Essas palavras: Que entre vós haja compreensão, encerram todo um ensinamento. Devemos compreender, e procuramos compreender, porque não queremos crer como cegos: o raciocínio é o facho luminoso que nos guia. Mas o raciocínio de uma só pessoa pode transviar-se, razão por que quisemos nos reunir em sociedade, a fim de nos esclarecermos mutuamente pelo concurso recíproco de nossas idéias e observações. Ao nos colocarmos neste terreno, assimilamos todas as outras instituições científicas e os nossos trabalhos produzirão mais prosélitos sérios do que se passarmos o tempo a fazer com que as mesas se movam e dêem pancadas. Em breve estaríamos fartos disso. Nosso pensamento exige um alimento mais sólido, daí por que buscamos penetrar os mistérios do mundo invisível, cujos primeiros indícios são esses fenômenos elementares. Os que sabem ler se divertem a repetir sem cessar o alfabeto? Talvez tivéssemos maior afluência de curiosos, que se sucederiam em nossas sessões como personagens de um panorama mutável. Mas esses curiosos, que não poderiam improvisar uma convicção pela visão de um fenômeno para eles inexplicado, que o julgariam sem nele se aprofundarem, seriam antes um obstáculo aos nossos trabalhos. Eis por que, não nos querendo desviar de nosso caráter científico, afastamos todos quantos não se deixarem atrair por um objetivo sério. O Espiritismo tem conseqüências de tal gravidade, toca em questões de alcance tão elevado, fornece a chave de tantos problemas; enfim, nele haurimos tão profundos ensinos filosóficos que, ao lado de tudo isso, uma mesa girante é mera infantilidade.
Dizíamos que a observação dos fatos sem o raciocínio é insuficiente para levar a uma completa convicção, sendo considerada leviana a pessoa que se declarasse convencida de um fato cuja compreensão lhe escapasse. Essa maneira de proceder tem outro inconveniente que deve ser assinalado e do qual cada um de nós pode dar testemunho: é a mania da experimentação, que é a sua conseqüência natural. Aquele que vê um fato espírita, sem lhe haver estudado todas as circunstâncias, geralmente não vê senão o fato material e, desde então, o julga do ponto de vista de suas próprias idéias, sem pensar que, fora das leis conhecidas pode e deve haver leis desconhecidas. Acredita poder manobrá-lo à vontade, impõe condições e somente se deixará convencer se o fato ocorrer de uma certa maneira, e não de outra. Imagina que se fazem experiências com os Espíritos como se estes fossem uma pilha elétrica; não lhes conhecendo a natureza, nem a sua maneira de ser, porquanto não as estudaram, supõe ser possível impor-lhes a vontade e pretende que eles devam agir a um simples sinal, pelo mero prazer de convencê-lo. Porque se dispõe a ouvi-los durante um quarto de hora, imagina que devem ficar às suas ordens. Esses são os erros em que não caem os que se dão ao trabalho de aprofundar os estudos; conhecem os obstáculos e não exigem o impossível. Em lugar de quererem convencer de seu ponto de vista os Espíritos, coisa a que estes não se prestam de bom grado, colocam-se no ponto de vista dos Espíritos, o que faz com que os fenômenos mudem de aspecto. Para isso necessitamos de paciência, perseverança e uma vontade firme, sem a qual não se chegará a coisa alguma.
Aquele que realmente quer saber deve submeter-se às condições da coisa estudada, e não querer que esta se submeta às suas próprias condições. Eis por que a Sociedade não se presta a experimentações que não dariam resultado, visto saber, por experiência, que o Espiritismo, como qualquer outra ciência, não se aprende por osmose e em algumas horas. Como é uma Sociedade séria, só quer tratar com gente séria, que compreende as obrigações impostas por semelhante estudo, caso se queira fazê-lo conscienciosamente. Ela não reconhece como sérios os que dizem: Deixem que eu veja um fato e me convencerei. Significa isso que desprezamos os fatos? Muito ao contrário, pois toda a nossa ciência está baseada nos fatos. Pesquisamos com interesse todos aqueles que nos oferecem um objeto de estudo ou confirmam princípios admitidos. Quero apenas dizer que não perdemos tempo em reproduzir os fatos que já conhecemos, do mesmo modo que um físico não se diverte em repetir incessantemente experiências que nada lhe ensinam de novo. Dirigimos nossas investigações sobre tudo quanto possa esclarecer a nossa marcha, fixando-nos de preferência às comunicações inteligentes, fontes da filosofia espírita, cujo campo é ilimitado e bem mais amplo do que as manifestações puramente materiais, que só despertam interesse momentâneo.
Dois sistemas igualmente preconizados e praticados se apresentam na maneira de receber as comunicações de além-túmulo; uns preferem esperar as comunicações espontâneas; outros as provocam por um apelo direto, dirigido a este ou àquele Espírito.
Pretendem os primeiros que na ausência de controle para se constatar a identidade dos Espíritos, esperando a sua boa vontade ficamos menos expostos a ser induzidos em erro; uma vez que o Espírito fala, só o fará se estiver presente e quiser falar, ao passo que não temos certeza se aquele que chamamos pode vir ou responder. Os outros objetam que deixar falar o primeiro que aparecer é abrir a porta aos bons e maus. A incerteza da identidade não é uma objeção séria, pois muitas vezes dispomos de meios para constatá-la, sendo aliás essa constatação objeto de um estudo vinculado aos próprios princípios da ciência. O Espírito que fala espontaneamente limita-se quase sempre às generalidades, enquanto as perguntas lhe traçam um quadro mais positivo e mais instrutivo. Quanto a nós, não condenamos senão os sistemas exclusivistas. Sabemos que são obtidas excelentes coisas de um e de outro modo e, se damos preferência ao segundo, é porque a experiência nos ensina que nas comunicações espontâneas os Espíritos mistificadores não vacilam em adornar-se de nomes respeitáveis, como também ocorre nas evocações. Têm mesmo o campo mais livre, ao passo que no sistema de perguntas nós os dominamos muito mais facilmente, sem contar que as questões são de incontestável utilidade nos estudos. Deve-se a esse modo de investigar a quantidade de observações que recolhemos diariamente e que nos fazem penetrar mais profundamente nesses extraordinários mistérios. Quanto mais avançamos, mais se nos dilata o horizonte, mostrando o quanto é vasto o campo que nos compete ceifar.
As numerosas evocações que temos feito permitiram-nos que dirigíssemos o olhar investigador sobre o mundo invisível, da base até o ápice, isto é, naquilo que ele tem de mais ínfimo quanto de mais sublime. A inumerável variedade de fatos e de caracteres emanados desses estudos, realizados com profunda calma, sustentada atenção e prudente circunspeção de observadores sérios, abriu-nos os arcanos desse mundo, para nós tão novo. A ordem e o método utilizados em vossas pesquisas eram elementos indispensáveis para o sucesso. Com efeito, já sabeis pela experiência que não basta chamar casualmente o Espírito de tal ou qual pessoa. Os Espíritos não vêm assim ao sabor de nosso capricho, nem respondem a tudo quanto a fantasia nos leva a lhes perguntar.
Com os seres de além-túmulo necessitamos de habilidade e de uma linguagem apropriada à sua natureza, às suas qualidades morais, ao grau de sua inteligência e à posição que ocupam; ser com eles dominador ou submisso, conforme as circunstâncias, compassivo com os que sofrem, humilde e respeitoso com os superiores, firme com os maus e os voluntariosos, que só subjugam aqueles que os escutam complacentemente. Enfim, é preciso saber formular e encadear metodicamente as perguntas, para que sejam obtidas respostas mais explícitas, assimilando nas respostas as nuances que muitas vezes constituem traços característicos e revelações importantes que escapam ao observador superficial, inexperiente ou ocasional. A maneira de conversar com os Espíritos é, pois, uma verdadeira arte, que exige tato, conhecimento do terreno que pisamos, constituindo, a bem dizer, o Espiritismo prático. Sabiamente dirigidas, as evocações podem ensinar grandes coisas; oferecem um potente elemento de interesse, de moralidade e de convicção: de interesse, por nos fazerem conhecer o estado do mundo que a todos nos aguarda e do qual algumas vezes fazemos uma idéia tão extravagante; de moralidade, porque nelas podemos ver, por analogia, nossa sorte futura; de convicção, porque nessas conversações íntimas encontramos a prova manifesta da existência e da individualidade dos Espíritos, que nada mais são do que nossas próprias almas, desprendidas da matéria terrestre. Estando formada a vossa opinião sobre o Espiritismo, não tendes necessidade de assentar as vossas convicções na prova material das manifestações físicas. Também quisestes, aconselhados pelos Espíritos, ater-vos ao estudo dos princípios e dos problemas morais, sem, por isso, negligenciar o exame dos fenômenos que podem auxiliar a pesquisa da verdade.