Capítulo 7
Facilitando-nos a tarefa, Druso apresentou-nos, mais intimamente, ao Ministro Sânzio, informando que estudávamos, em alguns problemas da Mansão, as leis de causalidade. Anelando penetrar mais amplas esferas de conhecimento, acerca do destino, indagávamos sobre a dor… O grande mensageiro como que abdicou por momentos a elevada posição hierárquica que lhe quadrava à personalidade distinta, e, tanto pelo olhar quanto pela inflexão da voz, parecia agora mais particularmente associado a nós, mostrando-se mais à vontade. — A dor, sim, a dor… — Murmurou, compadecido, como se auscultasse transcendente questão nos escaninhos da própria alma. E fitando-nos, a Hilário e a mim, com inesperada ternura, acentuou, quase doce: — Estudo-a, igualmente, filhos meus. Sou funcionário humilde dos abismos. Trago comigo a penúria e a desolação de muitos. Conheço irmãos nossos, portadores do estigma de padecimentos atrozes, que se encontram animalizados, há séculos, nos despenhadeiros infernais; entretanto, cruzando as trevas densas, embora o enigma da dor me dilacere o coração, nunca surpreendi criatura alguma esquecida pela Divina Bondade. Registando-lhe a palavra amorosa e sábia, inexprimível sentimento me invadiu a alma toda. Até ali, não obstante ligeiramente, convivera com numerosos Instrutores. De muitos deles conseguira ensinamentos e observações magistrais, contudo, nenhum, até então, me trouxera ao espírito aquele amálgama de enlevo e carinho, admiração e respeito que me assomava ao sentimento. Enquanto Sânzio falava, generoso, cintilações roxo-prateadas nimbavam-lhe a cabeça, mas não era a sua dignidade exterior que me fascinava. Era o caricioso magnetismo que ele sabia exteriorizar. Guardava a ideia de achar-me à frente de meu pai ou de minha própria mãe, ao lado de quem me cabia dobrar os joelhos. Sem que me fosse possível governar a minha comoção, lágrimas ardentes rolavam-me pela face. Não pude saber se Hilário estava preso ao mesmo estado dalma, porque, diante de mim, passei a ver Sânzio somente, dominado por sua grandeza humilde. De onde vinha, Senhor, — perguntava sem palavras nos refolhos do coração, — aquele ser tocado de gloriosa simplicidade? Onde conhecera eu aqueles olhos belos e translúcidos? Em que lugar lhe recebera, um dia, o orvalho de amor divino, assim como o verme perdido na furna assimila a bênção do Sol? O Ministro percebeu-me a emotividade, como o professor assinala a perturbação do aprendiz, e, qual se quisesse acordar-me para a bênção das horas, avançou para mim e observou carinhosamente: — Pergunte, meu filho, sobre questões não pessoais, e responderei quanto puder. Anotei-lhe a nobre intenção e confiei-me ao equilíbrio. — Grande benfeitor, — exclamei, comovido, buscando olvidar os meus próprios sentimentos, — poderemos ouvi-lo, de algum modo, acerca do “carma”? Sânzio retomou a posição que lhe era habitual, junto ao espelho cristalino, e obtemperou: — Sim, o “carma”, expressão vulgarizada entre os hindus, que em sânscrito quer dizer “ação”, a rigor, designa “causa e efeito”, de vez que toda ação ou movimento deriva de causa ou impulsos anteriores. Para nós expressará a conta de cada um, englobando os créditos e os débitos que, em particular, nos digam respeito. Por isso mesmo, há conta dessa natureza, não apenas catalogando e definindo individualidades, mas também povos e raças, estados e instituições. O Ministro fez uma pausa, como quem dava a perceber que o assunto era complexo, e continuou: — Para melhor entender o “carma” ou “conta do destino criada por nós mesmos”, convém lembrar que o Governo da Vida possui igualmente o seu sistema de contabilidade, a se lhe expressar no mecanismo de justiça inalienável. Se no círculo das atividades terrenas qualquer organização precisa estabelecer um regime de contas para basear as tarefas que lhe falem à responsabilidade, a Casa de Deus, que é todo o Universo, não viveria igualmente sem ordem. A Administração Divina, por isso mesmo, dispõe de sábios departamentos para relacionar, conservar, comandar e engrandecer a Vida Cósmica, tudo pautando sob a magnanimidade do mais amplo amor e da mais criteriosa justiça. Nas sublimadas regiões celestes de cada orbe entregue à inteligência e à razão, ao trabalho e ao progresso dos filhos de Deus, fulguram os gênios angélicos, encarregados do rendimento e da beleza, do aprimoramento e da ascensão da Obra Excelsa, com ministérios apropriados à concessão de empréstimos e moratórias, créditos especiais e recursos extraordinários a todos os Espíritos encarnados ou desencarnados, que os mereçam, em função dos serviços referentes ao Bem Eterno; e, nas regiões atormentadas como esta, varridas por ciclones de dor regenerativa, temos os poderes competentes para promover a cobrança e a fiscalização, o reajustamento e a recuperação de quantos se fazem devedores complicados ante a Divina Justiça, poderes que têm a função de purificar os caminhos evolutivos e circunscrever as manifestações do mal. As religiões na Terra, por esse motivo, procederam acertadamente, localizando o Céu nas Esferas superiores e situando o Inferno nas Zonas inferiores, porquanto, nas primeiras, encontramos a crescente glorificação do Universo e, nas segundas, a purgação e a regeneração indispensáveis à vida, para que a vida se acrisole e se eleve ao fulgor dos cimos. Ante o intervalo espontâneo e reparando que o Ministro se propunha a manter contato conosco, através da conversação, aduzi, com interesse: — Comove saber que sendo a Providência Divina a Magnanimidade Perfeita, gerando valores infinitos de amor para distribuí-los com abundância em favor de todas as criaturas, é também a Equidade Vigilante, na direção e na aplicação dos bens universais. — Efetivamente, não poderia ser de outro modo, — ajuntou Sânzio, bondoso. — Em assuntos da lei de causa e efeito, é imperioso não olvidar que todos os acervos da vida, desde as mais remotas constelações ao último grânulo de poeira subatômica, pertencem a Deus, cujos inabordáveis desígnios podem alterar e renovar, anular ou reconstruir tudo o que está feito. Assim, pois, somos simples usufrutuários da Natureza que consubstancia os tesouros do Senhor, com responsabilidade em todos os nossos atos, desde que já possuamos algum discernimento. O Espírito, seja onde for, encarnado ou desencarnado, na Terra ou noutros mundos, gasta, em verdade, o que lhe não pertence, recebendo por empréstimos do Eterno Pai os recursos de que se vale para efetuar a própria sublimação no conhecimento e na virtude. Patrimônios materiais e riquezas da inteligência, processos e veículos de manifestação, tempo e forma, afeições e rótulos honoríficos de qualquer procedência são de propriedade do Todo-Misericordioso, que no-los concede a título precário, a fim de que venhamos a utilizá-los no aprimoramento de nós mesmos, marchando nas largas linhas da experiência, de modo a entrarmos na posse definitiva dos valores eternos, sintetizados no Amor e na Sabedoria com que, em futuro remoto, Lhe retrataremos a Glória Soberana. Desde o elétron aos gigantes astronômicos da Tela Cósmica, tudo constitui reservas das energias de Deus, que usamos, em nosso proveito, por permissão d’Ele, de sorte a promovermos, com firmeza, nossa própria elevação a Sua Majestade Sublime. Dessa maneira, é fácil perceber que, após conquistarmos a coroa da razão, de tudo se nos pedirá contas no momento oportuno, mesmo porque não há progresso sem justiça na aferição de valores. Lembrei-me instintivamente da nossa errada conceituação de vida na Terra, quando nos achamos sempre dispostos a senhorear indebitamente os recursos do estágio humano, em terras e casas, títulos e favores, prerrogativas e afetos, arrastando, por toda a parte, as algemas do mais gritante egoísmo… Sânzio registou-me os pensamentos, porque acentuou com paternal sorriso, após ligeira pausa: — Realmente, no mundo, o homem inteligente deve estar farto de saber que todo conceito de propriedade exclusiva não passa de simples suposição. Por empréstimo, sim, todos os valores da existência lhe são adjudicados pela Providência Divina, por determinado tempo, de vez que a morte funciona como juiz inexorável, transferindo os bens de certas mãos para outras e marcando com inequívoca exatidão o proveito que cada Espírito extrai das vantagens e concessões que lhe foram entregues pelos Agentes da Infinita Bondade. Aí, vemos os princípios de causa e efeito, em toda a força de sua manifestação, porque, no uso ou no abuso das reservas da vida que representam a eterna Propriedade de Deus, cada alma cria na própria consciência os créditos e os débitos que lhe atrairão inelutavelmente as alegrias e as dores, as facilidades e os obstáculos do caminho. Quanto mais amplitude em nossos conhecimentos, mais responsabilidade em nossas ações. Através de nossos pensamentos, palavras e atos, que nos fluem, invariáveis, do coração, gastamos e transformamos constantemente as energias do Senhor, em nossa viagem evolutiva, nos setores da experiência, e, do quilate de nossas intenções e aplicações, nos sentimentos e práticas da marcha, a vida organiza, em nós mesmos, a nossa conta agradável ou desagradável ante as Leis do Destino… Nesse ponto do valioso esclarecimento, Hilário inquiriu com humildade: — Amado Instrutor, à face da gravidade de que a lição se reveste para nós, que devemos entender como sendo “bem” e “mal”?
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Nome do Capítulo Conversação preciosa