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Entendo, pois, o déjà vu, como simples espiada no futuro, quando nos é exibida, não se sabe por que mecanismos ocultos e ainda incompreensíveis, a dramatização de decisões que ainda iremos tomar, mas que, na escala divina, já estão tomadas. Deus é paciente. Ele espera até que tenhamos aprendido a tomá-las corretamente. E estará ainda à nossa espera quando, afinal, chegarmos ao verdadeiro núcleo da sua realidade, de vez que, por enquanto, e por muito tempo ainda, estaremos apenas na sua periferia como partículas infinitesimais que, no entanto, compõem juntas a sua grandeza transcendente. Em tudo isso, uma só realidade futura está escrita, determinada, inevitável: a da perfeição. 2. COMO FUNCIONA O PROCESSO? Inúmeros casos de déjà vu são de transparente simplicidade, sem as sofisticações de envolvimento com os enigmas do tempo. Diria mesmo que são de rotina. Se nos lembrássemos melhor do que ocorre durante a noite, enquanto desdobrados, tais relatos se multiplicariam de maneira assombrosa. Não diz André Luiz que três quartas partes da população de cada hemisfério andam por aí a movimentar-se, à noite, sem o corpo físico? Não é, pois, de se admirar que, de repente, cheguemos a um lugar que nos pareça familiar. Isso ocorre com certa freqüência a Regina. Ela tem um caso típico desses. Foi convidada, certa vez, por um casal para passar uma semana em casa deles, fora da cidade. Regina não conhecia a casa, pois nunca estivera lá. A amiga lhe dissera que tinha um espaçoso quarto de hóspedes onde ela ficaria à vontade, confortavelmente instalada. Uma semana antes da viagem, no seu desdobramento 'rotineiro' provocado pelo sono comum, Regina foi até a casa deles e viu o quarto em que iria ficar. Não era, contudo, o cômodo grande e dotado de uma cama de casal de que lhe falara a amiga e, sim, um quarto pequeno, mobiliado com conforto mas com simplicidade: uma cama de solteiro e uma pequena secretária com uma cadeira. Numa das paredes havia um armário embutido. O cômodo se abria para um corredor que ia dar na cozinha. Ao chegar à casa de seus amigos, uma semana depois desse desprendimento, reconheceu logo o quarto que lhe foi destinado. Era exatamente o mesmo que vira em espírito: lá estavam os móveis singelos e a saída para o corredor que levava à cozinha. Para completar o quadro de autenticidade, a amiga explicou que o quarto que lhe estava destinado era o grande, mas que a nora havia chegado com o bebê e foi preciso localizá-las no cômodo maior. Se Regina não tivesse a faculdade de guardar na memória de vigília a lembrança de seus deslocamentos durante a noite, ficaria perplexa ao ver que, embora nunca tivesse estado naquela casa, conhecia perfeitamente o quarto. Às vezes, a forte impressão do déjà vu é invocada como evidência da reencarnação. É até possível isso, mas a hipótese não deve ser colocada açodadamente sem exame criterioso dos fatos. Em seu excelente Twenty cases suggestives of reincarnation, o dr. Ian Stevenson observa, no Caso Prakash, ocorrido na Índia e por ele próprio investigado, que o menino que se dizia uma reencarnação de Nirmal reconhece seu pai da existência anterior, bem como sua irmã Vimla, e sua mãe, Permeshwari Jain. E mais, descobre sozinho a casa onde residiu na vida anterior. Ao chegar contudo, em frente à casa, experimenta alguma hesitação. É que, segundo apurou Stevenson, a família fizera modificações que o famoso cientista descreve assim: A entrada da casa havia sido bastante modificada depois da morte de Nirmal, de forma que a entrada principal usada pela família fora consideravelmente deslocada para um lado diferente daquele em que estava durante vida de Nirmal. (Stevenson, Jan, 1966). Neste caso, o menino tinha convicção de sua existência anterior citou nomes de seus parentes, falou sobre as atividades do pai, perguntou por irmãos que não estavam ali no momento em que ele chegou etc.. Se contudo, de nada se lembrasse e, por acaso, visitasse o local onde vivia os seus antigos parentes, iria experimentar uma autêntica sensação déjà vu, inexplicável para ele. É possível que o caso do meu amigo engenheiro em Rotterdam, tenha sido algo parecido, mas não disponho de elementos para substanciar a hipótese, que é apenas lembrada como alternativa. Sem ter como rejeitar o fato, como vimos, só nos cabe descobrir as leis, contentando- nos com hipóteses razoáveis de trabalho. Três dessas hipóteses se apresentam com certo grau de confiabilidade: 1) a pessoa esteve no local em desdobramento, e depois vai lá em estado de vigília; a primeira vez em seu corpo perispiritual, a segunda, fisicamente; 2) a pessoa ali uma existência anterior e, neste caso, é bem provável que o layout local tenha sofrido alterações mais ou menos consideráveis que o sensitivo poderá reconhecer; 3) em vez de deslocar-se apenas no espaço físico, a pessoa desloca-se também no tempo, vê alguma coisa que ainda está por acontecer em dimensão diferente daquela na qual vive na carne e, depois assiste a uma espécie de replay, em video tape real, quando, na sua própria dimensão, ocorre o evento que já viu no futuro. 3. ÊXTASE Observamos que neste, como em tantos outros, senão em todos os fenômenos psíquicos, o elemento básico é o desdobramento do perispírito do sensitivo, seja para deslocar-se no espaço (visível ou invisível), seja para percorrer, num sentido ou noutro, a misteriosa realidade do tempo (não esqueçamos que Dunne descobriu isso, analisando seus sonhos). Tanto em um como em outro caso, podemos legitimamente concluir que, uma vez afrouxados os vínculos que nos prendem à matéria, o espírito escapa também de limitações de espaço e tempo, de vez que, como princípio innteligente imortal, ele participa de uma realidade hiperespacial atemporal. Convém uma vez mais lembrar que, imortal é aquele que não tem fim, não o que não teve princípio, este é eterno. Todos nós começamos a emergir para a vida em algum ponto de remotíssimas eras e, através de sucessivas aquisições funcionais, vamos enriquecendo faculdades e percepções. Se, olhando para trás, o limite é talvez a gotícula de vida aprisionada na célula primitiva que se associou em colônias, para frente não há limites concebíveis, pois somos não apenas herdeiros do infinito e da imortalidade, mas somos essas próprias realidades vivas pensantes e objetivas. Tanto quanto o universo em que vivemos, também somos um pensamento divino. No fundo, partículas vivas suspensas no cosmos como peixes num oceano, segundo a expressão de André luiz. Tais participação e integração no Todo levaram o Cristo a declarar: "Eu e o Pai somos um." A consciência dessa integração pode ocorrer em estados que alguns chamam de "consciência cósmica" ou êxtase (Regina tem uma experiência dessas que veremos daqui a pouco). Com a sobriedade que lhe é característica, O Livro dos Espíritos cuida do problema no capítulo sobre emancipação da alma, questões 439/446. Ensinam os espíritos, nesse ponto, que o "êxtase é um sonambulismo mais apurado" pois, "a alma do extático ainda é mais independente". Estamos, portanto, meramente perante um fenômeno de desdobramento, com a diferença de que é mais profundo ou para dizer a coisa de outra maneira: o espírito encarnado fica, no êxtase, mais solto em relação ao seu corpo físico e, portanto, mais independente, como dizem os espíritos. Os instrumentos do choque Ante o inusitado dos fenômenos, para os quais não encontramos analogias que nos ajudem a relatá-las e muito menos a explicá-las, o resultado é uma experiência rigidamente pessoal, intransferível e incomunicável, em vista da dificuldade em traduzi- los em palavras. Por isso, observam os instrutores da codificação que aquilo que ... ... o extático vê é real para ele. Mas, como seu espírito se conserva sempre debaixo da influência das idéias terrenas, pode acontecer que veja a seu modo, ou melhor, que exprima o que vê numa linguagem moldada pelos preconceitos e idéias de que se acha imbuído, ou então pelos vossos preconceitos e idéias a fim de ser mais bem compreendido. Nesse sentido, principalmente, é que lhe sucede errar. (Kardec, Allan. 1981) Depois de viver uma experiência transcendental para a qual não dispõe de conceitos adequados e nem de palavras apropriadas para relatar, o sensitivo pode ser levado a certas especulações que nada têm a ver com o fenômeno em si e sim, com a reação pessoal dele perante o fenômeno. Certamente que, preocupado com o assunto, Kardec voltou a ele em Obras Póstumas, com estas palavras: Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos extáticos longe estão de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição do espírito humano; somente quando ele há chegado ao cume da escala, pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo nem tudo compreender. Se, após o fenômeno da morte, quando o desprendimento completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coisas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo há de suceder com o espírito ainda retido na carne. (Kardec, Allan. 1978) É de notar-se, contudo, que a observação de Kardec visa principalmente ao extático habitual dado a revelações que freqüentemente envereda pela fantasia mais desvairada e acaba se transformando em guru, com seguidores tão atentos quanto iludidos com as suas estranhíssimas doutrinas que diz resultarem de seus colóquios com elevados espíritos ou com o próprio Deus. A dificuldade resulta precisamente da complexidade do fenômeno da ausência de conceitos aferidores, no contexto humano.
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Nome do Capítulo Déjà vu