Ambos reconhecem o progresso indefinido da alma como a lei essencial do futuro; ambos admitem a pluralidade das existências sucessivas em mundos cada vez mais avançados. A única diferença consiste em que o Espiritismo europeu admite essa pluralidade de existências na Terra, até que o Espírito aqui tenha atingido o grau de adiantamento intelectual e moral que comporta este globo, após o que o deixa para outros mundos, onde adquire novas qualidades e novos conhecimentos. De acordo com a idéia principal, não diferem senão quanto a um dos modos de aplicação.
Poderá estar aí uma causa de antagonismo entre gente que persegue um grande objetivo humanitário?
Aliás, o princípio da reencarnação na Terra não é peculiar ao Espiritismo europeu; era um ponto fundamental da doutrina druídica; em nossos dias foi proclamado antes do Espiritismo por ilustres filósofos, tais como Dupont de Nemours, Charles Fourier, Jean Reynaud, etc. Poder-se-ia fazer uma lista interminável de escritores de todas as nações, poetas, romancistas e outros que o afirmaram em suas obras; nos Estados Unidos citaremos Benjamin Franklin e a Sra. Beecher-Stove, autora de A Cabana do Pai Tomás.
Assim, nem somos o seu criador, nem o seu inventor.
Hoje ele tende a tomar lugar na filosofia moderna, fora do Espiritismo, como única solução possível e racional de uma imensidade de problemas psicológicos e morais, até agora inexplicáveis. Não é aqui o lugar de discutir essa questão, para cujo desenvolvimento remetemos o leitor à introdução de O Livro dos Espíritos, e ao capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo. De duas, uma: esse princípio é verdadeiro, ou não o é; se é verdadeiro, é uma lei e, como toda lei da Natureza, não são as opiniões contrárias de alguns homens que o impedirão de ser uma verdade e de ser aceito.
Já explicamos muitas vezes as causas que se haviam oposto à sua introdução no Espiritismo americano; essas causas desaparecem dia a dia, e é do nosso conhecimento que já encontra numerosas simpatias naquele país. Aliás, o programa acima, dele não fala. Se não é proclamado, não é contestado. Pode-se mesmo dizer que ressalta implicitamente, como conseqüência inevitável de certas afirmações.
Em suma, como se vê, a maior barreira que separa os espíritas dos dois continentes é o oceano, através do qual podem perfeitamente dar-se as mãos.
O que faltou aos Estados Unidos foi um centro de ação para coordenar os princípios. Não existe, a bem dizer, corpo metódico de doutrina; ali se encontram, como se pode ser convencido, idéias muito justas e de alto alcance, mas sem ligação.
É a opinião de todos os americanos que tivemos ocasião de ver, e é confirmado por um relato feito numa das convenções realizadas em Cleveland, em 1867, de onde extraímos as seguintes passagens: “Na opinião de vossa comissão, o que hoje se chama Espiritualismo é um caos onde a verdade mais pura está incessantemente misturada aos erros mais grosseiros. Uma das coisas que mais servirão para o adiantamento da nova filosofia será o hábito de empregar bons métodos de observação.
Recomendamos aos nossos irmãos e irmãs uma atenção levada ao escrúpulo em toda esta parte do Espiritualismo. Também os aconselhamos a desconfiarem das aparências e a nem sempre tomarem por um estado extático, ou por uma agitação oriunda do mundo espiritual, disposições de alma que podem ter sua origem na desordem dos órgãos, e em particular nas moléstias dos nervos e do fígado, ou em qualquer outra excitação completamente independente da ação dos Espíritos.
“Cada um dos membros da comissão já teve uma experiência muito longa desses fenômenos; já há dez ou quinze anos, todos tínhamos sido testemunhas de fatos cuja origem extraterrestre não podia ser posta em dúvida, e que se impunham à razão. Mas todos estávamos igualmente convencidos de que uma grande parte do que se dá à multidão como manifestações espiritualistas são muito simplesmente passes de magia mais ou menos bem executados por falsários que disto se servem para explorar a credulidade pública.
“As observações que acabamos de fazer a respeito das habilidades qualificadas de manifestações, se aplicam por inteiro a todos os supostos médiuns, que se recusam a fazer suas experiências em qualquer lugar que não seja um quarto escuro: os Davenport, Fays, Eddies, Ferrrises, Church, Srta. Vanwie e outros, que pretendem fazer coisas materialmente impossíveis, e se deixam passar como instrumentos dos Espíritos, sem trazerem a menor prova em apoio às suas operações. Depois de uma atenta investigação da matéria, estamos na obrigação de declarar que a obscuridade não é uma condição indispensável à produção dos fenômenos; que ela é reclamada como tal apenas pelos velhacos, e que não tem outra utilidade senão favorecer suas trapaças. Em conseqüência, aconselhamos as pessoas que se ocupam de Espiritualismo, a que renunciem à evocação dos Espíritos no escuro.
“Criticando uma prática que pode ser substituída sem esforço por modos de experimentação infinitamente mais probantes, não pretendemos infligir uma censura aos médiuns que o fazem de boa-fé, mas denunciar à opinião pública os charlatães que exploram uma coisa digna de todo o respeito. Queremos defender os verdadeiros médiuns e livrar a nossa gloriosa causa das imposturas que a desonram.
“Cremos nas manifestações físicas; elas são indispensáveis ao progresso do Espiritismo. São provas simples e claras que ferem, de início, aqueles a quem não cegam os preconceitos; são um ponto de partida para chegar à compreensão das manifestações de ordem mais elevada, o caminho que conduziu a maior parte dos espiritualistas americanos do ateísmo ou da dúvida ao conhecimento da imortalidade da alma. (Extraído do New-York Herald, de 10 de setembro de 1867.)
As Conferências do Sr. Chevillard APRECIADAS PELO JORNAL PARIS (Vide a Revista Espírita de março de 1869) Lê-se no jornal Paris, de 7 de março de 1869, a propósito das conferências do Sr. Chevillard, sobre o Espiritismo: “Ainda está na lembrança o alvoroço causado há alguns anos no mundo, pelo fenômeno das mesas girantes.
“Não havia família que não possuísse sua mesinha animada, nem círculo que não tivesse os seus Espíritos familiares; marcava-se dia para fazer a mesa girar, como hoje se marca encontro para uma festa surpresa. Por um instante a curiosidade pública – atiçada pelo clero a amedrontar as almas timoratas pelo espectro abominável de Satã – não conheceu limites e as mesas estalavam, sacudiam, dançavam, do subsolo à água-furtada, com uma obediência das mais meritórias.
“Pouco a pouco a febre cedeu, fez-se silêncio, a moda encontrou outros divertimentos, quem sabe? talvez os quadros vivos.
“Mas, afastando-se, a multidão deixava imóveis alguns cabeças-duras, apesar de tudo presos a essas manifestações singulares. Insensivelmente uma espécie de laço misterioso se estendia, correndo de um a outro. Os solitários da véspera se contavam no dia seguinte; logo uma vasta associação não fazia mais desses grupos esparsos senão uma só família, marchando, sob a divisa de uma crença comum, à procura da verdade pelo Espiritismo.
“Parece que a esta hora o exército conta bastantes soldados aguerridos para que lhes dêem as honras do combate. E o Sr. Chevillard, depois de ter apresentado a solução definitiva do problema espírita, não hesitou em prosseguir o seu assunto numa nova conferência: As ilusões do Espiritismo.
“Por outro lado, o Sr. Desjardin, depois de ter falado dos inovadores em Medicina, ameaça bater dentro em pouco as teorias espíritas. Por certo os crentes responderão – os Espíritos não podem encontrar melhor ocasião para se afirmar. – É, pois, um despertar, uma luta que se trava.
“Hoje os espíritas são mais numerosos na Europa do que se supõe. Contam-se por milhões, sem falar dos que crêem e não se gabam. O exército recruta todos os dias novos adeptos. Que há de admirável? Não são cada vez mais numerosos os que choram e pedem às comunicações de um mundo melhor, a esperança do futuro?
“A discussão sobre este assunto parece que deve ser séria. Não é sem interesse tomar algumas notas desde o primeiro dia.
“O Sr. Chevillard é generoso; não nega os fatos; – afirma a boa-fé dos médiuns com os quais foi posto em contato; não sente qualquer embaraço em declarar que ele mesmo produziu os fenômenos de que fala. Aposta que os espíritas jamais se encontraram em semelhante festa, e eles não deixarão de tirar partido de tais concessões, – se podem opor ao Sr. Chevillard outra coisa além da sinceridade de sua convicção.
“Não nos cabe responder, mas apenas liberar desse conjunto de fatos algumas leis magnéticas que compõem a teoria do conferencista. ‘As vibrações da mesa, diz ele, são produzidas pelo pensamento interno voluntário do médium, ajudado pelo desejo dos assistentes crédulos, sempre numerosos.’ Assim se acha formalmente indicado o fluido nervoso ou vital, com o qual o Sr.
Chevillard estabelece a solução definitiva do problema espírita.
‘Todo fato espírita, acrescenta ele mais adiante, é uma sucessão de movimentos produzidos sobre um objeto inanimado por um magnetismo inconsciente.’
“Enfim, resumindo todo o seu sistema numa fórmula abstrata, ele afirma que ‘a idéia da ação voluntária mecânica se transmite pelo fluido nervoso, do cérebro até o objeto inanimado, que executa a ação na qualidade de órgão ligado pelo fluido ao ser que quer, seja a ligação por contato, seja a distância; mas o ser não tem a percepção de seu ato, porque não o executa por um esforço muscular.’