As Conferências do Sr. Chevillard, apreciadas pelo jornal Paris
“Esses três exemplos são suficientes para indicar uma teoria, que, aliás, não temos que discutir, e sobre a qual talvez tenhamos que voltar mais tarde; mas, lembrando-nos de uma lição do Sr. E. Caro, na Sorbonne, de bom grado censuraríamos ao Sr. Chevillard o próprio título de sua conferência. Terá ele perguntado, logo de início, se nessas questões que escapam ao controle, à prova matemática – que não podem ser julgadas senão por dedução – a pesquisa das causas primeiras não é incompatível com as fórmulas da Ciência? “O Espiritismo deixa larga margem à liberdade de raciocínio para poder depender da Ciência propriamente dita. Os fatos que se constatam, sem dúvida maravilhosos, mas sempre idênticos, escapam a todo controle, e a convicção não pode nascer senão da multiplicidade das observações. “A causa, digam o que disserem os iniciados, permanece um mistério para o homem que, friamente, pesa esses fenômenos estranhos, e os crentes ficam reduzidos a fazer votos para que, mais cedo ou mais tarde, uma circunstância fortuita rompa o véu que oculta aos nossos olhos os grandes problemas da vida, e nos mostra radioso o deus desconhecido.” Pagès de Noyez Demos a nossa apreciação sobre o alcance das conferências do Sr. Chevillard em nosso número precedente, e seria supérfluo refutar uma teoria que, como dissemos, nada tem de novo, não importa como pense o autor. Que tenha seu sistema sobre a causa das manifestações, é direito seu; que o creia justo, é muito natural; mas que tenha a pretensão de dar, só ele, a solução definitiva do problema, é dizer que só a ele é dado a última palavra dos segredos da Natureza, e que, depois dele, nada mais há para ver, nada mais para descobrir. Qual o sábio que alguma vez pronunciou o nec plus ultra nas ciências? Há coisas que se podem pensar, mas nem sempre é correto proclamar muito alto. Aliás, não vimos nenhum espírita inquietar-se com a pretensa descoberta do Sr. Chevillard; todos, ao contrário, fazem votos para que ele continue a sua aplicação até os últimos limites, sem omitir nenhum dos fenômenos que lhe possam opor; quereríamos, sobretudo, vê-lo resolver definitivamente estas duas questões: – Em que se tornam os Espíritos dos homens após a morte? – Em virtude de que lei esses mesmos Espíritos, que agitavam a matéria durante a vida do corpo, não podem mais agitá-la depois da morte e manifestar-se aos vivos? Se o Sr. Chevillard admite que o Espírito é distinto da matéria e sobrevive ao corpo, deve admitir que o corpo é o instrumento do Espírito nos diferentes atos da vida; que ele obedece à vontade do Espírito. Desde que admita que, pela transmissão do fluido elétrico, as mesas, os lápis e outros objetos se tornam apêndices do corpo e, assim, obedecem ao pensamento do Espírito encarnado, por que, por uma corrente elétrica análoga, não poderiam obedecer ao pensamento de um Espírito desencarnado? Entre os que admitem a realidade dos fenômenos, quatro hipóteses foram emitidas sobre sua causa, a saber: 1o A ação exclusiva do fluido nervoso, elétrico, magnético ou qualquer outro; 2o O reflexo do pensamento dos médiuns e dos assistentes, nas manifestações inteligentes; 3o A intervenção dos demônios; 4o A continuidade das relações dos Espíritos humanos, desprendidos da matéria, com o mundo corporal. Desde a origem do Espiritismo essas quatro proposições têm sido preconizadas e discutidas sob todas as formas, em numerosos escritos, por homens de valor incontestável. Assim, não faltou a luz da discussão. Como é que, desses diversos sistemas, o dos Espíritos tenha encontrado mais simpatias? que só ele prevaleceu e é hoje o único admitido pela imensa maioria dos observadores em todos os países do mundo? que todos os argumentos de seus adversários, após mais de quinze anos, não puderam triunfar, se são a expressão da verdade? É ainda uma questão interessante a resolver.
TAG Valor
Mês Abril
Ano 1869