Apesar da incredulidade persistente de minha mulher, as coisas pareciam tomar o rumo anunciado, porque, no mês de agosto, o Dr. Cordaro, parteiro reputado, prognosticou a gravidez de gêmeos.
E a 22 de novembro de 1910 minha mulher deu à luz duas filhinhas, sem semelhança entre si; uma, entretanto, reproduzia em todos os seus traços as particularidades físicas bem especiais que caracterizavam a fisionomia de Alexandrina, isto é, uma hiperemia do olho esquerdo, uma ligeira seborréia do ouvido direito e, enfim, uma dissemetria pouco acentuada da face.
Em apoio de suas declarações, o Dr. Carmelo Samona traz os atestados de sua irmã Samona Gardini, do Professor Wigley, da Sra. Mercantini, do Marquês Natoli, da Princesa Niscomi, do Conde de Ranchileile, todos os que tomavam conhecimento das comunicações obtidas na família do Dr. Carmelo Samona, à medida que elas se produziam.
Depois do nascimento dessas crianças, dois anos e meio são decorridos, o Dr. Samona escreve à Filosofia della Scienza, dizendo que a semelhança de Alexandrina II com Alexandrina I tudo confirma, não só na parte física como na moral: as mesmas atitudes e brincadeiras calmas; as mesmas maneiras de acariciar a mãe; os mesmos terrores infantis expressos nos mesmos termos, a mesma tendência irresistível para servir-se da mão esquerda, o mesmo modo de pronunciar os nomes das pessoas que a rodeavam. Como Alexandrina I, ela abre o armário dos sapatos, no quarto em que esse móvel se encontra, calça um pé e passeia triunfalmente no quarto. Em uma palavra, refaz, de modo absolutamente idêntico, a existência, na idade correspondente, de Alexandrina I.
Não se nota nada de semelhante com Maria Pace, sua irmã gêmea.
Compreende-se todo o interesse que apresenta uma observação dessa ordem, seguida durante tantos anos por um investigador do valor do Dr. Samona.” (160) O Capitão Florindo Batista, cuja honestidade está ao abrigo
de qualquer suspeita, conta na revista Ultra, de Roma:
“No mês de agosto de 1905, minha mulher, que estava grávida de três meses, teve, quando já se havia deitado, mas ainda perfeitamente acordada, uma aparição que a impressionou profundamente. Uma filhinha, morta havia 3 anos, apresentara-se-lhe repentinamente, manifestando alegria infantil e lhe disse, com voz muito doce, as seguintes palavras:
– Mamãe, eu volto!
Antes que minha mulher tornasse a si da surpresa, a visão desapareceu.
Quando entrei, minha mulher, ainda muito comovida, contou-me sua estranha aventura e eu tive a impressão que era de uma alucinação que se tratava; mas não quis combater a convicção em que ela estava, de haver recebido um aviso providencial, e acedi a seu desejo de dar à filhinha que esperávamos o nome de Branca, que era o da sua jovem irmã falecida.
Por essa época eu não tinha noção nenhuma daquilo que aprendi mais tarde e teria chamado louco a quem me viesse falar em reencarnação, porque estava intimamente convencido de que os mortos não renasciam mais.
Seis meses depois, em fevereiro de 1906, minha mulher deu à luz, com felicidade, uma filhinha que se assemelhava inteiramente à sua irmã falecida. Tinha seus olhos muito grandes e seus cabelos espessos e frisados.
Essas coincidências não me desviaram do meu cepticismo materialista, mas minha esposa, muito contente com o favor obtido, convenceu-se, de modo absoluto, de que o milagre se tinha dado e que havia posto duas vezes no mundo a mesma criatura.
Hoje a menina tem cerca de 6 anos e, como sua falecida irmã, é muito desenvolvida física e intelectualmente.
A fim de que se compreenda o que vou relatar, devo acrescentar que, durante a vida da primeira Branca, tínhamos como criada uma certa Mary, suíça, que só falava o francês.
Tinha ela importado de suas montanhas uma espécie de canção. Quando minha filhinha morreu, Mary voltou para seu pais e a berceuse se havia completamente apagado de nossas lembranças. Um fato verdadeiramente extraordinário veio trazê-la ao nosso espírito.
Há uma semana, estava eu com minha mulher no meu quarto de trabalho, quando ouvimos ambos, como um eco longínquo, a famosa cantilena; a voz vinha do quarto de dormir onde havíamos deixado nossa filhinha adormecida.
A princípio, emocionados e estupefatos, não lhe tínhamos reconhecido a voz; mas, aproximando-nos do quarto donde ela partia, achamos a criança sentada na cama e cantando, com acento nitidamente francês, a cantilena que nenhum de nós lhe houvéramos ensinado.
Minha mulher, evitando parecer muito espantada, perguntou-lhe o que cantava e a criança, com uma prontidão de pasmar, respondeu que cantava uma canção francesa, posto que não conhecesse desse idioma senão algumas palavras que tinha ouvido pronunciar por suas irmãs.
– Quem te ensinou essa bela canção? – perguntei-lhe.
– Ninguém; eu a sei de mim mesma – respondeu-me ela, e acabou de cantá-la alegremente, como se nunca tivesse cantado outra em sua vida.” O Sr. Th. Jaffeux, advogado na Corte de Apelação de Paris,
comunica-nos o seguinte fato (5 de março de 1911):
“Desde o começo de 1908, tinha como Espírito-guia uma mulher que havia conhecido em minha infância e cujas comunicações apresentavam um caráter de rara precisão: nomes, endereços, cuidados médicos, predições de ordem familiar, etc.
No mês de junho de 1909, transmitia essa entidade, da parte de Père Henri, diretor espiritual do grupo, o conselho de não prolongar indefinidamente a morada estacionária no espaço. A entidade respondeu-me por essa ocasião:
– Tenho a intenção de reencarnar; terei, sucessivamente, três reencarnações muito breves.
Para o mês de outubro de 1909, anunciou-me espontaneamente que ia reencarnar em minha família e designou-me o lugar dessa reencarnação; uma aldeia do Departamento do Eure-et-Loir.
Eu tinha, com efeito, uma prima grávida nesse momento, e fiz a seguinte pergunta:
– Por que sinal poderei reconhecê-la?
– Terei uma cicatriz de dois centímetros do lado direito da cabeça.
A 15 de novembro disse a mesma entidade que, no mês de janeiro seguinte, deixaria de vir, sendo substituída por outro Espírito.
Procurei, desde esse instante, dar a essa prova todo o seu alcance e nada me seria mais fácil, depois de ter feito documentar oficialmente a predição e de conseguir um certificado médico do nascimento da criança.
Infelizmente, encontrei-me em presença de uma família que manifestava uma hostilidade agressiva contra o Espiritismo; estava desarmado.
No mês de janeiro de 1910 a criança nascia com uma cicatriz de dois centímetros do lado direito da cabeça. Ela tem, atualmente, 14 meses.” O senhor Warcollier, engenheiro químico em Paris, relata o
seguinte fato na Revue Scientifique et Morale de fevereiro de
1920:
“A senhora B... pertencia a uma família aristocrática com ideais da nobreza e me foi apresentada por uma pessoa de minha família, a senhora Viroux. Ela tinha perdido durante a guerra um filho que particularmente amava; ainda lhe restam outros filhos, sendo que um deles é uma filha casada, da qual falaremos a seguir. Os detalhes relativos a esse caso são conhecidos de todos os amigos da senhora B..., que haviam sido informados sobre o assunto no decorrer dos acontecimentos.
Alistado voluntário no início da guerra, seu filho ganhou rapidamente os galões de subtenente, mas foi morto em combate. A mãe teve um sonho no qual viu o local preciso, um planalto da estrada de ferro, onde o corpo de seu filho estava morto. Graças a esse sonho, ela encontrou os despojos do rapaz e os enterrou no cemitério da aldeia vizinha.
Alguns meses depois teve um outro sonho e viu seu filho, que lhe dizia: “Mamãe, não chores, vou voltar, não para ti, mas para minha irmã”. Ela não compreendeu o sentido dessas palavras; mas sua filha teve um sonho semelhante, no qual via seu irmão novamente criança brincando em seu próprio quarto. Nem uma nem outra pensava ou acreditava em reencarnação. A filha da senhora B..., que nunca tivera filhos, desolava-se a esse respeito. Mas logo depois ela ficou grávida.
Na noite que precedeu o nascimento, a senhora B... reviu seu filho em sonho. Ele lhe falou ainda de seu retorno e lhe mostrou um bebê recém-nascido que tinha os cabelos negros, que ela reconheceu perfeitamente quando o recebeu em seus braços algumas horas mais tarde. A senhora B... convenceu-se, mediante mil detalhes psicológicos e por traços curiosos de caráter, que essa criança era realmente seu filho reencarnado e, entretanto, afirma que antes não era reencarnacionista; era católica de nascimento e, por sua classe, totalmente simpatizante do clero; confessou que era absolutamente céptica, talvez até um pouco atéia, e nunca tinha freqüentado nem os espíritas nem os teósofos.” Indicamos neste capítulo as causas físicas do esquecimento
das vidas anteriores. Não será conveniente, ao terminá-lo,
colocarmo-nos em outro ponto de vista e inquirir se esse
esquecimento não se justifica por uma necessidade de ordem
moral? Para a maior parte dos homens, frágeis “canas pensantes”
que o vento das paixões agita, não se nos afigura desejável a
recordação do passado; pelo contrário, parece indispensável ao
seu adiantamento que as vidas anteriores se lhes apaguem
momentaneamente da memória.
A persistência das recordações acarretaria a persistência das idéias errôneas, dos preconceitos de casta, tempo e meio, numa palavra, de toda uma herança mental, um conjunto de vistas e coisas que nos custaria tanto mais a modificar, a transformar, quanto mais vivo estivesse em nós. Deparar-se-iam assim muitos obstáculos à nossa educação, aos nossos progressos; nossa capacidade de julgar achar-se-ia muitas vezes adulterada desde o berço. O esquecimento, ao contrário, permitindo-nos aproveitar mais amplamente os estados diferentes que uma nova vida nos proporciona, ajuda-nos a reconstruir nossa personalidade num plano melhor; nossas faculdades e nossa experiência aumentam em extensão e profundidade.