S.P.E.E. – Discurso de Encerramento do Ano Social
Senhores, No momento em que expira o vosso ano social, permiti vos apresente um breve resumo da marcha e dos trabalhos da Sociedade. Conheceis a sua origem: ela foi formada sem desígnio premeditado, sem projeto preconcebido. Alguns amigos se reuniram em minha casa num pequeno comitê; pouco a pouco esses amigos me pediram permissão para apresentar seus amigos. Então não havia um presidente: eram reuniões íntimas, de oito a dez pessoas, semelhantes às que existem às centenas em Paris e alhures. Todavia, era natural que em minha casa eu tivesse a direção do que ali se fazia, seja como dono, seja também em decorrência dos estudos especiais que havia feito e que me davam certa experiência na matéria. O interesse que despertavam essas reuniões ia crescendo, embora não nos ocupássemos senão de coisas muito sérias; pouco a pouco, um a um foi crescendo o número dos assistentes, de tal forma que o meu modesto salão, muito pouco adequado para uma assembléia, tornou-se insuficiente. Foi então que alguns dentre vós propuseram que se procurasse outro cômodo e que nos cotizássemos para cobrir as despesas, pois não achavam justo que eu as suportasse sozinho, como até então ocorria. Entretanto, para nos reunirmos regularmente, além de um certo número e num local diferente, era necessário que nos conformássemos com as prescrições legais, ter um regulamento e, conseqüentemente, um presidente designado. Enfim, era preciso constituir-se uma sociedade; foi o que aconteceu, com o assentimento da autoridade constituída, cuja benevolência não nos faltou. Era também necessário imprimir aos trabalhos uma direção metódica e uniforme, e decidistes encarregar-me de continuar aquilo que fazia em casa, nas nossas reuniões privadas. Dei às minhas funções, que posso dizer laboriosas, toda a exatidão e todo o devotamento de que fui capaz. Do ponto de vista administrativo, esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e lhes dar um caráter de gravidade, sem o qual o prestígio de assembléia séria logo teria desaparecido. Agora que minha tarefa está terminada e que o impulso foi dado, devo comunicar-vos a resolução que tomei, de futuramente renunciar a qualquer tipo de função na Sociedade, mesmo a de diretor de estudos. Não ambiciono senão um título: o de simples membro titular, com o qual me sentirei sempre honrado e feliz. O motivo de minha determinação está na multiplicidade de meus trabalhos, que aumentam diariamente pela extensão de minhas relações, considerando-se que, além daqueles que conheceis, preparo outros mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos estudos e por certo não absorverão menos de dez anos12. Ora, os trabalhos da Sociedade não deixam de tomar muito tempo, tanto na preparação quanto na coordenação e na redação final. Além disso, reclamam uma assiduidade por vezes prejudicial às minhas ocupações pessoais e tornam indispensável a iniciativa quase exclusiva que me conferistes. É por essa razão, senhores, que tantas vezes tive de tomar a palavra, lamentando que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem de suas luzes. Há muito eu desejava demitir-me de minhas funções; deixei isso bastante claro em diversas circunstâncias, seja aqui, seja em particular, a vários de meus colegas, notadamente ao Sr. Ledoyen. Tê-lo-ia feito mais cedo, sem receio de trazer perturbação à Sociedade, retirando-me ao meio do ano, mas poderia parecer uma defecção, além do que me veria obrigado a dar satisfação aos nossos adversários. Tive, pois, de cumprir a minha tarefa até o fim. Hoje, porém, que tais motivos não mais subsistem, apresso-me em vos dar parte de minha resolução, a fim de não entravar a escolha que fareis. É justo que cada um participe dos encargos e das honras. Há um ano a Sociedade viu crescer rapidamente a sua importância; o número de membros titulares triplicou em alguns meses; tendes numerosos correspondentes nos dois continentes, e os ouvintes teriam ultrapassado o limite do possível se não puséssemos um freio pela estrita execução do regulamento. Entre estes últimos, contastes as mais altas notabilidades sociais e mais de uma figura ilustrada. A pressa com que solicitam admissão em vossas sessões testemunha o interesse que elas despertam, não obstante a ausência de qualquer experimentação destinada a satisfazer a curiosidade ou, talvez, em razão de sua própria simplicidade. Se nem todos saem convencidos, o que seria exigir o impossível, as pessoas sérias, as que não vêm com a idéia preconcebida de denegrir, levam da seriedade de vossos trabalhos uma impressão que as predispõe a aprofundar essas questões. Aliás, não temos senão que aplaudir as restrições que fizemos à admissão de ouvintes estranhos, assim evitando uma multidão de curiosos importunos. A medida pela qual limitastes essa admissão a determinadas sessões, reservando as demais apenas para os membros da Sociedade, teve como resultado conceder-vos mais liberdade nos estudos, que poderiam ser dificultados pela presença de pessoas ainda não iniciadas e cuja simpatia não estivesse assegurada. Essas restrições parecerão muito naturais aos que conhecem a finalidade de nossa instituição e sabem que somos, antes de tudo, uma Sociedade de estudos e de pesquisas, e não uma arena de propaganda. É por essa razão que não admitimos em nossas fileiras aqueles que, não possuindo as primeiras noções da ciência, nos fariam perder tempo em demonstrações elementares, incessantemente repetidas. Desejaríamos, sem dúvida, a propagação das idéias que professamos, porque as julgamos úteis e, para isso, cada um de nós contribui com a sua parte. Sabemos, no entanto, que a convicção só é adquirida em observações seguidas, e não por meio de alguns fatos isolados, sem continuidade e sem raciocínio, contra os quais a incredulidade sempre poderá levantar objeções. Dir-se-á que um fato é sempre um fato; sem dúvida é um argumento irretorquível, desde que não seja contestado nem contestável. Quando um fato sai do círculo de nossas idéias e de nossos conhecimentos, à primeira vista parece impossível; quanto mais extraordinário for, maiores objeções levantará. Eis por que o contestam. Aquele que lhe sonda a causa e a descobre encontra-lhe uma base e uma razão de ser; compreende a sua possibilidade e, desde então, não mais o rejeita. Muitas vezes um fato não é inteligível senão por sua ligação com outros fatos; tomado isoladamente, pode parecer estranho, incrível, absurdo mesmo. Mas se for um dos elos da cadeia, se tiver uma base racional, se se puder explicá-lo, desaparecerá qualquer anomalia. Ora, para conceber esse encadeamento, para apreender esse conjunto a que somos conduzidos de conseqüência em conseqüência, é necessário em todas as coisas, e talvez no Espiritismo mais ainda, uma série de observações racionais. O raciocínio é, pois, um poderoso elemento de convicção, hoje mais do que nunca, em que as idéias positivas nos levam a saber o porquê e o como de cada coisa. Surpreendemo-nos com a persistente incredulidade, em matéria de Espiritismo, da parte de pessoas que viram, enquanto outras, que nada viram, são crentes inabaláveis. Seriam estas últimas criaturas superficiais, que aceitam sem exame tudo quanto se lhes diz? Não; é exatamente o contrário: os primeiros viram, mas não compreendem; os segundos não viram, mas compreendem; e somente compreendem porque raciocinam. O conjunto dos racio-cínios sobre os quais se apóiam os fatos constitui a ciência, ciência ainda muito imperfeita, é verdade, cujo apogeu ninguém pretende ter atingido; enfim, uma ciência em seus primórdios, e vossos estudos se dirigem para a pesquisa de tudo quanto possa alargá-la e constituí-la. Eis o que importa seja bem-sabido fora deste recinto, a fim de que não haja equívoco sobre o objetivo a que nos propomos; sobretudo, a fim de não pensarem encontrar, ao virem aqui, uma exibição de Espíritos a se oferecerem em espetáculo. A curiosidade tem um termo. Quando está satisfeita procura um novo motivo para distração; aquele que não se detém na superfície, que vê além do efeito material, tem sempre alguma coisa a aprender; para ele o raciocínio é uma fonte inesgotável: não tem limites. Aliás, nossa linha de conduta não poderia ser melhor traçada do que por essas admiráveis palavras que o Espírito São Luís nos dirigiu, e que não deveríamos jamais perder de vista: “Zombaram das mesas girantes, mas não zombarão jamais da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham nas comunicações sérias. Que vejam aqui, que escutem ali, mas que entre vós haja compreensão e amor.”
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Mês Julho
Ano 1859