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E isso em nada contribuía para torná-la mais confiante. Pelo contrário, ia ficando cada vez mais confusa e insegura, cultivando inibições de difícil erradicação que, por pouco, não paralisam sua florescente mediunidade. Ante esses inesperados problemas, ela ficava sem saber como proceder nas situações mediúnicas de que participava. Como fazer, por exemplo, para que o espírito não assinasse a comunicação? 5. COMPORTAMENTO PADRONIZADO Enquanto isso, agravava-se também, a pressão do grupo sobre suas manifestações psicofônicas, chamadas de incorporação. Sua mediunidade operava por desdobramento - ela se via fora do corpo físico; o manifestante aproximava-se e assumia seus controles mentais, sem tumultos ou excessos. Eram normais as manifestações, sem gritos, sem palavras inconvenientes, sem atitudes de agressividade ou descontrole. A entidade conseguia, contudo, expressar adequadamente sua personalidade e seus conflitos, modulando a voz segundo suas emoções, e gesticulando moderadamente e com naturalidade. O problema, porém, é que elas não 'aceitavam' prontamente a 'doutrinação' dos dirigentes incumbidos de lhes falarem. Não se sujeitavam passivamente à esperada obediência e concordância. Elas discordavam, contestavam, expressavam suas próprias idéias e pontos de vista, bem como a intensidade de suas emoções e convicções. Isso era desastroso para a pobre e aturdida médium. Terminadas as reuniões, ela era chamada à parte para nova sessão de 'doutrinação', dessa vez dirigida especificamente à médium. Coisas como estas: se o médium não é rouco ou gago, o espírito não pode falar com voz rouca ou gaguejar; se o médium é mulher, não se admite que o espírito fale com voz grave de homem. E nada de gestos ou movimentação do corpo, dos membros ou da cabeça. E nada de olhos abertos. E não podia ela permitir que o tom de voz se elevasse e que a entidade 'respondesse' ao doutrina dor, com sua cota de contestação. Mas, senhor, o espírito não estava ali precisamente para ser tratado, entendido, compreendido e, se possível, convencido a mudar de rumo? Se ele se comportasse dentro dos padrões rígidos da casa, aceitasse prontamente os argumentos ou as imposições dos dirigentes, concordasse com tudo e se portasse como um cavalheiro ou uma dama de esmerada educação, então que viera fazer ali? A moça ia ficando cada vez mais confusa e insegura. Perguntava o que fazer para evitar que as coisas ocorressem daquela maneira, indesejável segundo os padrões ali vigentes, mas a única 'orientação' recebida consistia em dizer que "assim não pode ser", estava encerrada a conversa ! Ademais, a pessoa que lhe fazia tais advertências e lhe transmitia tais 'instruções' também funcionava como médium. Obviamente, sua experiência mediúnica era diferente da dela, pois, como vimos, a mediunidade, mesmo dentro da mesma chave classificatória, tem seus matizes e peculiaridades individuais. O instrutor, no caso, desejava o impraticável, senão impossível, ou seja, padronizar todas as manifestações mediúnicas pela sua, que operava de maneira consciente, sem o que costumamos chamar de incorporação. Em outras palavras, ele não sentia em toda a sua plenitude, a presença do manifestante e nem se entregava a este para que o próprio espírito operasse seus dispositivos mediúnicos, como no caso da moça. Não que as manifestações por seu intermédio ficassem automaticamente sob suspeição, mas eram diferentes, características de sua personalidade mediúnica. 6. INSEGURANÇA À medida que se elevavam os índices de pressão sobre ela, aumentava proporcionalmente sua insegurança. No exercício da psicografia, tentava conscientemente ou inconscientemente bloquear as assinaturas, o que parece ter conseguido. Ou as próprias entidades resolveram deixar de assinar para não lhe criar dificuldades? O certo é que as mensagens continuavam a vir, com textos aceitáveis, doutrinariamente boas, e sempre filtradas no crivo da crítica, como convém, aliás, mas sem assinaturas comprometedoras. Contudo, à medida que a mensagem ia chegando ao fim - a médium mantinha-se em estado semiconsciente -, era sempre um momento de tensão e expectativa. Ela ficava nervosa, o coração acelerado, preocupada, com medo do nome que pudesse ser grafado. Nos trabalhos de psicofonia, ia para a mesa mediúnica literalmente aterrada, com receio do que a entidade manifestante pudesse dizer ou fazer. Evidentemente que essas emoções, temores e angústias criavam um clima psicológico negativo e inadequado às manifestações, o que contribuía para agravar as tensões e a insegurança da médium. Mas, o que fazer? Como mudar a situação para a qual ela não via remédios e não recebia instruções precisas de quem estava incumbido de orientá- la? Pois não procurara integrar-se no movimento espírita precisamente para entender o que se passava com ela e como canalizar suas faculdades para a tarefa do bem? Será que estava sendo rejeitada pelas estruturas do espiritismo e não admitia essa difícil e incompreensível realidade? Afinal de contas, desde que buscara o primeiro contato com o movimento entrara em zona de turbulência. E continuava a voar em agitadas camadas atmosféricas, pondo em risco a nave e sua única tripulante. Ninguém vinha dizer-lhe como controlar a instrumentação que havia sido colocada à sua disposição. Tinha, obviamente, uma tarefa ali, mas como levá-la a bom termo se continuava como que perdida, voando sem rumo, sem saber o que fazer ou, pelo menos, como aterrissar? O teto era baixo, o vôo cego e os horizontes pareciam impenetráveis e ameaçadores nas suas escuras tonalidades. Longe de perceber qualquer saída para a luz, ela sentia que voava para o centro de uma tormenta maior ainda do que aquela da qual estava tentando escapar. É que os problemas e dificuldades com os dirigentes do grupo agravavam-se com a passagem das semanas. Se antes os fenômenos eram incompreensíveis, passaram a ser traumáticos. Ela sentia-se desequilibrada, emocionalmente instável, temendo a própria mediunidade, o que suscitou nela um mecanismo bloqueador. Criou-se, com isso, um círculo vicioso. Quanto maior seu esforço em conter as manifestações em busca do padrão mediúnico predominante, mais as coisas se complicavam e mais duvidosa parecia sua mediunidade aos que a policiavam de perto. Entendiam mesmo que suas faculdades traziam vícios de origem, de difícil correção àquela altura. Ao contrário da maioria dos médiuns da casa, que ali mesmo haviam seguido um plano de 'desenvolvimento' segundo os padrões locais, a moça era médium espontâneo, que se aproximara do grupo já pronta para o trabalho, com algum conhecimento doutrinário - e continuava a estudar assiduamente a doutrina - e com experiência de anos de convivência com extensa faixa de fenômenos. A mediunidade era, a seu ver, uma faculdade natural, espontânea, sem artifícios ou temores. Uma função psicossomática como respirar, ver, falar, metabolizar os alimentos e assim por diante. Desenvolver o quê? Modificar onde e por quê? E como? Pois não consistia o exercício da mediunidade em deixá-la funcionar, com as precauções necessárias, é claro, mas permitir a eclosão do fenômeno? A crítica, o exame atento, o debate, o aperfeiçoamento viriam logo após o trabalho. Esse trabalho educativo, no entanto, precisava ser conduzido com serenidade, compreensão, sensibilidade e tato. Em qualquer atividade humana a crítica é desejável, mas precisa ser inteligente, construtiva, sensata. Isso ali não acontecia. Portanto, não houve condição de dar continuidade ao trabalho a que ela se propunha. E, novamente, sentiu-se ela desamparada e confusa ... 7 . Novos RUMOS E ESPERANÇAS Não se perdera, contudo, a confiança nos seres espirituais, que aprendera a respeitar e a considerar como verdadeiros amigos. Se os encarnados não estavam conseguindo ajudá-la, por que não recorrer aos desencarnados? Lembrou-se do Dr. Bezerra de Menezes, um dos nomes que lhe causara inesperadas (e, certamente, involuntárias) dificuldades, quando começou a surgir nas comunicações que ela psicografava. Seu nome era tabu para ela, naquele contexto, mas não o espírito generoso que estava ao alcance de sua mente. Decidiu, portanto, 'conversar' com ele na intimidade do recolhimento, como sugeriu o Cristo. Estava precisando de socorro, e com urgência, pois já sua mediunidade ameaçava estiolar-se completamente, na sufocação das pressões que não entendia e não via como contornar. Enquanto orava e pedia ao Dr. Bezerra que lhe mostrasse um caminho, surgiu em sua tela mental, num fenômeno de vidência com o qual estava familiarizada, a imagem de uma pessoa à qual ela deveria procurar para expor seus problemas, pedir orientação e esclarecimento. Foi recebida com dignidade, ouvida com atenção e teve oportunidade de expor com franqueza seus problemas e dificuldades. Saiu desse primeiro encontro mais tranqüilizada e com novas esperanças, esperanças, que aliás, se confirmaram depois, em novos contatos para debate e busca de soluções. Conseguiu reordenar suas idéias e emoções, em clima de franqueza, lealdade e respeito. No devido tempo, organizou-se um novo e reduzido grupo. Ela foi convidada e aceitou o encargo de colocar sua mediunidade a serviço dessa tarefa que iria prolongar-se por mais de uma década de fecundos resultados e muitas alegrias. Coube a mim, modesto escriba, relatar não apenas a história pessoal dessa moça, nas suas experimentações com a mediunidade, mas, principalmente, aproveitar o arcabouço da história para fazer os encaixes doutrinários e as observações que nos parecerem oportunas. É nosso desejo e esperança que o relato que se segue, rigorosamente calcado numa realidade e que assume a responsável postura de um depoimento vivo, possa servir de inspiração e ajuda a todos quantos se interessam fenomenologia mediúnica e anímica.
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Nome do Capítulo O médium: eclosão, desenvolvimento e exercício de suas faculdades