I
1. LONGA E OBSTINADA VIGÍLIA Não dava mais para esperar. Sucediam-se as perplexidades e a moça estava ficando confusa no meio de todos aqueles estranhos fenômenos que ocorriam com ela e à sua volta. Sabia, agora, que o espiritismo tinha um nome adequado para isso: mediunidade. Ela era, portanto, uma pessoa dotada de faculdades mediúnicas. Vira isso em um livro básico e elementar que lera de um só fôlego. E daí? Que caminho escolher entre as diversas alternativas? A quem recorrer? Com quem se esclarecer e se orientar? Como aprender a se utilizar corretamente daquele potencial que não conseguia entender ou controlar? Uma crônica de jornal, que lera ainda há pouco, dizia maravilhas de um grupo-padrão mediúnico que funcionava sob responsabilidade de respeitável instituição. Estava ali a sua oportunidade, pensou. Recortou a crônica, disposta a falar pessoalmente com o seu autor. A providência inicial, portanto, consistia em localizá-lo, ligou para a instituição, tão animada pela esperança quanto ingênua e inexperiente. A pergunta foi direta e objetiva: o que era necessário fazer para qualificar-se como freqüentadora do grupo? A resposta foi educada, mas firme: o grupo era fechado e seleto. Não admitia ninguém, a não ser por escolha e convite, mediante critérios inquestionáveis. Além disso, informou a voz ao telefone, o grupo era interditado às mulheres. Só homens poderiam freqüentá-lo. No pouco que lera sobre a doutrina espírita, nada encontrara que distinguisse o trabalho dos que se encarnam como homens daqueles que optam pela encarnação feminina. Aliás, o termo espírita, escolhido para identificar o adepto do espiritismo, a partir de termo semelhante na língua francesa (spirite), é o que se chama um adjetivo de duplo gênero, ou seja, tanto serve para emprego feminino quanto masculino. Diz-se que uma senhora é espírita da mesma forma que um homem é espírita. O substantivo espírito, por sua vez, não tem feminino. Seja homem ou mulher, o termo que identifica o ser é o mesmo - espírito. Não existe espírito para seres masculinos e espírita para seres femininos, mesmo porque, segundo consta nas obras básicas, o espírito não tem sexo. Entendiam os dirigentes do grupo, ou a tradição ali adotada, não se sabe por que razões, que a bisonha postulante era uma espírita (feminino) e não devia freqüentar reuniões abertas apenas aos espíritas masculinos. Enfim, não lhe cabia discutir o critério. E nem adiantaria fazê-lo. Deviam ter suas razões para assim proceder. O outro obstáculo que interditava sua admissão no grupo era compreensível, embora, em sua inexperiência, ela não o tenha considerado impeditivo. O trabalho mediúnico sério exige, de fato, ambientes reservados, severos padrões de disciplina, afinidades entre seus diversos membros, assiduidade e inúmeros outros componentes, como tivemos oportunidade de estudar em Diálogo com as sombras, no qual o assunto é tratado de maneira específica. Em suma: a moça não podia ser admitida no grupo-padrão por duas indiscutíveis razões. Restava-lhe apelar para a última alternativa: como falar com o autor da crônica que tantas esperanças suscitara em seu espírito? Isto era mais fácil. ( Ou não era? ) Ele costumava freqüentar as reuniões de caráter administrativo, aos sábados. A que horas? Tinha por hábito chegar mais cedo, bem antes da hora marcada para a reunião, programada para o início da tarde. Eis porque naquele sábado, pela manhã, a moça partiu do bairro distante rumo à instituição. Tinha de falar pessoalmente com aquela pessoa que encarnava, agora, suas esperanças de encontrar um rumo que lhe permitisse ordenar o verdadeiro emaranhado de dificuldades em que se metera em conseqüência de toda a fenomenologia que a inquietava e começava a assustá-la. Chegou às dez horas da manhã, subiu as escadas, apresentou-se, fez perguntas, expôs suas intenções e pretensões. E ficou ali, sentada, aguardando o cronista salvador que, infelizmente, não compareceu à reunião do dia. Voltou a fazer perguntas. Queria saber, agora, a quem deveria dirigir-se para obter as informações de que tanto necessitava para dar um rumo certo à sua vida. Sugeriram- lhe que falasse com o dirigente da instituição. Nova espera. A essa altura eram duas horas da tarde. Finalmente chegou o dirigente, acompanhado de um grupo. Ela se levantou e pediu ao informante de sempre para indicar a pessoa, e abordou-a. Nova decepção. Lamentavelmente, disse ele, não poderia atendê-la no momento, pois já estava atrasado para a reunião. Concordaria em falar com ela depois de terminada a reunião? Isto sim, era possível, arrematou ele, subindo as escadas que levavam, provavelmente, à sala de reuniões. Havia agora duas necessidades pessoais a atender: a fome espiritual e a material. Uma podia esperar um pouco mais; a outra, não. A moça desceu, foi à rua, fez um lanche e voltou à sua vigília, disposta a não arredar pé dali sem ter falado com alguém acerca de seus anseios espirituais. A reunião só terminou às seis horas. O dirigente não escondeu sua surpresa ao encontrar a moça ainda ali, esperando pacientemente. Imaginara, portanto, que sua atitude inicial a levaria ao desencorajamento. Levou -a para uma sala, onde sentaram - se, e ela expôs suas aspirações. Ele escreveu uma pequena apresentação dirigida ao presidente de um centro espírita de sua confiança. A essa altura, já anoitecia e a moça precisava voltar para casa. 2. PRIMEIROS PASSOS Não alcançara, é certo, nenhum dos seus propósitos iniciais, mas, ao cabo de um dia inteiro de expectativa e obstinação, conseguira, pelo menos, sair dali com um tímido raio de esperança materializado na carta que, como chave mágica, deveria abrir uma porta e pela qual ela esperava penetrar naquele universo diferente e um tanto secreto, onde suas faculdades seriam, afinal, cultivadas e postas a serviço de uma causa nobre. Na segunda-feira seguinte, à noitinha, partiu em busca do endereço indicado. Entregou a carta ao seu destinatário, que a leu e mandou-a sentar-se e assistir aos trabalhos da noite, que aliás não eram de natureza mediúnica, mas uma palestra a ser proferida por um homem que ela conhecia apenas de nome. Muitos problemas teria ali, na difícil fase de adaptação que se seguiria, mas isto ainda era futuro, impenetrável até mesmo às suas faculdades premonitórias. Aquela noite, contudo, ficou marca da para sempre em sua memória por um verdadeiro sismo emocional, que a colocaria em estado de intensa agitação íntima e lhe deixaria uma seqüela de muitos conflitos. É que, no orador da noite, ela identificou a figura central de suas vidências e sonhos, durante os quais cenas emocionantes eram revividas com toda a intensa carga emocional que nelas se depositara. Era ele o homem amado do passado, companheiro de muitas vidas, de felicidade, algumas, de frustrações e de tormentos, outras. Naquela altura, porém, estava de partida para os Estados Unidos, para onde seguiu, pouco depois, em viagem de estudos. Somente ao retornar, meses depois, voltou a procurar o centro que lhe fora indicado sob circunstâncias tão complexas para ser orientada no trabalho que esperava realizar. Longe de ter chegado ao termo das suas dificuldades - disto ela saberia mais tarde -, elas apenas começavam. Se lhe fora exigida uma cota tão elevada de tenacidade e decisão apenas para que lhe indicassem um caminho, seria agora necessário acrescentar paciência e até humilde resignação à sua obstinação em servir da maneira adequada à causa que desejava adotar. É certo que o centro, ao qual fora encaminhada, dispunha de boa estrutura administrativa, desempenhava importantes tarefas de natureza social, doutrinária e mediúnica. E como era de se esperar, desenvolvera severos padrões de disciplina e de metodologia para cada setor de atividade, o que é perfeitamente compreensível e até desejável. Como realizar um trabalho sério numa comunidade movimentada e bem freqüentada sem regimentos adequados e normas apropriadas de procedimento? Cada um tem de saber o que deve fazer e precisa dar conta da parte que lhe toca no conjunto. O problema é que a tarefa mediúnica tem peculiaridades que não se deixam enquadrar na rigidez de certos esquemas inibidores. Claro que seu exercício precisa obedecer a uma disciplina operacional suficientemente severa para coibir desvios e ficar ao abrigo de influências negativas próprias do médium ou provocadas por terceiros. Mesmo nos limites de tal rigidez, é necessário deixar algum espaço para que cada médium possa movimentar seus recursos e faculdades pessoais, bem como expressar, de maneira adequada, a personalidade do eventual comunicante desencarnado. Sob esse aspecto, quase se poderia dizer que não há mediunidade e sim médiuns. A mediunidade é a expressão da sensibilidade do médium, seu instrumento de trabalho, e, como faculdade humana, guarda características pessoais, como o modo de caminhar, o tom da voz, a impressão digital, o feitio e ordenação da letra, o temperamento de cada um. Precisa ser disciplinada sem ser deformada, respeitando- se o contexto da personalidade humana no qual ela ocorre. É desastroso tentar impor condições inaceitáveis às suas manifestações. Esse equívoco de abordagem ocorre com grande parte dos cientistas que em suas pesquisas procuram impor à fenomenologia psíquica em geral, e à mediunidade em particular, padrões e metodologia de trabalho totalmente inadequados, que na maioria das vezes frustram o processo de observação e produzem resultados insatisfatórios.
TAG Valor
Nome do Capítulo O médium: eclosão, desenvolvimento e exercício de suas faculdades