2ª Parte - Cap. 4: Primeiros labores apostólicos
Ninguém poderia falar do Evangelho sem referir -se à Lei de Moisés. As pregações só poderiam ser ouvidas p elos circuncisos. A igreja estava equiparada às sinagogas. Saulo e o companheiro ouviram -no com grande surpresa. Entregaram -lhe em silêncio o auxílio financeiro de Antioquia. A ausência eventual de Simão transformara a es trutura da obra evangélica. Aos dois recém-chegados tudo parecia inferior e diferente. Barnabé, sobretudo, notara algo, em particular. Ë que o filho de Alfeu, elevado à chefia provisória, não os convidou para se hospedarem na igreja. À vista disso, o discípulo de Pedro foi procurar a casa de sua irmã Maria Marcos, mãe do futuro evangelista, que os recebeu com grande júbilo. Saulo sentiu -se bem no ambiente de fraternidade pura e simples. Barnabé, por sua vez, reconheceu que a casa da irmã se tornara o ponto predileto dos irmãos mais dedicado s ao Evangelho. Ali se reuniam, à noite, às ocultas, como se a verdadeira igreja de Jerusalém houvesse transferido sua sede para um reduzido círculo familiar. Observando as assembléias íntimas do santuá rio doméstico, o ex-rabino recordou a primeira reunião de Damasco. Tudo era afabilidade, carinho, acolhimento. A mãe de João Marcos era uma das discípulas mais de sassombradas e generosas. Reconhecendo as dificuldades dos irmãos de Jerusalém, não vacilara em colocar seus bens à disposição de todos os necessi tados, nem hesitou em abrir as portas para que as reuniões evangélicas, em sua feição mais pura, não sofressem solução de conti nuidade. A palestra de Saulo impressionou -a vivamente. Seduziam-na, sobretudo, as descrições do ambiente fraternal da igreja an tioquiana, cujas virtudes Barnabé não cessava de glosar instantemente. Maria expôs ao irmão o seu grande sonho. Queria dar o filho, ainda muito jovem, a Jesus. De há muito vinha preparando o menino para o apostolado. Todavia, Jerusalém afogava -se em lutas religiosas, sem tréguas. As perseguições surgiam e ressurgiam. A organização cristã da cidade experimentava profundas alternativas. Só a paciência de Pedro conseguia manter a continuidade do ideal divino. Não seria melhor que João Marcos se transferisse para Antioquia, junto do tio? Barnabé não se opôs ao plano da irmã entusiasmada. O jovem, a seu turno, seguia as conversações, mostrando -se satisfeito. Chamado a opinar, Saulo percebeu que os irmãos delibe ravam sem consultar o interessado. O rapaz acompa nhava os projetos, sempre jovial e sorridente. Foi aí que o ex -doutor da Lei, profundo conhecedor da alma humana, desviou a palavra, procurando interessá -lo mais diretamente. — João — disse bondosamente —, sentes, de fato, verdadeira vocação para o ministério? — Sem dúvida! — confirmou o adolescente algo perturbado. — Mas, como defines teus propósitos? — tornou a perguntar o ex -rabino. — Penso que o ministério de Jesus é uma glória —respondeu um tanto acanhado sob o exame daquele olhar ardente e inquiri dor. Saulo refletiu um instante e sentenciou: — Teus intuitos são louváveis, mas é preciso não esqueceres que a mínima expressão de glória mundana apenas chega após o serviço. Se assim acontece no mundo, que não será com o trabalho para o reino do Cristo? Mesmo porque, na Terra, todas as glórias passam e a de Jesus é eterna!... O jovem anotou a observação e, embora desconcer tado pela profundez dos conceitos, acrescentou: — Sinto-me preparado para os labores do Evange lho e, além disso, mamãe faz muito gosto que eu aprenda os melhores ensinamentos nesse sentido, a fim de tornar-me um pregador das verdades de Deus. Maria Marcos olhou o filho cheia de maternal orgu lho. Saulo percebeu a situação, teve um dito alegre e depois acentuou: — Sim, as mães sempre no s desejam todas as gló rias deste e do outro mundo. Por elas, nunca haveria homens perversos. Mas, no que nos diz respeito, convém lembrar as tradições evangélicas. Ainda ontem, lembrei a generosa inquietação da esposa de Zebedeu, ansiosa pela glorificação dos filhinhos!... Jesus lhe recebeu os anseios maternais, mas, não deixou de lhe perguntar se os candidatos ao Reino estavam devidamente preparados para beber do seu cálice... E, ainda agora, vimos que o cálice reservado a Tiago continha vinagre tão amarg o quanto o da cruz do Messias!... Todos silenciaram, mas Saulo continuou em tom prazenteiro, modificando a impressão geral: — Isto não quer dizer que devamos desanimar ante as dificuldades, para aliciar as glórias legítimas do Reino de Jesus, Os obstáculos renovam as forças. A finalidade divina deve representar nosso objetivo supremo. Se assim pensares, João, não duvido de teus futuros triunfos. Mãe e filho sorriram tranqüilos. Ali mesmo, combinaram a partida do jovem, em companhia de Barnabé. O tio discorreu ainda sobre as disciplinas indispensáveis, o espírito de sacrifício reclamado pela nobre missão. Naturalmente, se Antioquia representava um ambiente de profunda paz, era também um núcleo de trabalhos ativos e constantes. João precisaria esquecer qualquer expressão de esmorecimento, para entregar-se, de alma e corpo, ao serviço do Mestre, com absoluta compreensão dos deveres mais justos. O rapaz não hesitou nos compromissos, sob o olhar amorável de sua mãe, que lhe buscava amparar as de cisões com a coragem sincera do coração devotado a Jesus. Dentro de poucos dias os três demandavam a for mosa cidade do Orontes. Enquanto João Marcos extasiava -se na contemplação das paisagens, Saulo e Barnabé entretinham-se em longas palestras, relativamente aos interes ses gerais do Evangelho. O ex -rabino voltava sumamente impressio nado com a situação da igreja de Jerusalém. Desejaria sinceramente ir até Jope, para avistar-se com Simão Pedro. No entanto, os irmãos dissuadiram -no de o fazer. As autoridades mantinham -se vigilantes. A morte do Apóstolo chegara a ser reclamada por vários membros do Sinédrio e do Templo. Qualquer movimento mais importante, no caminho de Jope, poderia dar azo à tirania dos prepostos herodianos. Francamente — dizia Saulo a Barnabé, mostran do-se apreensivo —, regresso de ânimo quase abatido aos nossos serviços de Antioquia. Jerusalém dá impressão de profundo desmantelo e acentuada indiferença pelas lições do Cristo. As altas qualidades de Simão Pedro, na chefia do movimento, não me deixam dúvidas; mas precisamos cerrar fileiras em torno dele. Mais que nunca me convenço da sublime realidade de que Jesus veio ao que era seu, mas não foi compreendido. — Sim — obtemperava o ex-levita de Chipre, desejo so de dissipar as apreensões do companheiro —, confio, antes de tudo, no Cristo; depois, espero muito de Pedro... — Entretanto — insinuava o outro sem vacilar —, precisamos considerar que em tudo deve existir uma pauta de equilíbrio perfeito. Nada poderemos fazer sem o Mestre, mas não é lícito esquecer que Jesus instituiu no mundo uma obra eterna e, para iniciá -la, escolheu doze companheiros. Certo, estes nem sempre corresponderam à expectativa do Senhor; contudo, não deixaram de ser os escolhidos. Assim, também precisamos exami nar a situação de Pedro. Ele é, sem contestação, o chefe legítimo do colégio apostólico, por seu espírito superior afinado com o pensamento do Cristo, em todas as cir cunstâncias; mas, de modo algum poderá operar sozinho. Como sabemos, dos doze amigos de Jesus, quatro ficaram em Jerusalém, com residência fixa. João foi obrigado a retirar-se; Filipe compelido a abandonar a cidade, com a família; Tiago volta aos poucos para as comunidades farisaicas. Que será de Pedro se lhe faltar a cooperação devida? Barnabé pareceu meditar seria mente. — Tenho uma idéia que parece vir de mais alto —disse o ex-doutor da Lei sinceramente comovido. E continuou: — Suponho que o Cristianismo não atingirá seus fins, se esperarmos tão só dos israelitas anquilosados no orgulho da Lei. Jesus afirmou que seus discípulos viriam do Oriente e do Ocidente. Nós, que pressentimos a tempestade, e eu, principalmente, que a conheço nos seus paroxismos, por haver desempenhado o papel de verdugo, precisamos atrair esses discípulos. Quero dizer, Barnabé, q ue temos necessidade de buscar os gentios onde quer que se encontrem. Só assim reintegrar -se-áo movimento em função de universalidade. O discípulo de Simão Pedro fez um movimento de espanto. O ex-rabino percebeu o gesto de estranheza e pon derou de modo conciso: — É natural prever com isso muitos protestos e lutas enormes; no entanto, não consigo vislumbrar outros recursos. Não é justo esquecer os grandes serviços da igreja de Jerusalém aos pobres e necessitados, e creio mesmo que a assistência piedosa dos seus trabalhos tem sido, muitas vezes, sua tábua de salvação. Existem, po rém, outros setores de atividade, outros horizontes essenciais. Poderemos atender a muitos doentes, ofertar um leito de repouso aos mais infelizes; mas sempre houve e haverá corpos enfermos e cansados, na Terra. Na tarefa cristã, semelhante esforço não poderá ser esque cido, mas a iluminação do espírito deve estar em primeiro lugar. Se o homem trouxesse o Cristo no íntimo, o quadro das necessidades seria completamente modificado. A compreensão do Evangelho e da exemplificação do Mes tre renovaria as noções de dor e sofrimento. O necessi tado encontraria recursos no próprio esforço, o doente sentiria, na enfermidade mais longa, um escoadouro das imperfeições; ninguém seria mendigo, por que todos teriam luz cristã para o auxílio mútuo, e, por fim, os obstáculos da vida seriam amados como corrigendas benditas de Pai amoroso a filhos inquietos. Barnabé pareceu entusiasmar -se com a idéia. Mas, depois de pensar um minuto, acrescentou: — Entretanto, esse empreendimento não deveria partir de Jerusalém? — Penso que não — sentenciou Saulo, de pronto. —Seria absurdo agravar as preocupações de Pedro. Excede a tudo esse movimento de pessoas necessitadas e abatidas, convergentes de todas as provínci as, a lhe baterem às portas. Simão está impossibilitado para o desdobra mento dessa tarefa. — Mas, e os outros companheiros?
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