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1. INTRODUÇÃO Se é que tive alguma sensibilidade anímica ostensiva foi aí pelo início da adolescência. Via-me, com freqüência, em situações da vida nas quais minha convicção absoluta de já ter vivido aquela cena. As pessoas faziam gestos que eu já vira e diziam palavras que já ouvira e até eu próprio fazia e dizia coisas que para mim eram uma repetição e, portanto, já acontecidas. Totalmente despreparado para esse tipo de manifestação, assaltava-me uma estranhíssima sensação de irrealidade. Como era possível eu saber exatamente o que esta ou aquela pessoa iria dizer ou fazer? Onde estava eu, afinal? No passado, no qual aquilo ainda estava acontecendo? Ou no presente, apenas recordando o acontecido? Só muitos anos mais tarde é que vim a entender que ali estavam meus primeiros confrontos com a misteriosa e complexa magia do tempo. De alguma forma que ainda hoje me confunde, tanto quanto naquela época, meu espírito desfazia as amarras do tempo e o dominava por alguns momentos, livre e solto pela multidão cósmica de tempo e espaço infinitos. Mas, como o pássaro ainda implume e bisonho que tenta voar sozinho, eu caía logo ao chão, de volta à dura realidade, onde tudo está arrumadinho na seqüência certa e familiar, ou seja, - passado, presente, futuro - dentro da qual podemos lembrar o passado, mas não o futuro. Descobriria, também, que o mundo inteiro adotou a expressão francesa para rotular o estranho fenômeno, chamando-o déjà vu - o já visto. Infelizmente acho que quebrei de uma vez as asas porque nunca mais, depois de adulto, consegui escapar dos grilhões pesados do tempo. Pelo menos que me lembre. Por outro lado, penso agora, de que me adiantaria isso? Eu continuaria a ignorar o mecanismo da coisa ... Um amigo meu, brilhante engenheiro que exerceu cargos de relevo na grande empresa a que servimos durante muitos e muitos anos, viveu inesperadas experiências de déjà vu, na cidade de Rotterdam, na Holanda terra de Erasmo. Andando pelas ruas, de repente, ele descobriu que conhecia a cidade sem nunca ter estado lá ou, pelo menos, assim lhe dizia sua memória. Sabemos, contudo, que a memória tem desses mistérios, como tempo com o qual mantém secretas maquinações para confundir os pobres mortais. O certo é que o meu amigo se sentia familiarizado com as ruas, as praças e locais de maior interesse histórico. Estava, portanto, vendo algo que já vira. O onde ele sabia; era ali, em Rotterdam, mas e o quando? Às vezes, como acontecia com J. W. Dunne, tais visões antecipadas que depois seriam déjà vu ocorrem em sonho, logo ao acordar, Dunne anotava cuidadosamente seus sonhos e, então, era só ficar à espera de que acontecessem. Coisa semelhante ocorreu com pessoas que contaram suas experiências à dra. Louise Rhine, esposa do famoso cientista criador da parapsicologia moderna. Conta ela, no seu livro Hidden channels of the mind, episódios em que, através dos sonhos, certas pessoas vão ao futuro e depois são surpreendidas com a realização do sonhado, em seus mínimos detalhes. Colin Wilson menciona experiências pessoais do dr. Michael Shallis, livro de 1982, intitulado On Time. Certa vez, Shallis era ainda uma criança: Lembro-me chegando à porta dos fundos de nossa casa e gritando pela minha mãe para avisá-la de que eu estava de volta, quando me invadiu a sensação de que aquele momento já havia ocorrido anteriormente imediatamente que minha mãe iria dizer que teríamos salada no jantar, que ela disse naturalmente. Tais experiências duram apenas alguns momentos mas são de dramática intensidade. (Wilson, Colin. 1984) De outra vez, já adulto, o dr. Shallis dava uma aula quando foi envolvido pela mesma e conhecida sensação de déjà vu. Ele sabia, por exemplo que iria sugerir ao aluno (era um só) certos exemplos constantes no livro que estava no seu gabinete de trabalho. E que ele, Shallis, iria até apanhar o livro. Resolveu, de repente, fazer um teste. Dessa vez mudar o futuro. Decidiu resistir, ou seja, não ir buscar o livro. Foi inútil. Tal como já lhe acontecera uma vez, ele ouviu sua própria voz dizendo dar um pulo ao meu escritório e apanhar um livro ... e foi. Mais uma vez o evento a que, de alguma forma, ele já havia assistido quando o futuro, aconteceu irresistivelmente. Tais fatos são o desespero dos pensadores. O conceito de que o futuro já aconteceu e que nada podemos fazer para modificá-lo,é obviamente irreconciliável com qualquer visão racional da existência humana. Como William James temos de acreditar no livre arbítrio, se é que estamos interessados em fazer o melhor que pudermos. (Idem) Bozzano também enfrenta essa perplexidade, com um enfoque diferente: Em meu livro Os Fenômenos Psíquicos, tinha eu concebido no mesmo sentido a conciliação das teses filosóficas do livre-arbítrio e da fatalidade, consideradas em relação com a clarividência do futuro. A fórmula a que cheguei foi esta: "Nem livre- arbítrio, nem determinismo absolutos durante a encarnação do espírito, mas liberdade condicionada". (Bozzano. Ernesto. 1930). No seu entender, "a única hipótese capaz de explicar o mistério seria a da reencarnação". É certo isso, dado que a reencarnação decide a questão livre-arbítrio/determinismo não no âmbito dos exíguos limites de tempo e espaço, mas na perspectiva da imortalidade em que se projeta o ser humano. É evidente que a reencarnação é uma realidade insofismável e que a própria ciência obstinada do nosso tempo começa a aceitá-la, premida por um volume esmagador de demonstrações. Porém, a despeito de concordar com Bozzano em gênero, número e grau sobre a doutrina palingenésica, ela não me parece decisiva neste contexto, dado que se alguém pode ver o futuro que ainda está no dia de amanhã, no mês que vem ou daqui a um século ou dois milênios, então é porque haverá quem o possa ver em nossa última encarnação e mesmo além disso. Em A memória e o Tcmpo proponho considerar isto dentro do conceito de que Deus não pode ignorar o futuro. E se Deus o conhece, o futuro já existe. Quer isto dizer que não temos como fugir ao nosso roteiro espiritual? A experiência do dr. Shallis com o livro poderia indicar que sim, mas não entendo a coisa dessa maneira. Em primeiro lugar, o dr. Shallis poderia - não digo que estivesse - estar sujeito a uma influência espiritual que o induziu a ir buscar o livro. Não creio, porém, que fosse o caso aqui. O que ocorre, a meu ver, é que numa projeção sobre o futuro, o dr. Shallis já havia visto todo o desenrolar da aula naquele dia, fenômeno que muitas vezes ocorreu com Regina. E viu que, em determinado momento, ele dizia ao aluno que iria ao seu gabinete apanhar um livro para discutirem juntos o exemplo que integrava o tema da aula. Chegado o momento em que o déjà vu ocorreu, ele quis deliberadamente interferir e simplesmente não o conseguiu. Se tivesse conseguido, então, sim, teria desafiado o seu próprio livre-arbítrio, uma vez que já decidira ir apanhar o livro, fato esse que ele já vira acontecer em alguma dimensão do tempo. A não ser assim, como entender que algumas pessoas possam descrever, com minúcias, eventos que só irão acontecer dois anos ou vinte séculos depois? Não há como explicar de outra maneira: os eventos previstos já existiam na memória de Deus. Isso não quer dizer que cada um de nós tenha de passar por ali obrigatoriamente, mas que Deus, na majestade da sua postura intemporal, já nos viu no futuro passando por ali ... Talvez por isso dizia Cayce que Deus é Tempo. Espaço e Paciência. Como iria Ele permanecer à mercê do tempo e do espaço, se tudo isso é criação sua? E preciso que haja uma força ou inteligência acima dos contingenciamento de tempo e espaço capaz de criar essas realidades sem contudo, ficar sujeita a elas, o que seria contraditar não apenas faculdades divinas, mas a própria realidade que aí está e na qual vivemos e nos movemos, no dizer de Paulo. O Criador não cometeria o equívoco ingênuo de se deixar dominar pela sua criação e encerrar a si mesmo no cárcere tempo/espaço em que vivemos. É isso, portanto: somos criados simples e ignorantes, como diz a doutrina espírita. Com as primeiras luzes da razão, em algum ponto do processo evolutivo, somos dotados da faculdade do livre-arbítrio que será daí em diante, a nossa bússola, ainda que sustentada pelo instinto, inteligência que não erra. A ação é livre, mas não a reação, seja qual for, contudo, a forma de utilizarmos a nossa faculdade de decisão, Deus a respeita até extremíssimos limites de tolerância (Ele é paciente, como dizia Cayce), mesmo porque estamos presos ao contexto fixado nas leis cósmicas que regulam todo o universo material e ético. Sejam quais as nossas decisões, por mais longo seja o caminho a percorrer, há de haver uma inteligência reguladora que já nos viu percorrendo todo o caminho que vai dar nos últimos patamares da perfeição. Se nós, simples mortais, contidos ainda nos limites de um corpo material podemos, às vez; dar certas escapadas ao futuro e ver o que está reservado para nós, por que razão não poderia fazê-lo a inteligência que criou e sustenta todo o sistema universal? Logo, não é o nosso futuro que está determinado e não temos como escapar dele. Alguém lá em cima, contudo, já sabe o que vai acontecer, e que decisões vamos tomar, da mesma forma que um bom astrônomo pode calcular quando e onde, no espaço cósmico, se encontrará daqui a seiscentos anos, um determinado corpo celeste. O que para nós parece errático e irregular, complexo e incompreensível, é aritmética elementar na mente divina.
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Nome do Capítulo Déjà vu