Transformado em rude operário, Saulo de Tarso apresentava notável diferença fisionômica. Acentuara--se-lhe a feição de asceta. Os olhos, contudo, denunciando o homem ponderado e resoluto, revelavam igualmente uma paz profunda e indefinível. Compreendendo que a situação não lhe permitia idealizar grandes projetos de trabalho, contentava-se em fazer o que fosse possível. Sentia prazer em testemunhar a mudança de conduta aos antigos camaradas de triunfo, por ocasião das festividades tarsenses. Orgulhava -se, quase, de viver do modesto rendimento do seu árduo labor. Vezes várias, ele própri o atravessava as praças mais freqüentadas, carregando pesados fardos de pelo caprino. Os conterrâneos admiravam a atitude humilde, que era agora o seu traço dominante. As famílias ilustres contemplavam -no com piedade. Todos os que o conheceram na fase áurea da juventude, não se cansavam de lamentar aquela transformação. A maioria tratava -o como alienado pacífico. Por isso, nunca faltavam encomendas ao tecelão das proximidades do Tauro. A sim patia dos seus concidadãos, que jamais lhe compreende riam integralmente as idéias novas, tinha a virtude de amplificar seu esforço, aumentando -lhe os parcos recursos. Ele, por sua vez, vivia tranqüilo e satisfeito. O programa de Abigail constituía permanente mensagem ao seu coração. Levantava -se, todos os dias, procurando amar a tudo e a todos; para prosseguir nos caminhos retos, trabalhava ativamente. Se lhe chegavam desejos ansiosos, inquietações para intensificar suas atividades fora do tempo apropriado, bastava esperar; se alguém dele se compadecia, se outros o ape lidavam de louco, desertor ou fantasista, procurava esquecer a incompre ensão alheia com o perdão sincero, refletindo nas vezes muitas que, também ele, ofendera os outros, por igno rância. Estava sem amigos, sem afetos, suportando os desencantos da soledade que, se não tinha companheiros carinhosos, também não necessitava temer os sofrimentos oriundos das amizades infiéis. Procurava encontrar no dia o colaborador valioso que não lhe subtraia as opor tunidades. Com ele tecia tapetes complicados, barracas e t endas, exercitando-se na paciência indispensável aos trabalhos outros que ainda o esperavam nas encruzilha das da vida. A noite era a bênção do espírito. A exis tência corria sem outros pormenores de maior impor tância, quando, um dia, foi surpreendido com a visita inesperada de Barnabé. O ex-levita de Chipre encontrava -se em Antioquia. a braços com sérias responsabilidades. A igreja ali fun dada reclamava a cooperação de servos inteligentes. Inúmeras dificuldades espirituais a serem resolvidas, in tensos serviços a fazer. A instituição fora iniciada por discípulos de Jerusalém, sob os alvitres generosos de Simão Pedro. O ex -pescador de Cafarnaum ponderou que deveriam aproveitar o período de calma, no capítulo das perseguições, para que os laços do Cristo fo ssem dilatados. Antioquia era dos maiores centros operários. Não faltavam contribuintes para o custeio das obras, porque o empreendimento grandioso tivera repercussão nos ambientes de trabalho mais humildes; entretanto, escasseavam os legítimos trabalhador es do pensamento. Ainda, aí, entrou a compreensão de Pedro para que não faltasse ao tecelão de Tarso o ensejo devido. Observando as dificuldades, depois de indicar Barnabé para a direção do núcleo do “Caminho”, aconselhou -o a procurar o convertido de Damasco, a fim de que sua capacidade alcançasse um campo novo de exercício espiritual. Saulo recebeu o amigo com imensa alegria. Vendo-se lembrado pelos irmãos distantes, tinha a impressão de receber um novo alento. O companheiro expôs o elevado plano da igreja que lhe reclamava o concurso fraterno, o desdobramento dos serviços, a colaboração constante de que poderiam dispor para a construção das obras de Jesus -Cristo. Barnabé exaltou a dedicação dos homens humildes que cooperavam com ele. A instituição, todavia, reclamava irmãos dedicados, que conhecessem profundamente a Lei de Moisés e o Evangelho do Mestre, a fim de não ser prejudicada a tarefa da iluminação intelectual. O ex-rabino edificou-se com a narração do outro e não teve dúvidas em atender ao apelo. Apenas apresentava uma condição, qual a de prosseguir no seu ofício, de maneira a não ser pesado aos seus confrades de Antio quia. Inútil qualquer objeção de Barnabé, nesse sentido. Pressuroso e prestativo, Saulo de Tarso em breve se instalava em Antioquia, onde passou a cooperar ativa mente com os amigos do Evangelho. Durante largas horas do dia, consertava tapetes ou se entretinha no trabalho de tecelagem. Destarte, ganhava o necessário para viver, tornando -se um modelo no seio da nova igreja. Utilizando o grande cabedal de experiências já adquirido nas refregas e padecimentos do mundo, jamais o viam ocupar os primeiros lugares. Nos Atos dos Apóstolos, vemos -lhe o nome citado sempre por último, quando se referem aos colaboradores de Barnabé. Saulo havia aprendido a esperar Na comunidade, preferia os labores mais simples. Sentia se bem, atendendo aos doentes nu merosos. Recordava Simão Pedro e procurava cumprir os novos deveres na pauta da bondade despretensiosa, embora imprimindo em tudo o traço da sua sinc eridade e franqueza, quase ásperas. A igreja não era rica, mas a boa -vontade dos componentes parecia provê -la de graças abundantes. Antioquia, cidade cosmopolita, tornara -se um foco de grandes devassidões. Na sua paisagem enfeitada de mármores preciosos, que deixavam entrever a opulência dos habitantes, proliferava toda a espécie de abusos. Os fortunosos entregavam-se aos prazeres licenciosos, desenfreadamente. Os bosques artificiais reuniam assem bléias galantes, onde criminosa tolerância caracterizava todos os propósitos. A riqueza pública ensejava grandes possibilidades às extravagâncias. A cidade estava cheia de mercadores que se guerreavam sem tréguas, de am bições inferiores, de dramas passionais. Mas, diariamente, à noite, se reuniam, na casa singel a onde funcionava a célula do “Caminho”, grandes grupos de pedrei ros, de soldados paupérrimos, de lavradores pobres, ansiosos todos pela mensagem de um mundo melhor. As mulheres de condição humilde compareciam, igualmente, em grande número. A maioria dos freqüentadores interessavam-se por conselhos e consolações, remédios para as chagas do corpo e do espírito. Geralmente, eram Barnabé e Manahen os pregado res mais destacados, ministrando o Evangelho às assem bléias heterogêneas. Saulo de Tarso limitava-se a cooperar. Ele mesmo notara que Jesus, por certo, reco mendara absoluto recomeço em suas experiências. Certa feita, fez o possível por conduzir as pregações gerais, mas nada conseguiu. A palavra, tão fácil noutros tempos, parecia retrair-se-lhe na garganta. Compreendeu que era justo padecer as torturas do reinício, em virtude da oportunidade que não soubera valorizar. Não obstante as barreiras que se antepunham às suas atividades, ja mais se deixou avassalar pelo desânimo. Se ocupava a tribuna, tinha ex trema dificuldade na interpretação das idéias mais simples. Por vezes, chegava a corar de vergonha ante o público que lhe aguardava as conclu sões com ardente interesse, dada a fama de pregador de Moisés, no Templo de Jerusalém. Além disso, o sublime acont ecimento de Damasco cercava -o de nobre e justa curiosidade. O próprio Barnabé, várias vezes, surpreendera -se com a sua dialética confusa na inter pretação dos Evangelhos e refletia na tradição do seu passado como rabino, que não chegara a conhecer pessoal mente, e na timidez que o assomava, justo no momento de conquistar o público. Por esse motivo, foi afastado discretamente da pregação e aproveitado noutros misteres. Saulo, porém, compreendia e não desanimava. Se não era possível regressar, de pronto. ao labor da pregação, preparar-se-ia, de novo, para isso. Nesse intuito, retinha irmãos humildes na sua tenda de trabalho e, enquanto as mãos teciam com segurança, entabulava conversas sobre a missão do Cristo. À noite, promovia palestras na igreja com a coo peração de todos os presentes. Enquanto não se organizava a direção superior para o trabalho das assembléias, sentava -se com os operários e soldados que compareciam em grande número. Interessava a atenção das lavadeiras, das jovens doentes, das mães humil des. Lia, às vezes, trechos da Lei e do Evangelho, estabelecia comparações, provocava pareceres novos. Dentro daquelas atividades constantes, a lição do Mestre parecia sempre tocada de luzes progressivas. Em breve, o ex -discípulo de Gamaliel tornava -se um amigo amado de todos. Saulo sentia -se imensamente feliz. Tinha enorme satisfação sempre que via a tenda pobre repleta de irmãos que o procuravam, tomados de simpatia. As encomendas não faltavam. Havia sempre trabalho suficiente para não se tornar pesado a ninguém. Ali conheceu Trófimo, que lhe seria companheiro fiel em muitos transes difíceis; ali abraçou Tito, pela primeira vez, quando esse abnegado colaborador mal saía da infância. A existência, para o ex -rabino, não podia ser mais tranqüila nem mais bel a. Era-lhe o dia cheio das notas harmoniosas do trabalho digno e construtivo; à noite, recolhia-se à igreja em companhia dos irmãos, entre gando-se prazenteiro às lides sublimes do Evangelho. A instituição de Antioquia era, então, muito mais sedutora que a própria igreja de Jerusalém. Vivia -se ali num ambiente de simplicidade pura, sem qualquer preocupação com as disposições rigoristas do judaísmo. Havia riqueza, porque não faltava trabalho. Todos ama vam as obrigações diuturnas, aguardando o repouso da noi te nas reuniões da igreja, qual uma bênção de Deus. Os israelitas, distantes do foco das exigências farisaicas, cooperavam com os gentios, sentindo -se todos unidos por soberanos laços fraternais. Raríssimos os que falavam na circuncisão e que, por constitu írem fraca minoria, eram contidos pelo convite amoroso à fraternidade e àunião. As assembléias eram dominadas por ascendentes profundos de amor espiritual.