As Conferências do Sr. Chevillard, apreciadas pelo jornal Paris
uma vez, não se chegou à afirmação dos Espíritos senão depois de haver experimentado todas as outras soluções. Já foi possível notar as relações e as diferenças existentes entre as duas escolas, e para os que não se contentam com palavras vãs, mas vão ao fundo das idéias, a diferença se reduz a bem pouca coisa. Não se tendo copiado estas duas escolas, tal coincidência é um fato deveras notável. Assim, eis milhões de pessoas nos dois lados do Atlântico que observam um fenômeno e chegam ao mesmo resultado. É verdade que o Sr. Chevillard ainda não tinha passado por lá para apor o seu veto e dizer àqueles milhões de indivíduos, entre os quais há bom número que não passa por tolos: “Enganastes-vos; só eu possuo a chave desses estranhos fenômenos e vou dar ao mundo a sua solução definitiva.” Para tornar a comparação mais fácil, vamos tomar a profissão americana, artigo por artigo, e comparar o que diz, sobre cada uma das proposições aí formuladas, a doutrina de O Livro dos Espíritos, publicado em 1857, e que também está desenvolvida em outras obras fundamentais. Encontrar-se-á um resumo mais completo no capítulo II de O que é o Espiritismo: 1. – O homem possui uma alma ou Espírito, princípio inteligente, no qual residem o pensamento, a vontade, o senso moral, e do qual o corpo não é senão um envoltório material. O Espírito é o ser principal, preexistente e sobrevivente ao corpo, que não passa de um acessório temporário. Quer durante a vida carnal, quer depois de a ter deixado, o Espírito é revestido de um corpo fluídico ou perispírito, que reproduz a forma do corpo material. 2. – O Espírito é imortal; só o corpo é perecível. 3. – Desprendidos do corpo carnal, os Espíritos constituem o mundo invisível ou espiritual, que nos rodeia e em cujo meio vivemos. As transformações fluídicas produzem imagens e objetos tão reais para os Espíritos, eles próprios fluídicos, quanto o são as imagens e os objetos terrestres para os homens, que são materiais. Tudo é relativo em cada um desses mundos. (Vide A Gênese segundo o Espiritismo, capítulo dos fluidos e das criações fluídicas). 4. – A morte do corpo em nada modifica a natureza do Espírito, que conserva as aptidões intelectuais e morais adquiridas durante a vida terrena. 5. – O Espírito traz em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade; é feliz ou desgraçado em razão do grau de sua depuração moral; sofre as suas próprias imperfeições, cujas conseqüências naturais suporta, sem que a punição resulte de uma condenação especial ou individual. A infelicidade do homem na Terra provém da inobservância das leis divinas. Quando conformar seus atos e suas instituições sociais a essas leis, será tão feliz quanto o comporte a sua natureza corporal. 6. – Nada do que o homem adquire durante a vida terrena em conhecimentos e em perfeições morais para ele é perdido; ele é, na vida futura, aquilo que realizou na vida presente. 7. – O progresso é a lei universal, em virtude da qual o Espírito progride indefinidamente. 8. – Os Espíritos estão em meio de nós; rodeiam-nos, vêem-nos, escutam-nos e participam, em certa medida, das ações dos homens. 9. – Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, são encontrados em todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de perversidade que existem na Terra. 10. – Segundo a crença vulgar, o céu e o inferno são lugares circunscritos de recompensas e punições. Segundo o Espiritismo, trazendo os Espíritos em si mesmos os elementos de sua felicidade ou de seus sofrimentos, são felizes ou infelizes em qualquer parte onde se encontrem; as palavras céu e inferno não passam de figuras que caracterizam um estado de felicidade ou de infelicidade. Há, por assim dizer, tantos graus entre os Espíritos quantas as nuanças nas aptidões intelectuais e morais. Todavia, se se considerarem os caracteres mais marcantes, podem ser agrupados em nove classes ou categorias principais, que se podem subdividir ao infinito, sem que essa classificação nada tenha de absoluta. (O Livro dos Espíritos; 2a Parte, cap. I, no 100 – “Escala Espírita”.) À medida que os Espíritos avançam em perfeição, habitam mundos cada vez mais adiantados fisicamente e moralmente. Por certo é o que entendia Jesus por estas palavras: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” (Vide O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.) 11. – Os Espíritos podem manifestar-se aos homens, de diversas maneiras: pela inspiração, pela palavra, pela vista, pela escrita, etc. É um erro crer que os Espíritos têm a ciência infusa; seu saber, no espaço como na Terra, está subordinado ao seu grau de adiantamento, e há os que, sobre certas coisas, sabem menos que os homens. Suas comunicações estão em relação com os seus conhecimentos e, por isto mesmo, não poderiam ser infalíveis. O pensamento do Espírito pode, além disso, ser alterado pelo meio que ele atravessa para se manifestar. Aos que perguntam para que servem as comunicações dos Espíritos, já que não sabem mais que os homens, responde-se, inicialmente, que servem para provar que os Espíritos existem e, por conseguinte, a imortalidade da alma; em segundo lugar, para nos ensinar onde se acham, o que são, o que fazem, e em que condições se é feliz ou desgraçado na vida futura; em terceiro lugar, para destruir os preconceitos vulgares sobre a natureza dos Espíritos e o estado das almas após a morte, coisas estas que não seriam sabidas sem as comunicações com o mundo invisível. 12. – As comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais, que não devem ser aceitas cegamente. O homem não deve, em nenhuma circunstância, desprezar seu próprio julgamento e seu livre-arbítrio. Seria dar prova de ignorância e de leviandade aceitar como verdades absolutas tudo quanto vem dos Espíritos; eles dizem o que sabem. Cabe a nós submeter os seus ensinamentos ao controle da lógica e da razão. 13. – Sendo as manifestações a conseqüência do incessante contato dos Espíritos e dos homens, elas existiram em todos os tempos; estão na ordem das leis da Natureza e nada têm de miraculoso, seja qual for a forma sob a qual se apresentam. Pondo em contato o mundo material e o mundo espiritual, essas manifestações tendem a elevar o homem, provando-lhe que a Terra não é para ele nem o começo, nem o fim de todas as coisas, e que ele tem outros destinos. 14. – Os seres designados sob o nome de anjos ou de demônios não são criações especiais, distintas da Humanidade. Os anjos são Espíritos saídos da Humanidade e chegados à perfeição; os demônios são Espíritos ainda imperfeitos, mas que melhorarão. Seria contrário à justiça e à bondade de Deus ter este criado seres perpetuamente votados ao mal, incapazes de voltar ao bem, e outros, privilegiados, isentos de todo trabalho para chegar à perfeição e à felicidade. Segundo o Espiritismo, Deus não tem favores nem privilégios para nenhuma de suas criaturas; todos os Espíritos têm um mesmo ponto de partida e a mesma estrada a percorrer, para chegar, pelo trabalho, à perfeição e à felicidade. Uns chegaram: são os anjos ou Espíritos puros; os outros ainda estão na retaguarda: são os Espíritos imperfeitos. (Vide A Gênese, capítulos sobre os Anjos e os Demônios.) 15. – O Espiritismo não admite os milagres, no sentido teológico da palavra, visto como, segundo ele, nada se realiza fora das leis da Natureza. Certos fatos, supondo-os autênticos, só foram reputados miraculosos porque se ignoravam as suas causas naturais. O caráter do milagre é ser excepcional e insólito; quando um fato se reproduz espontaneamente ou facultativamente, é que está submetido a uma lei, e desde então já não é um milagre. Os fenômenos de dupla vista, de aparições, de presciência, de curas pela imposição das mãos, e todos os efeitos designados sob o nome de manifestações físicas estão neste caso. (Vide, para o desenvolvimento completo desta questão, a segunda parte de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo.) 16. – Todas as faculdades intelectuais e morais têm sua fonte no princípio espiritual, e não no princípio material. 17. – Depurando-se, o Espírito do homem tende a aproximar-se da Divindade, princípio e fim de todas as coisas. 18. – A alma humana, emanação divina, traz em si o germe ou princípio do bem, que é o seu objetivo final, e deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade na Terra. 19. – Tudo o que tende a elevar o homem, a desprender sua alma das constrições da matéria, quer sob a forma filosófica, quer sob a religiosa, é um elemento de progresso que o aproxima do bem, ajudando-o a vencer os seus maus instintos. Todas as religiões conduzem a esse objetivo, por meios mais ou menos eficazes e racionais, conforme o grau de adiantamento dos homens, para a prática dos quais elas foram feitas. Em que, então, o Espiritismo americano difere do Espiritismo europeu? Seria porque um se chama Espiritualismo e o outro Espiritismo? Questão pueril de palavras, sobre a qual seria supérfluo insistir. Dos dois lados a coisa é vista de um ponto de vista muito elevado para se prender a semelhante futilidade. Talvez ainda difiram em alguns pontos de forma e de detalhes, muito insignificantes, e que se devem mais aos meios e aos costumes de cada país, do que ao fundo da Doutrina. O essencial é que haja concordância sobre os pontos fundamentais, e é o que ressalta com evidência da comparação acima.
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Mês Abril
Ano 1869