I
Quem se dispõe a trabalhar com fenômenos produzidos pelo psiquismo humano deve se preparar para respeitar as regras do jogo, decidindo, antes, que tipo de metodologia é aplicável ao estudo que pretende realizar. Se não existe, precisará criá-la; e antes de experimentar os fenômenos em si, testar a própria metodologia desenvolvida para a pesquisa. Isso porque se torna imperioso deixar espaço e condições para que o fenômeno se produza tão espontaneamente quanto possível, ainda que sob condições de controle observacional. O cientista, tanto quanto o dirigente de trabalhos mediúnicos, deve ser um bom observador, dotado de espírito crítico alertado, e ter o bom senso de interferir o mínimo possível - apenas o suficiente para ordenar a seqüência de tarefas e coordenar as atividades que se desenrolam sob suas vistas. Deve, portanto, ser um observador participante, certo, mas nunca inibidor, pois ele está ali precisamente para fazer com que as coisas aconteçam e não para impedi-las ou forçá-las a ocorrerem da maneira exata pela qual ele entende que devam ocorrer. Não é muito diferente desta a maneira de pensar de André Luiz, expressa em Evolução em dois Mundos, (Xavier, Francisco C./Luiz, André 1973) onde se lê: Eminentes fisiologistas e pesquisadores de laboratório procuraram fixar mediunidades e médiuns a nomenclaturas e conceitos de ciência metapsíquica; entretanto o problema, como todos os problemas humanos, é mais profundo, porque a mediunidade jaz adstrita à própria vida, não existindo, por isso mesmo, dois médiuns iguais, não obstante a semelhança no campo das impressões ..., logo a seguir, adverte André Luiz que até mesmo 'espiritualistas distintos', que se julgam autorizados a apelar para os riscos da mediunidade - a fim de impedir-lhe a eclosão e, por conseguinte, os serviços que pode prestar - estão sendo influenciados por via mediúnica, traduzindo "interpretações particulares de inteligências desencarnadas que os assistem". Ou seja, estão atuando como inconscientes joguetes de vontades estranhas à sua. Os médiuns são sensíveis não apenas aos seres desencarnados, mas também às pressões e sentimentos, mesmo não expressos, das pessoas encarnadas que os cercam durante o trabalho. Harry Boddington (The University of spiritualism), ao qual estaremos recorrendo com alguma freqüência neste estudo, acha até que os médiuns são mais sensíveis às pressões dos encarnados do que às dos desencarnados. "Extrema elasticidade" - escreve o competente autor inglês - "deve ser adotada na aplicação de todas as teorias relativas aos fenômenos psíquicos." Isto não quer dizer, obviamente, que o médium possa e deva fazer ou permitir que se faça com ele tudo o que vier à sua cabeça ou à do manifestante, mas é preciso garantir condição suficiente para que o fenômeno ocorra dentro da dinâmica que lhe é própria. Esse princípio é válido para qualquer grupamento de pessoas, até mesmo quando reunidas para finalidades meramente sociais ou de trabalho material, estudo, debates, ou o que seja. Pessoas agressivas, amarguradas, mal-humoradas, pouco educadas causam transtornos em qualquer reunião, o que não ocorre quando os componentes de um grupo se harmonizam, respeitam-se mutuamente e debatem os problemas com serenidade e bom senso, ainda que divergindo neste ou naquele aspecto. 3 . PASSIVIDADE No caso do centro, no qual a moça tentava integrar-se para participar das tarefas coletivas ali desenvolvidas, havia um rígido padrão de comportamento mediúnico. Nada da elasticidade recomendada por Boddington e que constitui um dos próprios ingredientes do fenômeno mediúnico em si, de vez que cada médium tem suas peculiaridades, precisamente por ser uma personalidade autônoma. Sem nenhuma experiência de trabalho em conjunto, a nossa jovem entrou assim para um grupo no qual predominavam muitas 'regras' inibidoras. Nas sessões ditas de desobsessão, exigia o padrão ali adotado que ela 'desse passividade' exatamente como os demais médiuns treinados pela casa: imóvel, olhos fechados, mãos juntas e abandonadas tranqüilamente sobre a mesa. Nenhum gesto era permitido durante a manifestação, nenhuma palavra em tom mais alto, nenhuma forma de movimentação do corpo, dos membros ou da cabeça. Acontece que a mediunidade da nossa jovem tinha seus métodos operacionais próprios, o que vale dizer: eram diferentes dos que ali se praticavam. Embora disciplinada, sem manifestações ruidosas ou palavras descontroladas, ela gesticulava moderadamente e mantinha os olhos abertos, dando enfim expressão e naturalidade às suas manifestações. Agia acertadamente a meu ver, permitindo que o espírito manifestante pudesse expressar-se convenientemente, dizer enfim ao que veio e expor sua situação a fim de que pudesse ser atendido ou, pelo menos, compreendido nos seus propósitos. Se ele vinha indignado por alguma razão - e isto é quase que a norma em trabalhos dessa natureza -, como obrigá-lo a falar serenamente, com a voz educada, em tom frio e controlado? Somos nós, encarnados, capazes de tal proeza? Não elevamos a voz e mudamos de tom nos momentos de irritação e impaciência? Como exigir procedimento diferente do manifestante e do médium? Afinal de contas, se a manifestação ficar contida na rigidez de tais parâmetros, acaba inibida e se torna inexpressiva, quando não inautêntica, de tão deformada. Em tais situações, é como se o médium ficasse na posição de mero assistente de uma cena de exaltação e a descrevesse friamente, em voz monótona e emocionalmente distante dos problemas que lhe são trazidos. É preciso considerar, no entanto, que ali está uma pessoa angustiada por pressões íntimas das mais graves e aflitivas, muitas vezes em real estado de desespero, que vem em busca de socorro para seus problemas, ainda que não o admita conscientemente. Não é uma vaga e despersonalizada entidade, uma simples abstração, mas um espírito que se manifesta. É um ser humano, vivo, sofrido, desarvorado, que está precisando falar com alguém que o ouça, que sinta seu problema pessoal, que o ajude a sair da crise em que mergulhou, que partilhe com ele suas dores, que lhe proporcione, por alguns momentos, o abrigo de um coração fraterno. O médium frio e com todos os seus freios aplicados à manifestação não consegue transmitir a angústia que vai naquela alma. É um bloco de gelo através do qual não circulam as emoções do manifestante, a pungência de seu apelo, a ânsia que ele experimenta em busca de amor e compreensão. Nenhum problema é maior, naquele instante, para o manifestante do que o seu, nenhuma dor mais aguda do que a sua. Dizíamos há pouco que a médium permitia que o manifestante se expressasse a seu modo, mas, a rigor, ela simplesmente não sabia trabalhar de outra maneira. A entidade parecia assumir seus comandos mentais e utilizar-se, com naturalidade, de seu corpo físico. Se havia alguma ação inibidora ou controladora da parte da médium, era em nível de consciência extra física. E, certamente, era isso que se dava, pois nunca houve qualquer distúrbio ou excesso nas manifestações que ocorriam por sua intermediação. No entanto, o dirigente exigia que o médium transmitisse tudo na rígida postura de um robô, que leva a palavra de um lado para outro, mas não admite que se filtrem, também, as emoções que elas contêm e que as impulsionam. Quando isso ocorre, o que chega ao dirigente ou doutrinador não é aquilo que partiu do manifestante e, sim, a versão pasteurizada e impessoal que o médium lhe transmitiu, como se fosse um mero (e infiel) telefone. O espírito nem consegue sentir, no ser que utiliza como instrumento, um pouco de empatia, de solidariedade, de fraternidade, de emoção participante, de calor humano. É nisso que resulta a excessiva e tão decantada passividade ... E para esse tipo de passividade nossa jovem não estava preparada. Daí os problemas com os métodos da casa e, obviamente, com os dirigentes do trabalho. 4. IDENTIFICAÇÕES INDESEJÁVEIS Mas havia outros aspectos, como o da psicografia, por exemplo. Não somente ali, mas em outros grupos que ela iria freqüentar mais tarde. Logo nos primeiros tempos de trabalho no centro, ela começou a receber textos psicografados. Sem imaginar que aquilo pudesse criar-lhe alguma dificuldade - a regra não era precisamente a de 'dar passividade'? -, o espírito encerrava as mensagens com sua assinatura, procedimento naturalíssimo e rotineiro. O problema é que surgiam nomes considerados como verdadeiros Tabus, tidos como privativos, exclusivos de determinados médiuns, como se fossem propriedades de tais médiuns. Só através de determinados medianeiros, mensagens de certos espíritos eram confiáveis e aceitáveis. Tal procedimento choca-se, aliás, com a prática adotada e preconizada pelo codificador, que exatamente nos pontos mais delicados e controversos gostava de testar a informação dos espíritos com diferentes médiuns. Vemos em O evangelho segundo o espiritismo e em Obras póstumas mensagens do próprio mentor do espiritismo, o Espírito de Verdade, produzidas por diferentes médiuns, em locais também diversos. Ali naquele centro, contudo, era um deus-nos-acuda quando o manifestante encerrava sua página com certos nomes-tabus, com os quais nem a jovem médium estava familiarizada, como Bezerra de Menezes, Auta de Souza e outros. Novata no movimento espírita, ela não tinha a menor idéia do que representavam tais nomes. Bastava-lhe saber que as mensagens estavam corretamente formuladas, do ponto de vista doutrinário, e eram acatadas com agrado pelos seus ouvintes e leitores, depois de recebidas nas reuniões públicas. Passavam até pela crítica atenta dos dirigentes do grupo, que nada tinham a objetar nelas quanto ao conteúdo ou à forma. O único problema era mesmo o de que ela "não podia, como médium iniciante", receber mensagens assinadas por entidades que lhe eram desconhecidas, mas consideradas importantes demais para a insignificância da jovem médium.
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Nome do Capítulo O médium: eclosão, desenvolvimento e exercício de suas faculdades