Foi localizada numa enfermaria para três leitos, cabendo-lhe o do meio, entre duas outras pacientes. À sua esquerda, ficava uma senhora com um severo distúrbio de vesícula, sob dores intensas. Estava tomando soro e gemia continuamente. Era duro ficar ali ao lado, assistindo àquela aflição, sem nada poder fazer. Ou será que havia algo a fazer? E se conseguisse dar um passe nela? - pensou Regina. Reconhecia, contudo, a dificuldade da situação. Primeiro, porque estava num hospital e ela própria em precário estado de saúde. Segundo: como a mulher consideraria o assunto? Estava nesse dilema, quando viu aproximar-se um amigo espiritual (desencarnado) que lhe disse, simplesmente: - Muito bem, minha irmã; vamos ajudar a nossa companheira.
Regina levantou-se e foi até o leito da outra. Sentou-se e perguntou-lhe se ela não queria que lhe fizesse uma massagem onde estava doendo. - Quem sabe, - comentou, - esquentando um pouco o local, não melhoraria?
- Ah, minha filha - respondeu a pobre senhora -, faça qualquer coisa.
Esta dor me mata!
Regina viu, então, que o amigo espiritual colocava-se à sua frente, do outro lado do leito, junto da paciente. Levemente, enquanto orava, Regina começou a massagear a região do epigastro da senhora doente. Os gemidos foram se apagando lentamente, até que se extinguiram e ela adormeceu profundamente, coisa que não fazia há muito tempo. Regina voltou para o seu leito e deitou-se.
No dia seguinte, ao acordar, a vizinha estava sentada no leito, sorridente e feliz, esperando pelo café da manhã. Regina perguntou-lhe como se sentia.
A senhora dirigiu-lhe um olhar enigmático e perguntou: - Você fez alguma coisa comigo ontem, não fez?
- Como assim? Não fiz nada ... Só a massagem ...
- Não. Você fez alguma coisa, sim. Para uma dor horrível daquela passar assim ... Eu já estou há uma semana neste hospital, sofrendo horrores ...
- Bem, admitiu Regina, enquanto eu fazia a massagem, também fiz uma prece.
- Olha, minha filha, seja lá o que for que você fez, Deus te abençoe. Não vou discutir.
Estou achando que, agora, vou ficar boa.
Aí está uma tarefa imprevista, em local considerado 'difícil' - já imaginou se um médico ou enfermeira intolerantes 'criassem um caso'? - e com uma pessoa que não tinha, e continuou não tendo, noção do que se passara. Nem por isso, deixou de haver a oportunidade de ajudar alguém que sofria.
Seria desumano recusar uma ajuda desse tipo somente porque o momento nos parece inoportuno ou o local impróprio. A dor e a necessidade não escolhem hora nem local.
Nem as nossas, nem as alheias. Não custa contornar certas dificuldades momentâneas e servir, uma vez que se saiba como fazê-lo. Cruzar os braços, numa hora dessas e virar o rosto, indiferente ao drama alheio, quando se pode fazer algo, é gesto de covardia moral e ausência de solidariedade.
Há, porém, uma diferença sensível entre atender a uma necessidade e a um capricho ou pressão.
Vamos ao exemplo ilustrativo?
Em princípio, o trabalho mediúnico deve ser realizado no horário regulamentar e sob as condições habituais dos grupos a isso destinados. O médium não se livra, contudo, de solicitações extemporâneas e, se não impuser uma severa disciplina, poderá perder o controle das manifestações e 'ser tomado' em qualquer lugar e a qualquer hora, como acontece com muitos que não se cuidam. Tais solicitações podem vir de pessoas encarnadas ou de espíritos, mas a disciplina deve ser respeitada, a não ser que a situação seja de crítica emergência.
Há pessoas que, simplesmente por se saberem na presença de um médium atuante, querem logo 'falar' com os espíritos ou fazer 'consultas', às vezes, até por simples curiosidade. Como quem pede: - Faz uma mágica aí para mim!
O melhor procedimento, nesses casos, é ouvir, aconselhar o que for possível, tomar o nome da pessoa e colocá-lo num caderno, no qual são relacionados os que nos solicitam ajuda. Nas horas de recolhimento e prece, ou o culto semanal, no lar, tais pessoas serão lembradas em nossos pedidos. Em casos especiais poderá até ser solicitada uma orientação específica. Não, porém que se faça uma sessão particular para cada pedido que se receba.
Quando se trata de entidade desencarnada que a procura com queixas, pedido de socorro ou recados para alguém, Regina costuma lhes dar o endereço do grupo mediúnico ao qual serve, convidando-as a comparecerem e entenderem-se com os seus mentores e amigos espirituais. Em casos realmente excepcionais, ela pode até concordar em dar algum recado, quando entender que o assunto é relevante e as condições são favoráveis.
Certo dia, por exemplo, ela estava dando uma aula, quando adentrou, pela sala, uma entidade desencarnada, em estado de agitação. Era um homem alto, trajado com simplicidade e com um cacoete característico: a todo instante, afastava o cabelo da testa com a mão esquerda. Dirigiu-se a ela e disse que queria dar um recado urgente à secretária da escola.
Ora, Regina estava em plena aula, em frente aos alunos. Hora e local absolutamente impróprios, portanto. Mentalmente 'falou-lhe'que sentia muito, mas, no momento, era impossível atendê-lo, e acrescentou: -se o recado é mesmo urgente e necessário, você me espera lá fora e, quando terminar a aula, poderei atendê-lo.
Ele pareceu ter compreendido e se retirou, enquanto Regina continuou com o seu trabalho. Terminada a aula, os alunos já fora da sala para o intervalo de quinze minutos, ele voltou. Regina sentou-se e pediu-lhe que falasse. Mas não era bem isso o que ele desejava. Ele queria falar diretamente com a moça, ou seja, incorporar-se para conversar com a pessoa. Nova recusa de Regina, decidida a manter um mínimo de disciplina.
- Sinto muito - disse ela. Aqui não é o lugar nem o momento para isso.
Se você quiser mandar um recado. concordo em levá-lo. Deixar você falar diretamente, não posso. Ele, então, resolveu dar o recado que, de fato, revelou-se de grande importância para a sua destinatária. Tratava-se de problema grave de saúde de uma criança que fora filha da entidade - problema esse de que a própria mãe ainda não tinha tomado conhecimento.
Detalhe importante: a moça confirmou que, 'em vida', o homem tinha o cacoete de tirar, com a mão, o cabelo caído sobre a testa.
Este balanceamento entre estar à disposição para a ajuda, mas manter um regime de rigorosa disciplina de trabalho, é um dos segredos do êxito na tarefa mediúnica. São essas as coisas que precisam ser aprendidas quanto ao exercício da mediunidade, não a mediunidade em si. Por isso, não tenho grande entusiasmo pela expressão: desenvolvimento da mediunidade, e nem pela metodologia e as técnicas utilizadas por muitas pessoas para treinamento dos médiuns em potencial. Continuo afirmando que não é a mediunidade que se desenvolve, mas a pessoa do médium, ou, melhor ainda, o seu caráter, bom senso, discernimento, comportamento, a sua maneira, enfim, de empregar a serviço do próximo as faculdades de que foi dotado. E continuo dizendo que a mediunidade deve ser treinada no próprio trabalho e nunca torcida para aqui ou para ali, forçando-se este ou aquele aspecto, mas acompanhada, assistida, amparada.
Quando conveniente e discretamente apoiado por alguém que conheça bem a doutrina e tenha alguma experiência no trato com médiuns e espíritos, o próprio médium vai desbravando seus caminhos, sem padronizar sua mediunidade pela de outros companheiros de trabalho. Cada médium é um universo à parte e, dentro de algumas normas gerais do bom senso, deve ficar com espaço suficiente para movimentar-se, segundo as peculiaridades de sua personalidade.
Por isso, em lugar de escrever um manual para desenvolvimento da mediunidade, com mil e uma regrinhas para serem decoradas e aplicadas (e, portanto, policiadas por alguém), preferi discorrer sobre a mediunidade em si, sugerindo que cada médium em potencial crie seu espaço e suas técnicas e descubra seus caminhos. Que se localize, enfim, no contexto da mediunidade.
7. O APOIO DOS AMIGOS ESPIRITUAIS
Os espíritos amigos não colocam o médium numa redoma invisível de proteção simplesmente porque ele está exercendo suas faculdades, mesmo que com a maior dedicação. Eles proporcionam certa cobertura, assistem o médium em suas dificuldades maiores, proporcionam-lhe uma palavra ocasional de consolo ou estímulo, mas, quando realmente responsáveis e esclarecidos nada têm de 'paparicadores', como se diz popularmente ... O médium é uma pessoa como as outras e tem de ter suas próprias experiências, sujeita, a erros e acertos, como os demais seres humanos em processo evolutivo. Nã é correto mandar um filho ou uma filha à escola, fazer-lhes todos os deveres e substituí-los nas provas avaliadoras do conhecimento adquirido.
A vida do médium não é, pois, um mar de rosas, mesmo porque a atividade mediúnica, no contexto da doutrina espírita, só é entendida como doação, como testemunho, inteiramente livre de qualquer proveito pessoal ou profissionalismo.
Isso não quer dizer, porém, que o exercício correto da mediunidade não tenha suas compensações, imponderáveis, mas não menos reais. Em primeiro lugar, o caráter eminentemente consolador que proporciona a tarefa, como dever cumprido, não por obrigação, mas como um privilégio, este sim, o de servir. Por outro lado, mesmo um tanto severas, às vezes, ou aparentemente indiferentes, as entidades mais evoluídas que se incumbem de ajudar o médium na sua tarefa são pacientes, tranqüilas, carinhosas e muito fiel e devotadas.