As vezes, são pessoas encarnadas que a visitam, vêm acompanhados de entidades desencarnadas, se retiram, deixam lá os 'acompanhantes', sem o perceberem naturalmente. Pode ser que resolvam ficar porque se sentem-se melhor ali, porque se 'esquecem' de acompanhar as pessoas com as quais vieram ou, então, porque a porta está fechada e não sabem como sair. São pessoas inofensivas; só estão perdidas, carentes, um tanto alienadas, sem perceberem a situação em que vivem.
Em tais casos, Regina costuma recolher-se para fazer uma prece. Sem tardança aparece uma entidade amiga que recolhe o pobre errante.
Uma dessas entidades - uma mulher - ficou depois que as visitas, com as quais viera, se retiraram. Só algum tempo depois Regina foi dar com ela, encolhida a um canto da casa, chorosa, infeliz, lamentando-se porque era o dia das mães e ninguém se lembrara dela. Sua aparência física era bem o retrato do seu desalento. Regina consolou-a carinhosamente e ela se retirou.
Além de atender aos espíritos, é preciso também dispor de algum espaço para os encarnados, amigos, conhecidos e desconhecidos que, na rua, em casa, no trabalho ou na condução, buscam-nos para uma palavra de conforto, de orientação ou simplesmente para um desabafo. É incrível pensar, mas verdadeiro, que muitas pessoas não dispõem de quem as ouça ! A maioria quer falar, contar histórias pessoais e alheias, discorrer sobre este ou aquele assunto, mas poucos são os que conhecem a sutil arte de ouvir. E como é bom encontrar alguém com essa rara qualidade, quando estamos oprimidos por aflições e conflitos íntimos ! Se, contudo, estivermos do 'outro lado', ou seja, do lado que ouve e não do que precisa falar, tenhamos paciência, seja onde for. Se o ouvinte dispõe de mediunidade, deve estar em condições de captar uma ou outra sugestão, soprada, sugerida ou intuída do mundo espiritual. Às vezes, é de uma importância transcendental uma palavra bem-escolhida e bem-colocada no coração aflito.
É certo que essa atividade pode até cansar, se muito constante. Acabamos, sem querer, assumindo um pouco daquelas cargas e até envolvendo-nos um tanto com problemas emocionais alheios, mas, afinal de contas, não é isso mesmo que se chama solidariedade? Não é isso que buscamos quando também estamos em crise? Ou seja, alguém que pense conosco, que nos ouça e que aceite partilhar a dor que nos aflige?
Um dia havia sido particularmente difícil para Regina, que fora procurada por várias pessoas com problemas pessoais. Eram daquelas que costumam ser classificadas como 'difíceis de serem ajudadas'. Isso porque querem que as coisas mudem, mas não admitem mudar, elas próprias, ou querem soluções fáceis, que não exijam sacrifícios ou renúncias. As soluções propostas precisam ser do seu agrado. Tem de ser aquilo que lhes convém ao amor próprio e ao egoísmo. Em suma, querem receber tudo sem dar coisa alguma de si. Não vai nisto nenhuma crítica unilateral, porque acho que todos nós temos tendência semelhante. Ainda há pouco, queixava-se um espírito, numa reunião mediúnica, das dificuldades que iria encontrar no mundo ao reencarnar-se. Não seria melhor, propunha ele, esperar que o mundo melhorasse um pouco? Mas, afinal de contas, perguntei-lhe eu, quem deixou o mundo nesse estado em que se encontra senão nós mesmos, no passado? E as nossas responsabilidades, como ficam?
Em verdade, se é que é válida minha experiência pessoal de anos e anos de convivência com seres desencarnados, eu diria que a esmagadora maioria dos que se envolveram gravemente com as leis divinas reluta ante a perspectiva de reencarnar-se e adia o quanto pode esse momento crucial de voltar à carne, pois sabem muito bem o que os espera.
Pois bem, após um dia particularmente difícil com gente (encarnada) inconformada e desejosa de soluções miraculosas, Regina teve o seu próprio desabafo: - Puxa - pensou ela - hoje só me apareceu gente difícil! Estou exausta.
Prontamente, um amigo espiritual captou-lhe o estado emocional e comentou: - Se Jesus não mandar os casos difíceis para os seus amigos, para quem vai mandá- los?
Lição aprendida.
4. ASSÉDIOS
Por outro lado, o médium está exposto a assédios de antigos comparsas ou de espíritos teleguiados, empenhados na tarefa de criar complicações, especialmente por causa do trabalho que ele vem realizando como médium. Como esse aspecto ficou tratado com maior profundidade em Diálogo com as sombras, é apenas mencionado aqui. São espíritos que aparecem com propostas sutis, ou não tanto, com ameaças e advertências ou com projetos mirabolantes, prometendo fenômenos insólitos, posições de destaque, revelações etc.. desde que o médium faça isto ou aquilo, deixe de fazer tal ou qual tarefa, e coisas dessa ordem.
Tanto o médium como os demais componentes de um grupo empenhado em trabalho sério e proveitoso podem ser submetidos a uma severa e incômoda vigilância por parte dos espíritos que estão sendo trazidos à doutrinação e ao diálogo. Muitas vezes, eles fazem parte de antigas e bem-estruturadas instituições devotadas a um trabalho que, para eles, é de vital importância para se protegerem; e se defendem valentemente de qualquer tentativa de interferência nos seus planos, nas suas vinganças e perturbações. Também vimos isso em Diálogos com as Sombras. O médium deve estar particularmente atento a essa incômoda vigilância. Pretendem os espíritos ver se dizemos uma coisa e fazemos outra e acabam, como é de se esperar, verificando que somos pessoas iguais a eles próprios, com imperfeições e compromissos perante a lei, com a possível diferença de que estamos tentando fazer algo para melhorar nosso 'visual' espiritual e, simultaneamente, servir àqueles que ainda não se decidiram a fazê- lo.
Regina prefere aqueles que se aproximam e falam francamente ao que vieram - apresentar propostas, fazer sugestões ou trazer ameaças - aos que se empenham num trabalho de pressão psicológica, pelo silêncio, seguindo-a por toda a parte, com uma única mensagem inarticulada: - Cuidado, hein?Estou de olho em você!
Certa vez, ela foi acompanhada, durante toda uma semana, dia e noite pelo espírito de uma mulher que se apresentava com hábito de freira. Onde quer que Regina estivesse, lá estava a freira, as mãos cruzadas por dentro das mangas amplas do hábito, o olhar atento, a boca fechada. Em tais situações, é preciso manter a calma, não se irritar nem perder o equilíbrio, que é o que eles desejam.
De outra vez, Regina foi assediada, durante cerca de um mês por uma entidade ligada à umbanda, que lhe fazia ameaças, à espera de uma 'brecha' .
Não há dúvida de que Regina ficara exposta a tal situação por causa de um descuido seu. A entidade sentia-se ofendida por certo comentário não muito fraterno, que Regina havia deixado escapar sobre a respeitável seita num momento de invigilância. O espírito a seguia, dia e noite, até mesmo em seus desdobramentos. Vivia literalmente atrás dela, com ameaças e pressões. Até que Regina acenou a bandeira da paz.
Convidou-o a sentar-se para uma conversa franca e leal. Começou com um pedido de perdão. Reconhecia que havia sido leviana no seu comentário e infeliz na maneira de dizer as coisas, mas que nada tinha de pessoal contra a umbanda; muito pelo contrário, nutria até um sentimento de respeito e gratidão, porque, em momento crítico de sua vida, fora beneficiada em uma casa umbandista que cuidara de delicado problema de sua saúde física. Revelou ao espírito o nome da entidade que a socorrera.
Felizmente para ela, o espírito zangado a conhecia e isto parece tê-lo tranqüilizado.
- Afinal de contas - disse ela -, somos todos filhos de Deus. Foi apenas um mal- entendido. Por favor, vamos ser amigos.
Selou -se a paz e o companheiro deixou de seguir seus passos.
5. O TRATO COM OS ESPÍRITOS
Não é, pois, pelo exercício de suas faculdades que o médium irá ficar ao abrigo de pressões e assédios. Pode ocorrer até o oposto: precisamente por estar a exercê-la e 'incomodando' certos espíritos, que não desejam abandonar suas paixões, é que o médium ficará mais exposto a tais pressões, ameaças e intimidações. Não que ele vá sofrer as conseqüências do seu trabalho bem-intencionado, o que seria equivalente a ser vitimado pelo seu desejo de servir e de ajudar aos que sofrem. O trabalho feito com critério e bom senso terá sempre a cobertura necessária dos mentores desencarnados do grupo. Se, porém, o grupo se desarmoniza e entra em colapso, divergências, rivalidades e conflitos, então, salve-se quem puder, enquanto é tempo, pois caem as guardas e os amigos espirituais nada mais podem fazer, embora o lamentem. Isto acontece, com freqüência, aos médiuns que se enamoram de suas próprias faculdades e aos dirigentes que se deixam envolver nessa atmosfera de endeusamento, de guruísmo, convertendo o médium num oráculo infalível.
Também não é tudo ação dos espíritos, como pensa muita gente. Como dizia o caro Deolindo Amorim, há pessoas que dão uma topada e atribuem logo o incidente aos espíritos. É verdade isso. Se caem é porque alguma entidade as empurrou; se agridem alguém verbalmente, por pura falta de educação ou caridade, foram os espíritos que 'atuaram'. Em suma, tudo é culpa dos 'obsessores'.
Outros vivem a repetir que 'os guias' disseram isto ou aquilo; mandaram fazer assim ou assado. Ou dão 'recados' incongruentes de entidades, cujos nomes citam: - Fulano, mandou dizer isto para você. Faça o que ele manda.
A verdade é bem outra. Os espíritos responsáveis e de boa condição evolutiva raramente mandam fazer ou não alguma coisa, pois costumam respeitar o nosso livre- arbítrio. Ainda há pouco, vimos como foi que Hahnemann respondeu à consulta de Kardec sobre a admissão de mais um médium ao trabalho de elaboração de O livro dos espíritos, "Acho" - disse o espírito - "que será melhor não te servires dele". Uma boa regra, é desconfiar logo de 'guias' e 'mentores' que começam a distribuir ordens, a cada momento. Ou elogios fartos e constantes. Mau sinal. Alguma coisa está errada quando isso começa a acontecer.