A solidariedade estabelecera-se com fundamentos divinos. As dores e os júbilos de um pertenciam a todos. A união de pensamentos em torno de um só objetivo dava ensejo a formosas manifestações de espiritualidade. Em noites determinadas, havia fenômenos de “vozes diretas”. A instituição de Antioquia foi um dos raros centros apostólicos onde semelhantes m anifestações chegaram a atingir culminân cia indefinível. A fraternidade reinante justificava essa concessão do Céu. Nos dias de repouso, a pequena comu nidade organizava estudos evangélicos no campo. A in terpretação dos ensinos de Jesus era levada a efeito em algum recanto ameno e solitário da Natureza, quase sempre às margens do Orontes. Saulo encontrara em tudo isso um mundo diferente. A permanência em Antioquia era interpretada como um auxílio de Deus. A confiança recíproca, os amigos dedicados, a boa compreensão, constituem alimento sagrado da alma. Procurava valer-se da oportunidade, a fim de enriquecer o celeiro íntimo. A cidade estava repleta de paisagens morais menos dignas, mas o grupo humilde dos discípulos anônimoS aumentava sempre em legítimo s valores espirituais. A igreja tornou-se venerável por suas obras de cari dade e pelos fenômenos de que se constituíra organismo central – Viajantes ilustres visitavam -na cheios de interesse. Os mais generosos faziam questão de lhe amparar os encargos de benemerência social. Foi aí que surgiu, certa vez, um médico muito jovem, de nome Lucas. De pas sagem pela cidade, aproximou-se da igreja animado por sincero desejo de aprender algo de novo. Sua atenção fixou -se, de modo especial, naquele homem de aparência quase rude, que fermentava as opiniões, antes que Bar nabé empreendesse a abertura dos trabalhos. Aquelas atitudes de Saulo. evidenciando a preocupação generosa de ensinar e aprender simultaneamente, impressionaran -no a ponto de apresentar -se ao ex-rabino, desejoso de ouvi-lo com mais freqüência. — Pois não — disse o Apóstolo satisfeito —, minha tenda está às suas ordens. E enquanto permaneceu na cidade, ambos se em penhavam diariamente em proveitosas palestras, con cernentes ao ensino de Jesus. Retomando aos poucos seu poder de argumentação, Saulo de Tarso não tardou a incutir no espírito de Lucas as mais sadias convicções. Desde a primeira entrevista, o hóspede de Antioquia não mais perdeu uma só daquelas assembléias simples e construtivas. Na véspera de partir, fez uma observa ção que modificaria para sempre a denominação dos discípulos do Evangelho. Barnabé havia terminado os comentários da noite, quando o médico tomou a palavra para despedir -se. Falava emocionado e, por fim, considerou acertadamente: — Irmãos, afastando-me de vós, levo o propósito de trabalhar pelo Mestre, empregando nisso todo o cabedal de minhas fracas forças. Não tenho dúvida alguma quanto à extensão deste movimento espiritual. Para mim, ele transformará o mundo inteiro. Entretanto, pondero a necessidade de imprimirmos a melhor expressão de unidade às suas manifestações. Quero referir-me aos títulos que nos identificam a comunidade. Não vejo na palavra “caminho” uma designação perfeita, que traduza o nosso esforço, Os discípulos do Cristo são chamados viajores”, “peregrinos”, “caminheiros”. Mas há vian dantes e estiadas de todos os matizes, O mal tem, igualmente, os seus caminhos, Não seria mais justo chamar mo-nos — cristãos — uns aos outros? Este título nos recordará a presença do M estre, nos dará energia em seu nome e caracterizará, de modo perfeito, as nossas atividades em concordância com os seus ensinos. A sugestão de Lucas foi aprovada com geral alegria. O próprio Barnabé abraçou-o, enternecidamente, agrade cendo o acertado alvitre, que vinha satisfazer a certas aspirações da comunidade inteira. Saulo consolidou suas impressões excelentes, a respeito daquela vocação supe rior que começava a exteriorizar-se. No dia seguinte, o novo convertido despediu -se do ex-rabino com lágrimas de reconhecimento. Partiria para a Grécia, mas fazia questão de lembrá-lo em todos os pormenores da nova tarefa. Da porta de sua tenda rús tica, o ex-doutor da Lei contemplou o vulto de Lucas até que desaparecesse ao longe, voltando ao tear, de olhos úmido s. Gratamente emocionado reconhecia que, no trato do Evangelho, aprendera a ser amigo fiel e dedicado. Cotejava os sentimentos de agora com as concepções mais antigas e verificava profundas diferen ças. Outrora, suas relações se prendiam a conveniências so ciais, os afeiçoados vinham e seguiam sem deixar gran des sinais em sua alma vibrátil; agora, o coração renovara-se em Jesus-Cristo, tornara-se mais sensível em contacto com o divino, as dedicações sinceras insculpiam -se nele para sempre. O alvitre de Lucas estendeu-se rapidamente a todos os núcleos evangélicos, inclusive Jerusalém, que o recebeu com especial simpatia. Dentro de breve tempo, em toda parte, a palavra “cristianismo” substituia a palavra caminho”. A igreja de Antioquia continuava oferecendo as mais belas expressões evolutivas. De todas as grandes cidades afluiam colaboradores sinceros. As assembléias estavam sempre cheias de revelações. Numerosos irmãos profetizavam, animados do Espírito Santo (1). Foi aí que Agabo, grande inspirado pelas forças do plano superior, recebeu a mensagem referente às tristes provações de que Jerusalém seria vítima. Os orientadores da instituição ficaram sobremaneira impressionados. Por insistência de Saulo, Barnabé expediu um mensageiro a Simão Pedro, enviando no tícias e exortando-o à vigilância. O emissário regressou, trazendo a impressão de surpresa do ex pescador, que agradecia os apelos ge nerosos. (1) Ninguém deverá ignorar que Espírito Santo designa a legião dos Espíritos santificados na luz e no amor, que cooperam com o Cristo desde os primeiros tempos da Huma nidade. — (Nota de Emmanuel.) Com efeito, daí a meses, um portador da igreja de Jerusalém chegava apressadamente a Antioquia, tra zendo notícias alarmantes e dolorosas. Em longa missiva, Pedro relatava a Barnabé os últimos fatos que o acabrunhavam. Escrevia na data em que Tiago, filho de Zebedeu, sofrera a pena de morte, em grande espetáculo público. Herodes Agripa não lhe tolerara as pre gações cheias de sinceridade e apelos justos, O irmão de Jo ão vinha da Galiléia com a primitiva franqueza dos anúncios do novo Reino. Inadaptado ao convencio nalismo farisaico, levara muito longe o sentido de suas exortações profundas. Verificou-se perfeita repetição dos acontecimentos que assinalaram a morte de Estevão. Os judeus exasperaram -se contra as noções de liberdade religiosa. Sua atitude, sincera e simples, foi levada à conta de rebeldia. Tremendas perseguições irromperam sem tréguas. A mensagem de Pedro relatava também as penosas dificuldades da igreja. A cidade sofria fome e epidemias. Enquanto a perseguição cruel apertava o cerco, inumeráveis filas de famintos e doentes batiam-lhe às portas. O ex-pescador solicitava de Antioquia os so corros possíveis. Barnabé apresentou as notícias, de alma confran gida. A laboriosa comunidade solidarizou-se, de bom grado, para atender a Jerusalém. Recolhidas as cotas de auxílio, o ex -levita de Chipre prontificou -se a ser o portador da resposta da igreja; Barnabé, porém, não poderia partir só. Surgiram dificuldades na escolha do companheiro necessário. Sem hesitar, Saulo de Tarso ofereceu-se para lhe fazer companhia. Trabalhava por conta própria — explicou aos amigos — e desse modo poderia tomar a iniciativa de acompanhar Barnabé, sem esquecer as obrigações que ficavam à sua espera. O discípulo de Simão Pedro alegrou -se. Aceitou, jubiloso, o oferecimento. Daí a dois dias, ambos demandavam Jerusalém cora josamente. A jornada era assaz difícil, mas os dois ven ceram os caminhos no menor prazo de tempo. Imensas surpresas ag uardavam os emissários de Antioquia, que já não encontraram Simão Pedro em Jerusalém. As autoridades haviam efetuado a prisão do ex-pescador de Cafarnaum, logo após a dolorosa execução do filho de Zebedeu. Amargas provações ha viam caído sobre a igreja e s eus discípulos. Saulo e Barnabé foram recebidos especialmente por Prócoro, que os informou de todos os sucessos. Por haver solicitado pessoalmente o cadáver de Tiago para dar -lhe sepultura, Simão Pedro fora preso, sem compaixão e com todo o desrespeito, pe los criminosos sequazes de Herodes. Mas, dias depois, um anjo visitara o cárcere do Apóstolo, res tituindo-o à liberdade. O narrador referiu -se ao feito, com os olhos fulgurantes de fé. Contou o júbilo dos irmãos quando Pedro surgiu à noite com o relato da sua libertação. Os companheiros mais ponderados induzi ram-no, então, a sair de Jerusalém e esperar na igreja incipiente de Jope a normalidade da situação. Prócoro contou como o Apóstolo relutara em aquiescer a esse alvitre dos mais prudentes. João e Fili pe haviam partido. As autoridades apenas toleravam a igreja em consideração à personalidade de Tiago, que, pelas suas ati tudes de profundo ascetismo impressionava a mentalidade popular, criando em torno dele uma atmosfera de respeito intangível. Na mesma noite da libertação, por atender-lhe a insistência, Pedro fora conduzido à igreja pelos amigos. Desejava ficar, despreocupado das conseqüên cias; mas, quando viu a casa cheia de enfermos, de famintos, de mendigos andrajosos, houve de ceder a Tiago a direção da comunidade e partir para Jope, a fim de que os pobrezinhos não tivessem a situação agravada por sua causa. Saulo mostrava-se grandemente impressionado com tudo aquilo. Junto de Barnabé, tratou logo de ouvir a palavra de Tiago, o filho de Alfeu. O Ap óstolo recebeu-os de bom grado, mas, podiam -se-lhe notar desde logo os receios e inquietações. Repetiu as informações de Prócoro, em voz baixa, como se temesse a presença de delatores; alegou a necessidade de transigência com as autoridades; invocou o prec edente da morte do filho de Zebedeu; referiu -se às modificações essenciais que intro duzira na igreja. Na ausência de Pedro, criara novas disciplinas.