XIX
Lembram-se de Paulo, em Filipes? A pitonisa local (médium), tomada de um espírito desses, começou a bradar em altas vozes: "Recebei os enviados de Deus Altíssimo! Eles anunciam a salvação! ... Não são homens, são anjos do Senhor!" Paulo, um tanto perplexo, de início, viu logo do que se tratava e comentou com Silas - que estava favoravelmente impressionado porque o espírito falava em nome de Deus: .. Que fizemos para receber elogios? Dia e noite estamos lutando contra as imperfeições da nossa alma!" É o que conta Emmanuel, ampliando a narrativa de Atos 16,16-23. E, muitas vezes, não há recado algum a transmitir. É o próprio médium que procura influenciar ou decidir situações, investindo-se da autoridade presumida deste ou daquele espírito da confiança do grupo. Pode ocorrer, também, que espíritos ardilosos e envolventes estejam usando o nome de antigos orientadores, que se afastaram por causa dos desajustes e conflitos surgidos no próprio grupo ... De mais a mais, as entidades responsáveis e sérias não ficam à disposição dos médiuns ou de quem quer que seja para assessorá-los nos mínimos detalhes da vida. Muita gente se deixa enganar porque assim o quer, aceitando tudo quanto venha de médiuns fascinados e fascinadores. Os espíritos confiáveis, mesmo quando tem de advertir, fazem-no com respeito ao livre-arbítrio, e à condição daqueles a quem se dirigem. Preferem aconselhar de maneira indireta, que sirva para todo o grupo, sem agredir, sem proibir, sem expor ninguém ao ridículo ou à repreensão pública ou reservada, e são muito sombrios, quase avaros no elogio. Muitas vezes percebi, ou senti, em falas de nossos orientadores espirituais, veladas e sutis advertências ou conselhos, mas nunca uma censura ou reprimenda, ainda que eu próprio tenha achado merecê-la, por alguma atitude impensada ou francamente errada. E mais: se dependesse de algum elogio deles para trabalhar, eu não teria movido uma palha em todos esses anos de intensa atividade. Nunca me disseram que o meu trabalho foi ótimo, que eu sou formidável, que está garantido meu lugar em 'Nosso Lar' ou que seres luminosos estão à minha espera quando eu partir. Em raríssimas oportunidades, tomo a iniciativa de solicitar-lhes alguma orientação específica sobre este ou aquele problema; nunca, porém. Estes problemas são pessoais, meus, mas relacionados com o trabalho que está sendo desenvolvido. Parto do princípio de que, se eles entenderem ser necessário diriam algo a respeito, falo-ão sem que eu o solicite. Mesmo quando me perguntam se tenho alguma pergunta a fazer, costumo responder que, melhor do que eu, eles sabem o que deve ou não ser dito. Até agora, temos nos entendido muito bem com esta severa dieta de conversas de caráter pessoal. Quando percebem, esses queridos amigos e orientadores, que me encontro em alguma situação mais complexa e de caráter particular, costumam falar sobre o tema, na pequena conversa inicial das nossas reuniões habituais. Ninguém, contudo, chega a perceber que se trata de alguma questão pessoal, porque a fala tem o caráter genérico de um ensinamento ou de uma observação que poderia servir para vários dos componentes do grupo. E geralmennte servem mesmo. Em suma: eles conversam sobre teses doutrinárias e não sobre problemas íntimos que cada um deve resolver dentro de suas forças e recursos. Também não me dizem se devemos tirar fulano do grupo ou admitir sicrano. Isso é problema nosso. Certa vez, quando tive de tomar uma decisão que eu sabia conter, em potencial, conseqüências da maior gravidade, não me disseram uma só palavra de estímulo ou de desaprovação. Somente depois de tudo decidido (livremente e com total responsabilidade minha), veio uma palavra psicografada. Tudo muito simples e direto: "Sua atitude está correta" - escreveu um dos queridos companheiros. "Aja, porém, com prudência. É preciso respeitar as opções de cada um. Sua preocupação é justa: evite, contudo, a inquietação. Não somos, pessoalmente, responsáveis pelos atos alheios." Como se observa, uma palavra tranqüilizadora apenas, e, como sempre, despojada de elogios ou fanfarras. Sentiram que eu tinha necessidade disso, porque é difícil, às vezes, ante a complexidade de certas atitudes, ter a certeza de que agimos da melhor maneira possível. Não teria sido cometido algum erro de avaliação? Será que não exorbitamos, neste ou naquele ponto? Devemos falar ou calar? Quando é que o silêncio é omissão culposa e quando é a prudência necessária? O máximo que poderão fazer é isso - uma palavra posterior, de apoio moral ou de compreensão: nunca uma ordem a ser cumprida, um elogio descabido ou, presumivelmente justificável. Para que elogiar aquele que apenas cumpriu o seu dever? Certa vez, Regina queixou-se desse aparente abandono em que, às vezes, nos sentimos, como se nos houvessem esquecido. "Estamos sempre com você" - foi a resposta. Mas, quando a criança começa a andar, deve passar a ser supervisionada de mais longe para que possa aprender a ficar de pé sozinha e dar os primeiros passos, ainda incertos, para um dia saber caminhar com desembaraço, pelas suas próprias forças." Cuidado, pois, com mensagens pessoais e 'recados' supostamente mediúnicos, que contenham verdadeiras 'broncas e reprimendas ou reversamente elogios' - merecidos ou não. Ou a fonte não é muito boa, ou o médium não está sendo fiel na transmissão. Como dizia o querido companheiro mencionado alhures, neste livro, os espíritos não são de "botar azeitona na empada alheia" ... Ficou dito aí que, às vezes, o médium é que está extrapolando de suas verdadeiras funções ao transmitir esta ou aquela informação. Isso ocorre também quando, fascinado pela sua própria mediunidade, para alardear sua intimidade com espíritos de elevada condição ou pelo prazer duvidoso de fazer 'revelações' inesperadas, dispõe-se a divulgar, sem nenhum critério, informações de que venha, eventualmente, tomar conhecimento. Muitas vezes, contudo, o médium não o faz por vaidade, mas pelo legítimo interesse em ajudar, o que, sob certas circunstâncias, pode ser desastroso. A informação pode ter vindo apenas para facilitar a compreensão do problema individual a fim de que a pessoa em dificuldade tenha uma palavra de apoio, orientação e consolo, sem que seja necessário ou recomendável transmitir-lhe também a informação. Regina confessa que, na inexperiência dos primeiros tempos de exercício de suas faculdades, cometeu equívocos dessa natureza. Quando procurada por algum amigo ou conhecido em dificuldade, ouvia pacientemente a exposição e começava a 'ver' a situação espiritual, a razão dos problemas e até o possível encaminhamento de soluções. Arriscava-se a fazer certas 'previsões'. Coisas assim - Olha, pode ficar calma. A coisa vai resolver-se desta ou daquela maneira. Ou: - Não se preocupe com isso. Você vai arranjar logo um emprego ainda melhor do que esse. E assim acontecia. Bem cedo, ela reconheceu a tolice que estava fazendo. Em pouco tempo, estaria convertida numa verdadeira pitonisa ou ledora de buena dicha, porque, no primeiro tropeço, depois daquele, a tendência da pessoa era procurá-la novamente. Quando percebeu que estava criando em alguns amigos mais chegados essa dependência, Regina cortou sumariamente essa atividade, pois estava sendo assediada por pessoas que queriam saber "o que ela estava vendo" para elas. A faculdade desses flashes de intuição ela continuou tendo, mas passou a ajudar as pessoas no aconselhamento e no consolo, sem 'profecias ou revelações' de nenhuma espécie. A informação recebida por via mediúnica é introduzida naturalmente no fluxo da conversa, sem nenhum caráter especial, como opinião e não como previsão. Às vezes, quando explicitamente autorizada pelos amigos espirituais, ela transmite à pessoa informes acerca do passado ou sobre suas dificuldades atuais. Observa posteriormente, que tais revelações trazem sempre uma boa orientação e esclarecimento úteis ao caso. Quanto à nossa atitude pessoal, podemos opinar sobre um problema alheio, pois, quando em crises mais sérias, sempre gostamos, nós próprios de ouvir um amigo em quem confiamos; nunca, porém, devemos interferir com o livre-arbítrio de ninguém, nem tomar decisões pelos outros. Cada responde por si, perante as leis de Deus. Os próprios amigos espirituais respeitam com muita firmeza nosso livre-arbítrio. Eles nos esclarecem e nos orientam, mas nunca decidem nós, nem mesmo quando percebem que estamos caminhando para cair dentro do poço. Se é nosso propósito deliberado correr o risco e cair, eles não o impedem. Mais tarde, vão lá nos estender as mãos, com a mesma atitude amorosa e compreensiva de sempre, a mesma dedicação imperturbável. Sem a menor censura. 6. AINDA A DISPONIBILIDADE DISCIPLINADA Ainda temos, contudo, algo a dizer sobre dois importantes aspectos da mediunidade: o da disponibilidade do médium e o da disciplina. Tratamo-las isoladamente, vejamos agora, sob outro ângulo, como interagem. É certo, como ficou dito, que nunca se sabe quando e onde alguém irá precisar de nossa ajuda, através de uma palavra de consolo, de um passe ou de um esclarecimento tranqüilizador; mas é igualmente certo que a tarefa da mediunidade tem de ser disciplinada. Como conciliar tendências e solicitações que, tão nitidamente, se opõem? Creio que alguns exemplos nos levarão a uma conceituação mais nítida do problema. Certa vez, Regina internou-se num hospital para cuidar de uma grave crise de saúde.
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Nome do Capítulo O médium em ação