Quando ainda muito jovem, cogitara dessa visita à cidade magnificente dos velhos deuses, disposto a levar-lhe os tesouros da fé, guardados em Jerusalém: procuraria as assembléias cultas e independentes e falaria de Moisés e da sua Lei. Pensando, agora, na realização de tal projeto, considerava que levaria luzes muito mais ricas ao espírito ateniense: anunciaria à cidade famosa o Evangelho de Jesus. Certo, quando falasse na praça pública, não encontraria os tumultos, tão do gosto israelita. Antegozava o prazer de falar à multidão afeiçoada ao trato das coisas espirituais. Indubitavelmente, os filósofos esperavam notícias do Cristo, com impaciência. Teriam nas suas pregações evangélicas o verdadeiro sentido da vida. Embalado por essas esperanças, o Apóstolo dos gen tios decidiu a viagem, acompanhado de alguns amigos mais fiéis. Estes, porém, regressara m das portas atenienses, deixando-o completamente só. Paulo penetrou na cidade possuído de grande emo ção. Atenas ainda ostentava numerosas belezas exte riores. Os monumentos de suas tradições veneráveis estavam quase todos de pé; brandas harmonias vibrav am no céu muito azul; vales risonhos atapetavam -se de flores e perfumes. A grande alma do Apóstolo extasiou-se na contemplação da Natureza. Recordou os nobres filósofos que haviam respirado aqueles mesmos ares, reme -morou os fastos gloriosos do passado ate niense, sentindo-se transportado a maravilhoso santuário. Entretanto, o transeunte das ruas não lhe podia ver a alma, e de Paulo viram apenas o corpo esquálido que as priva ções tornaram exótico. Muita gente o tomou por men digo, farrapo humano da grande massa que chegava, em fluxo contínuo, do Oriente desamparado. O emissário do Evangelho, no entusiasmo de suas generosas intenções, não podia perceber as desencontradas opiniões a seu res peito. Cheio de bom ânimo, resolveu pregar na praça pública, na tarde desse mesmo dia. Ansiava por defron tar o espírito ateniense, tal como já defrontara as grandezas materiais da cidade. Seu esforço, no entanto, foi seguido de penoso in sucesso. Inúmeras pessoas aproximaram-se no primeiro momento; mas, quando lhe ouviram as referências a Jesus e à ressurreição, grande parte dos assistentes rom peu em gargalhadas de irritante ironia. — Será este filósofo um novo deus? — perguntava um transeunte com ar de pilhéria. — Está muito desajeitado para tanto — respondia o interpelad o. — Onde já se viu um deus assim? — indagava ainda outro. — Vede como lhe tremem as mãos! Parece doente e enfraquecido. A barba é selvagem e está cheio de cicatrizes!... — E louco — exclamava um ancião com vastas presunções de sabedoria. — Não percamos tempo. Paulo tudo ouvia, notou a fila dos retirantes, indi ferentes e endurecidos, e experimentou muito frio no coração. Atenas estava muito distanciada das suas esperanças. A assembléia popular deu -lhe a impressão de enorme ajuntamento de criaturas envenen adas de falsa cultura. Por mais de uma semana perseverou nas pre gações públicas sem resultados apreciáveis. Ninguém se interessou por Jesus e, muito menos, em oferecer -lhe hospedagem por uma simples questão de simpatia. Era a primeira vez, desde que iniciara a tarefa missionária, que se retiraria de uma cidade sem fundar uma igreja. Nas aldeias mais rústicas, sempre aparecia alguém que copiava as anotações de Levi para começar o labor evángélico no recinto humilde de um lar. Em Atenas ninguém apareceu inte ressado na leitura dos textos evan gélicos. Entretanto, foi tanta a insistência de Paulo junto de algumas personagens em evidência, que o leva ram ao Areópago, para tomar contacto com os homens mais sábios e inteligentes da época. Os componentes do nobre c onclave receberam-lhe a visita com mais curiosidade que interesse. O Apóstolo ali penetrara por mercê de Dionisio, homem culto e generoso, que lhe atendera às solicita ções, a fim de observar até onde ia a sua coragem na apresentação da doutrina desconheci da. Paulo começou impressionando o auditório aristocrá tico, referindo-se ao “Deus desconhecido”, homenageado nos altares atenienses. Sua palavra vibrante apresentava cambiantes singulares; as imagens eram muito mais ricas e formosas que as registradas pel o autor dos Atos. O próprio Dionisio estava admirado. O Apóstolo revela va-se-lhe muito diferente de quando o vira na praça pública. Falava com alta nobreza, com ênfase; as imagens revestiam -se de extraordinário colorido; mas, quando, co meçou a discorrer sobre a ressurreição, houve forte e prolongado murmúrio. As galerias riam a bandeiras despregadas, choviam remoques acerados. A aristocracia Intelectual ateniense não podia ceder nos seus preconcei tos científicos. Os mais irônicos deixavam o recinto com gargalhadas sarcásticas, enquanto os mais comedidos, em consi deração a Dionisio, aproximaram -se do Apóstolo com sorrisos intraduzíveis, declarando que o ouviriam de bom grado por outra vez, quando não se desse ao luxo de comentar assuntos de ficção. Paulo ficou, naturalmente, desolado. No momento, não podia chegar à conclusão de que a falsa cultura encontrará sempre, na sabedoria verdadeira, uma expressão de coisas imaginárias e sem sentido. A atitude do Areópago não lhe permitiu chegar ao fim. Em breve o suntuoso recinto estava quase silencioso, O Apóstolo, então, lembrou que seria preferível arrostar o tumulto dos judeus. Onde houvesse luta, haveria sempre frutos a colher. As discussões e os atritos, em muitos casos, representavam o revolvimento da ter ra espiritual para a semente divina. Ali, entretanto, encontrara a frieza da pedra. O mármore das colunas soberbas deu -lhe imediatamente a imagem da situação. A cultura ateniense era bela e bem cuidada, impressionava pelo exterior magnífico, mas estava fria, com a rigidez da morte intelectual. Apenas Dionisio e uma jovem senhora de nome Dâmaris e alguns serviçais do palácio permaneciam a seu lado, extremamente constrangidos, embora propensos à causa. Não obstante o desapontamento, Paulo de Tarso fez o possí vel por evitar a nuvem de tristeza que pairava sobre todos, a começar por ele próprio. Ensaiou um sorriso de conformação e tentou algo de bom -humor. Dionisio consolidou, ainda mais, sua admiração pelas pode rosas qualidades espirituais daquele homem de aparência franzina, tão enérgico e cioso de suas convicções. Antes de se retirarem, Paulo falou na possibilidade de fundar uma igreja, ainda que fosse num humilde santuário doméstico, onde se estudasse e comentasse o Evangelho. Mas os presentes não regatear am excusativas e pretextos. Dionisio afirmou que lamentava não lhe ser possível amparar o cometimento, dada a angústia de tempo; Dâmaris alegou os impedimentos domésticos; os servos do Areópago, um por um, manifestaram difi culdades extremas. Um era muito pobre, outro muito incompreendido, e Paulo recebeu todas as recusas man tendo singular expressão fisionômica, como o semeador que se vê rodeado somente de pedras e espinheiros. O Apóstolo dos gentios despediu -se com serenidade; mas, tão logo se viu só, chorou copiosamente. A que atribuir o doloroso insucesso? Não pôde compreender, imediatamente, que Atenas padecia de seculares intoxica ções intelectuais, e, supondo-se desamparado pelas ener gias do plano superior, o ex-rabino deu expansão a terrível desale nto. Não se conformava com a frieza geral, mesmo porque, a nova doutrina não lhe pertencia e sim ao Cristo. Quando não chorava refletindo na própria dor, chorava pelo Mestre, julgando que ele, Paulo, não havia correspondido à expectativa do Salvador. Por muitos dias, não conseguiu desfazer a nuvem de preocupações que lhe ensombrou a alma. Todavia, encomendava -se a Jesus e suplicava -lhe proteção para os grandes deveres da sua vida. Nesse bulcão de incertezas e amarguras, surgiu o socorro do Mestre ao Apóstolo bem-amado. Timóteo chegara de Corinto, carregado de boas notícias.