Capítulo 1
Em alguns grupos, o dirigente encarnado dos trabalhos, ou o mentor espiritual, costuma designar previamente os médiuns que irão atuar, fixando-lhes até o número de Espíritos que deverão atender, bem como os médiuns que não deverão “dar passividade” a nenhum manifestante. Embora se trate de uma posição respeitável e bem-intencionada, com o propósito aparente de disciplinar as atividades do grupo, não é recomendável o procedimento. Procurarei apresentar as razões. A designação prévia do médium pode criar neste uma expectativa, e até certa ansiedade, que o leve a “forçar” uma comunicação, e até mesmo levá-lo ao fenômeno do animismo, se não estiver bem preparado para a sua tarefa e habituado ao exercício da mediunidade vigilante. Não convém correr esse risco, pois nem todos os grupos estariam preparados para identificar a dificuldade e corrigi-la. Por outro lado, não conhecemos, com precisão, o planejamento realizado no mundo espiritual. É bem possível que convenha encaminhar primeiro determinado Espírito, por determinado médium; e se, por desconhecimento, designamos outro médium, altera-se a sequência do trabalho programado, o que acarretará adaptações de última hora, que vão sobrecarregar os companheiros desencarnados. É que os Espíritos a serem tratados encontram-se ali, no ambiente, e muitas vezes, depois de presenciarem um atendimento particularmente dramático ou tocante, o próximo companheiro já vem predisposto e mais receptivo à doutrinação. Os mentores do grupo conhecem bem esse mecanismo e sabem melhor como dispor as manifestações. Acresce ainda uma observação: Acreditam alguns que esse processo de designar cada médium, de uma vez, evita que todos sejam tomados ao mesmo tempo e se crie balbúrdia prejudicial ao trabalho. Na minha experiência pessoal, nunca encontrei essa dificuldade. É frequente verificarmos que outros médiuns já se acham ligados aos próximos manifestantes, mas, num grupo bem ajustado, os mentores terão recursos suficientes para contê-los, até que chegue a vez de falarem. Em suma: a sequência da apresentação dos desencarnados e a escolha dos médiuns, que irão atuar ou não, devem ficar a critério dos dirigentes espirituais do grupo, que não têm necessidade de anunciar-nos previamente o plano de trabalho da noite, para que ele se desenrole harmoniosamente. Pelo contrário, quanto menos interferirmos, melhor. É excusado dizer que a sessão deve ter hora prefixada para começar e para terminar. Os companheiros necessitados devem ser atendidos rigorosamente dentro do horário a eles destinado. Em hipótese alguma deve permitir-se que, por iniciativa dos manifestantes, ou não, seja ultrapassada a hora. Certa vez, tivemos a esse respeito uma lição preciosa. Percebendo que a hora se esgotava, o Espírito manifestante, muito ardilosamente, começou a manobrar para ganhar tempo. Quando o dirigente lhe disse que precisava partir, ele apelou para a boa educação: — Você está me mandando embora? E com essas e outras, o diálogo ainda se alongou por alguns minutos. Terminado o atendimento, um dos orientadores recomendou-nos, em termos inequívocos, que evitássemos a repetição do ocorrido. Explicou que o trabalho mediúnico é protegido e assistido por uma equipe de segurança, composta de obreiros do lado de lá. Esgotado o prazo, eles têm que se retirar, de vez que outras tarefas inadiáveis os aguardam alhures, e o mecanismo de segurança fica substancialmente enfraquecido. Os Espíritos turbulentos, sabendo disso, procuram demorar-se, para provocar distúrbios e levar o pânico ao grupo, o que seria desastroso. A lição é importante. Terminado o atendimento, enquanto se aguarda a palavra final dos mentores, há uma pausa, que deve ser usada para uma pequena prece, que ajuda a repor o ambiente em termos mais calmos, depois das várias manifestações de companheiros aflitos, às vezes barulhentas e indignadas. Concluída a mensagem final, que, como vimos, convém gravar, para futura referência e estudo, os trabalhos são encerrados com uma prece. É hora dos comentários finais. * Há sempre o que comentar, após uma sessão mediúnica. É preciso, no entanto, que tais comentários obedeçam a uma disciplina, para que possam ser úteis a todos. É que, usualmente, os Espíritos atendidos ainda permanecem, por algum tempo, no recinto. Seria desastroso que um comentário descaridoso fosse feito, em total dissonância com as palavras de amor fraterno que há pouco foram ditas, pelo dirigente, durante a doutrinação. Os manifestantes, no estado de confusão mental em que se encontram, tudo fazem para permanecer como estão. Embora inconscientemente desejem ser convencidos da verdade, lutam desesperadamente para continuar a crer ou a descrer naquilo que lhes parece indicado. Se percebem que toda aquela atitude de respeito, recolhimento e carinho é insincera, dificilmente poderão ser ajudados de outra vez. Por isso, dizia que os comentários devem ser disciplinados. O dirigente deve perguntar pela experiência de cada um. Os médiuns videntes sempre têm algo a dizer, pois percebem a presença desta ou daquela entidade, ou têm acesso a fenômenos que usualmente interessam ao bom andamento dos trabalhos ou trazem indicações a serem utilizadas na sessão seguinte. Se o dirigente não dispõe do recurso da vidência, os médiuns videntes do grupo devem ajudá-lo discretamente, com o mínimo de interferência, durante os trabalhos. O mesmo se aplica aos médiuns clariaudientes. Os comentários finais não devem prolongar-se por muito tempo. Geralmente, ao terminar a sessão, é tarde da noite, e os componentes do grupo, especialmente os que moram longe, precisam retirar-se, pois o trabalho os espera pela manhã do dia seguinte, com as suas lutas e canseiras. Mesmo que a sessão tenha terminado, o comportamento de todos, ainda no recinto, deve ser discreto, sem elevar demasiadamente a voz, sem gargalhadas estrepitosas, embora estejam todos, usualmente, felizes e bem-humorados, por mais uma noite de trabalho redentor. Antes de se retirarem, em ordem e discretamente, é distribuída a água. É preciso, porém, observar que o trabalho dos componentes de um grupo mediúnico não termina com o encerramento da sessão. Mesmo durante o espaço de tempo que vai de uma reunião à próxima, de certa forma todos estão envolvidos nas tarefas. Inúmeras vezes, os Espíritos em tratamento nos dizem claramente que nos seguiram em nossa atividade normal. Desejam testar a boa-vontade, avaliar a sinceridade, ajuizar-se do comportamento de cada membro do grupo, especialmente do médium pelo qual se manifestaram e do dirigente que se incumbiu de doutriná- los, É preciso que se tenha o cuidado para não pregar uma coisa e fazer outra inteiramente diversa. Por outro lado, aqueles companheiros particularmente enfurecidos tentarão, no desespero inconsciente em que se acham, envolver-nos com seus artifícios. Se, no decorrer da semana, oferecemos brechas causadas por impulsos de cólera, de maledicência, de intolerância, de invigilância, enfim, estaremos admitindo, na intimidade do ser, emanações negativas que os companheiros infelizes estão sempre prontos a emitir contra nós, na esperança de nos neutralizar, para que possam continuar no livre exercício de suas paixões e desvarios. Todo cuidado é pouco. Nos momentos em que sentirmos que vamos fraquejar, recomenda-se uma parada para pensar e uma pequena prece, qualquer que seja o local onde nos encontremos. Os irmãos desesperados certamente nos cobrarão, no próximo encontro, as fraquezas que conseguiram identificar em nós. É claro que não nos podemos colocar como seres puríssimos e redimidos, incapazes de errar. Estejamos, assim, preparados para uma interpelação, pois eles o farão, certamente. Certo Espírito, em grande estado de agitação — desencarnação recente, em circunstâncias trágicas — me pediu que falasse com sua mãe, que eu conhecia. Embora eu não o tenha prometido, pois não tinha ainda o que dizer à pobre senhora, o Espírito me cobrou, logo na sessão seguinte: — Você não falou com a minha mãe! Respondi-lhe que não tinha ainda uma palavra tranquilizadora para dizer a ela, e não podia, evidentemente, falar do verdadeiro estado de aflição em que se encontrava ele. Outro me disse, ao cabo de uma semana particularmente angustiosa para mim, em virtude de terrível pressão de problemas humanos, que nada tinham a ver com o trabalho mediúnico: — Esta semana eu quase te peguei. Ainda te pego! * É oportuno colocar, aqui, um argumento muito válido, em favor da continuidade dos trabalhos e da assiduidade dos médiuns. Como não ignoram, aqueles que cuidam desses problemas, os mentores espirituais escolhem, para cada manifestante, o médium que lhe seja mais indicado pelas características da mediunidade ou pela natureza do trabalho a ser realizado. Feita a ligação, o Espírito, ao voltar, nas vezes subsequentes, virá usualmente pelo mesmo médium. Se o médium falta, o trabalho junto ao sofredor fica como que em expectativa, suspenso, aguardando a próxima oportunidade. Assim, a não ser por motivos muito fortes e justificados, a assiduidade dos médiuns e a continuidade do trabalho são vitais ao seu bom rendimento. * Ainda uma sugestão. É sempre útil que alguém se incumba de anotar, num caderno, um resumo do trabalho realizado em cada reunião. Isto não é, porém, uma ata, a não ser que a sessão seja de pesquisa. Quando se trata de tarefa de desobsessão, não é preciso ir a esses rigores. A prática de reproduzir sumariamente os principais aspectos de cada manifestação se revelou sempre de grande alcance, não apenas na condução dos trabalhos, mas também, para o aprendizado constante que representam as tarefas mediúnicas.
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Nome do Capítulo O grupo
Parte Primeira