do Espiritismo moderno, só encontrava nesse sonho motivos para o reavivamento de suas penas. Certa manhã, em que se lamentava, como de costume, três pancadas secas fizeram-se ouvir à porta do quarto em que nos achávamos. Crente da chegada de minha irmã, meus filhos, que estavam conosco, foram abrir a porta, dizendo:
– Tia Catarina, entre.
A surpresa, porém, de todos, foi grande, verificando que não havia ninguém atrás dessa porta nem na sala que a precedia. Foi então que resolvemos realizar sessões de tiptologia, na esperança de que, por esse meio, talvez tivéssemos esclarecimentos sobre o fato misterioso dos sonhos e das pancadas que tanto nos preocupavam.
Continuamos nossas experiências durante três meses, com grande regularidade. Desde a primeira sessão, duas entidades manifestaram-se: uma dizia ser minha irmã; a outra, a nossa querida filha. Esta última confirmou, pela mesa, sua aparição nos dois sonhos de minha mulher e revelou que as pancadas tinham sido dadas por ela. Repetiu à sua mãe:
– Não te consternes, porque nascerei de novo por ti e antes do Natal.
A predição foi acolhida por nós com total incredulidade, pois um acidente, seguido de uma operação cirúrgica (21 de novembro de 1909), tornava impossível nova concepção em minha mulher.
Entretanto, a 10 de abril, uma primeira suspeita de gravidez revelou-se nela. A 4 de maio seguinte nossa filha manifestou-se ainda pela mesa e nos deu novo aviso:
– Mãe, há uma outra em ti.
Como não compreendêssemos essa frase, a outra entidade que, parece, acompanhava sempre nossa filha, confirmou-a, comentando-a assim:
– A pequena não se engana: outro ser se desenvolve em ti, minha boa Adélia.
As comunicações que se seguiram ratificaram todas essas declarações e mesmo as precisaram, anunciando que as crianças que deviam nascer seriam meninas; que uma se assemelharia a Alexandrina, sendo mais bela do que o tinha sido anteriormente.