1ª Parte - Cap. 8: A morte de Estevão
Fui infeliz escolhendo esta ocasião para tua visita a Jerusalém. Sinto-me envergonhado não só diante da mulher com quem nunca mais poderei unir-me pelo matrimônio, como perante os parentes e amigos, pela situação amarga que as circunstâncias interpuseram no meu caminho... Abigail estava pálida e penosamente surpree ndida. — Saulo... Saulo... não te envergonhes perante meu coração. Jeziel morreu estimando-te. Seu cadáver nos escuta — acentuava com doloroso acento. — Não posso obrigar-te a desposar-me, mas não transformes nossa afeição em ódio surdo... Sê meu amigo!... Ser-te-ei eternamente grata pelos meses de ventura que me deste. Voltarei amanhã para casa de Ruth... Não te envergonharás de mim! A ninguém direi que Jeziel era meu irmão, nem mesmo a Zacarias! Não quero que algum amigo nosso te considere um carrasco. Observando-a naquela generosidade humilde, o moço de Tarso teve ímpetos de estreitá-la ao coração, como se o fizera a uma criança. Quis avançar, apertá-la contra o peito, cobrir-lhe de beijos a fronte bondosa e inocente. Súbito, porém, vieram -lhe à mente os seus títulos e atribuições; via Jerusalém revoltada, tisnando-lhe a reputação de amargas ironias. O futuro rabino não poderia ser vencido; o doutor da Lei rígida, e implacável, devia sufocar o homem para sempre. Mostrando-se impassível, replicou em tom á spero: — Aceito o teu silêncio em torno das lamentáveis ocorrências deste dia; voltarás amanhã para casa de Ruth, mas não deves esperar a continuação das minhas visitas, nem mesmo por cortesia injustificável, porque, na sinceridade dos de nossa raça, os qu e não são amigos são inimigos. A irmã de Jeziel recebia aquelas explicações com espanto profundo. — Então, abandonas-me inteiramente, assim? —perguntou entre lágrimas. — Não estás desamparada — murmurou inflexivelmente —, tens os teus amigos da estrada de Jope. — Mas, afinal, por que odiaste tanto a meu irmão? Ele foi sempre bondoso.. Em Corinto nunca ofendeu a ninguém. Era pregador do malfadado carpinteiro de Na zaré — esclareceu, contrafeito e ríspido —; além disso, humilhou-se diante da cidade inteira. Abigail, compelida pela severidade das respostas, calou -se inteiramente. Que poder teria o Nazareno para atrair tantas dedicações e provocar tantos ódios? Até ali, não se interessara pela figura do famoso carpinteiro, que morrera na cruz, como malfeitor; m as o irmão lhe dissera ter encontrado nele o Messias. Para seduzir um caráter cristalino, como Jeziel, o Cristo não poderia ser um homem vulgar. Lembrava o passado do irmão para considerar que, no caso da rebeldia paterna, conseguira manter -se acima dos próprios laços do sangue para admoestar o genitor, amorosamente. Se tivera forças para analisar os atos paternos com o preciso discernimento, era preciso que aquele Jesus fosse muito grande, para que a ele se consagrasse, oferecendo -lhe a própria vida ao recobrar a liberdade. Jeziel, a seu ver, não se enganaria. Conhecendo-lhe a índole, do berço, não era possível que se deixasse iludir em suas convicções religiosas. Sentia-se, agora, atraida para aquele Jesus desconhecido e odiado injustamente. Ele ensinara o irmão a bem-querer os próprios verdugos. Que lhe não reser varia, pois, ao seu coração sedento de carinho e de paz? As últimas palavras de Jeziel exerciam sobre ela uma influência profunda. Abismada em profundas cogitações, notou que Saulo abrira a port a, chamando alguns auxiliares, que se pre cipitaram por cumprir-lhe as ordens. Em poucos minutos os despojos de Estevão eram removidos, enquanto amigos numerosos cercavam o jovem par, expansivamente loquazes e satisfeitos. — Que é isto — perguntou um deles a Abigail —, ao notar-lhe a túnica manchada de sangue. — O sentenciado era israelita — atalhou o moço tarsense, desejoso de antecipar explicações — e, como tal, amparamo-lo na hora extrema. Um olhar mais severo deu a entender à jovem quanto devia conter as emoções próprias, longe e acima das ocorrências verídicas. Daí a minutos, o velho Gamaliel chegava e solicitava ao ex -discípulo alguns momentos de atenção, em par ticular. - Saulo disse bondoso —, espero partir na semana próxima para além de Damasco. Vou descansar junto de meu irmão e aproveitar a noite da velhice para meditar e repousar o espírito. Já fiz a necessária noti ficação no Sinédrio e no Templo, e acredito que, dentro de poucos dias, serás efetivamente provido no meu cargo. O interpelado fez um ligeiro gesto de agradecimento, cuja frieza mal disfarçava o abatimento que lhe ia na alma. — Entretanto — prosseguia o generoso rabino, so licitamente tenho um último pedido a fazer-te: É que tenho Simão Pedro em conta de um amigo. Esta confissão poderá escandallzarte mas, sinto -me bem ao fazê-la. Acabo de receber sua visita, pedindo a minha interferência para que o cadáver da vítima de hoje seja entregue à igreja do “Caminho”, onde será sepultado com muito amor. Sou o intermediário do pedido e espero n ão me recuses o obséquio. — Dizeis “vítima”? — perguntou Saulo admirado. — A existência de uma vítima pressupõe um algoz e éu não sou verdugo de ninguém. Defendi a Lei até ao fim. Gamaliel compreendeu a objeção e replicou: — Não vejas laivo de recriminação nas minhas pa lavras. Nem a hora, nem o local, tampouco, se prestam a discussões. Mas, para não faltar à sinceridade que em mim sempre conheceste, devo dizer -te, rapidamente, que venho chegando a profundas conclusões a respeito do chamado carpintei ro de Nazaré. Tenho refletido ma duramente na sua obra entre nós; todavia, estou velho e alquebrado para iniciar qualquer movimento renova dor no seio do judaísmo. Em nossa existência chega uma fase em que não nos é lícito intervir nos problemas coletivos; mas, em qualquer idade, podemos e devemos operar a iluminação ou o aprimoramento de nós mesmos. É o que vou fazer. O deserto, na majestade silenciosa do insulamento, constituiu sempre a sedução dos nossos antepassados. Sairei de Jerusalém, fugirei do escâ ndalo que as minhas novas idéias e atitudes certo provocariam; buscarei a solidão para encontrar a verdade. Saulo de Tarso estava estupefato. Também Gama liel parecia sofrer a influenciação de estranhos sortilé gios! Sem dúvida, os homens do “Caminho” o enfeitiçaram, desbaratando-lhe as últimas energias... o velho mestre acabara capitulando, numa atitude de conseqüên cias imprevisíveis! Ia impugnar, discutir, chamá-lo à realidade, quando o venerando mentor da mocidade fari saica, deixando entrever que perc ebia as vibrações anta gônicas do seu espírito ardoroso, sentenciou: — Já sei o teor da tua resposta íntima. Julgas -me fraco, vencido, e cada qual analisa como pode; mas não me leves ao enfaro das controvérsias. Aqui estou somente para solicitar-te um favor e espero não mo negues. Poderei providenciar para remover os despojos de Estevão imediatamente? Via-se que o moço de Tarso hesitava, premido por singulares pensamentos. — Concede, Saulo!... Ë o último obséquio ao velho amigo!... — Concedo — disse afinal. Gamaliel despediu-se com um gesto de sincero reco nhecimento. Novamente rodeado de muitos amigos, que procura vam alegrá-lo, o jovem doutor da Lei revelava-se muito alheio de si mesmo. Debalde erguia a taça das saudações. O olhar vago, cismativo, demonst rava o profundo alheamento em que se engolfara. Os inesperados aconteci mentos acarretaram-lhe à mente um turbilhão de pensamentos angustiados. Queria pensar, desejava recolher -se em si mesmo para o exame necessário das novas perspec tivas do seu destino, mas, até ao pôr do sol, foi obrigado a manter -se no quadro das convenções sociais, atendendo aos amigos até ao fim. Alegando necessidade de trocar as vestes ensangüen tadas, Abigail retirara-se logo após a entrevista de Ga maliel. Na casa de Dalila, entretanto, a pobrezinha foi aco metida de febre alta, penalizando e alarmando a todos os que lá se encontravam. Ao cair da noite, Saulo regressava ao lar da irmã, onde lhe comunicaram o estado da enferma. Resolvido a imprimir novos rumos à sua vida, pro curou sufocar a própria emoção para encarar os fatos com a naturalidade possivel. Em lágrimas, a jovem de Corinto pediu que a re conduzissem à casa de Zacarias, receando a marcha da enfermidade. Em vão, Dalila e os parentes procuraram intervir com recursos afet uosos. A súplica de Abigail ao espírito enérgico de Saulo foi exposta comovedora -mente e, dentro da severidade que lhe caracterizava as atitudes, o ex -discípulo de Gamaliel tomou todas as pro vidências para satisfazê-la. E à noitinha, com muito cuidado, mo desta carreta saía de Jerusalém pela estrada de Jope. Ruth recebeu a jovem nos braços, emocionada e aflita. Ela e o marido recordaram, então, que, somente com a morte do pai, Abigail tivera febre tão alta, acompanhada de abatimento tão profundo. De cenho carregado, Saulo os ouvia, esforçando-se por dissimular a emoção. E enquanto os amigos da jovem procuravam assisti-la carinhosamente, o futuro rabino, sucumbido num bulcão de idéias antagônicas, dirigia -se para Jerusalém, com intenção de não mais voltar a Jope.
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Capítulo 8
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